Bruxas de domingo

Há tempos eu não devorava um livro. Sendo um livro de contos, isso é ainda mais extraordinário. Contos de diferentes autores, algo inédito. Veja bem, do meu ponto de vista, é mais comum “devorar” um romance, uma história completa, daquelas que te puxam enquanto te fazem aguardar o final quase como um êxtase. Os contos, não raro, exigem algum respiro, algum tempo, um assentamento entre um e outro. Com autores, por vezes, é preciso “sair” de um para conseguir “entrar” em outro. Sendo assim, um livro de contos lido em (praticamente) um único fôlego, merece alguns cometários.
De fato, não posso dizer que a leitura da Coletânea Sagas, vol. 3. O Martelo das Bruxas – editado pela jovem editora gaúcha Argonautas – tenha me surpreendido. Os cinco autores que aparecem na capa (mesmo que nunca tivesse lido nenhum deles) são velhos conhecidos por conta de resenhas e indicações que recebo pelas redes sociais e blogs literários. Logo, fui para os textos com alguma expectativa: queria algo bem escrito, leve, rápido e envolvente, tudo o que achava necessário para uma tarde de domingo. Não me decepcionei de forma alguma.
Sagas – O Martelo das Bruxas é um livro fino, de edição que lembra as Pulps, bem diagramado e com um único erro de digitação em todo o livro. A coletânea apresenta a maturidade de ser a terceira, pois os autores atuam em conjunto como uma orquestra afinada, sem destoar. Os estilos diversos acabam complementando e dando o necessário refresco ao leitor, pois ir de um a outro escritor não cansa, pelo contrário, estimula. Admito que o tema é particularmente de meu agrado. Primeiro, são contos de literatura fantástica. Segundo: a caça às bruxas foi possivelmente o assunto que mais estudei em minha faculdade de História. Compreendê-la alimentou meu feminismo, minhas posições políticas, minhas dúvidas acerca da transcendência. É um tema que chega pouco às escolas e ainda é cercado por medo e a mais terrível das ignorâncias. Ficcioná-lo, creio, não é apenas uma forma de alcançar leitores, mas também de estimular sua pesquisa e compreensão em outras esferas. Se algum professor de ensino médio ler isso, creia-me, indique este livrinho aos seus alunos e deixe que eles lhe façam as perguntas que lhe vierem. Ele, Você e sua turma crescerão com isso.
Sobre os contos, breves comentários para não acabar com o prazer de ninguém.
O primeiro conto Cada história tem… do escritor norte-americano radicado no Brasil, Christopher Kastensmidt, explica porque o autor foi indicado ao prêmio Nebula Awards. Escrevendo numa língua estrangeira, o texto limpo e objetivo de Kastensmidt é de deixar muito brasileiro de nascimento envergonhado. Mesmo no uso paralelo dos pontos de vista dos dois protagonistas (coisa que nem sempre aprecio) as passagens são afinadas, sem saltos e, principalmente, sem aquela impressão de que se está assistindo a um filme.
O conto de Ana Cristina Rodrigues – O quão forte pode um gigante gritar – traz um mundo paralelo que vem e se toca dolorosamente com o nosso. A autora banca o flautista de Hamelin, pois é possível que o leitor se iluda com seus personagens com leve aparência de Tolkien e Bradley. Não se engane, a aparência é leve e o conto não é sobre isso. É sobre fanatismo e crueldade, e também sobre o que não se consegue conter. É, claro, também sobre amor.
Encruzilhada, de Douglas MTC tem a narrativa mais diversa. Em alguns pontos grandiloquente, em outros intencionalmente truncada. Como cheguei rápido nele, demorei algumas páginas a perceber que estava dentro de um universo em que o onírico e a realidade não se dissociavam. Não há parâmetro de bom e mal aqui, tudo se mistura e converge. Ao fim, o conto causa estramento, mas no bom sentido da palavra. 
O conto de Ana Lucia Merege, A Justiça deste Mundo, é perturbador. As personagens são traídas por suas escolhas, são fracas, tolas, excessivamente confiadas, corrompíveis. São terreno fértil para os demônios sagazes. O tema, neste conto, não é a magia, mas ou a luta entre duas formas de pensar. Os dois lados são peões num tabuleiro de xadrez em que o principal jogador não é deste mundo e seu oponente está ausente. Minha única crítica fica por conta da opção da autora por escrever no tempo presente. Sim, o problema pode ser meu, mas isso verdadeiramente me atrapalha na leitura de um texto, quando vejo, sem pensar, minha mente está convertendo verbos a um tempo menos visual.
Por fim, o conto de Duda Falcão, Missa Negra. É o único que é escrito tendo por cenário um tempo moderno. Claustrofóbico, de ação lenta, quase inexistente. Lembrou-me um pouco Lovecraft. Deixa um gosto de “sem saída” ao final do livro. O narrador/personagem consegue carregá-lo junto em sua depressão. De fato, acho que eu apenas gostaria que, ao fim, a dúvida entre verdade e loucura se instalasse. Isso diminuiria a depressão do conto e aumentaria o medo. Contudo, a escolha do autor é muito bem sustentada na narrativa e mantém o final no alto nível de todo o texto.
Se há alguma dúvida de que recomendo o livro aos apreciadores de contos de literatura fantástica, aí vai: recomendo.

Ficção científica e saudade

Ainda não perdoo o Maneco por ter morrido. Mais ainda esta semana. Terminei de ler um bom livro de ficção científica e li-o todo pensando no quanto eu queria dividi-lo com ele. Foi o Maneco – o melhor amigo do meu pai, meu tio favorito emprestado, meu compadre – quem me emprestou, e me fez ler, meu primeiro livro de ficção científica. O livro que ele me emprestou? Uma bobagem. Coisa ruim mesmo. Mas não acho que ele o emprestou porque tivesse gostado. Apenas acreditou que seria o livro mais apropriado para seduzir uma leitora de 13 anos. E foi. Trocamos muitos livros desde então. E tinha vezes em que ele locava filmes unicamente para ver comigo. Meu pai e o Maneco me tratavam como adulta e o respeito deles por mim pautou as formas como admito ser tratada.

Nestes anos de falta, doem sempre as festas e, com certeza, cada almoço de domingo. Porém, é a primeira vez que me dói um livro em tal quantidade. Queria a opinião dele, queria comparar com a minha, queria saber o que ele acharia de possível no futuro descrito no texto, queria seu conhecimento de física e tecnologia para me explicar. Queria que meu amigo de vida inteira – eu nem andava e já tinha esse amigo – estivesse ao alcance do meu telefonema. E, no próximo domingo, eu lhe levaria o livro e ficaria a aguardar quando ele ligaria, provavelmente convidando o Guto, o Miguel e eu para jantarmos cachorros quentes e me pediria um bolo. Então, teríamos conversa até a uma hora da manhã e, é claro, discordaríamos; o Guto faria piadas e o Maneco o chamaria de monstro, por não respeitar coisa alguma. Depois, enveredaríamos pelo livro que o Guto está lendo e o Maneco emprestou. Algo com física para leigos que os muito leigos não entendem, mas o Maneco nos explicaria nos intervalos das vezes em que o Miguel nos estivesse puxando de um lado para outro.

Há épocas que nos povoam de mortos e a saudade é boa e ruim, e não há nada que se possa fazer com ela. Só guardá-la. Estará sempre na estante, me olhando, com a paz dos livros lidos e a afoiteza dos que me esperam.

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Para não dizer que não falei dos livros, os citados foram: Yargo, romance de ficção científica de Jacqueline Susann (foi o que li aos 13); Cyber Brasiliana, de Richard Diegues (que movimentou esta postagem); e O Quark e o Jaguar, de Murray Gell. Recomendo os dois últimos se você tiver mais de 13 anos.

Como ler um texto acadêmico em Humanas

Em geral, quando alguém diz que pretende escrever (seja o que for), os mais experientes lhe recomendam que leia e, provavelmente, os menos experientes fariam a mesma recomendação. O problema, porém, não é apenas entupir-se de letras e palavras, mal mastigadas, mal deglutidas, mal digeridas. Para escrever bem é preciso LER e, ao contrário do que dizem, passamos toda a vida aprendendo a ler. 
Mas deixo uma ressalva aqui e agora: falo de aprender a ler e não de estar alfabetizado. Conhecer a língua portuguesa gramaticalmente é obra a ser completada no ensino fundamental e médio. Finda a ressalva. 

Comentei num post anterior que venho trabalhando-me para ser também uma leitora melhor e, em função disso, tenho lido livros que parecem falar aos escritores, mas que falam também aos leitores. Porém, todas estas obras dirigem-se ao leitor de ficção, mas este não é o único leitor. Tampouco o único tipo de escritor que há. 
Assim, cerca de quatro anos atrás, ministrei uma disciplina chamada Produção Textual em História. O intuito era facilitar aos nossos alunos a escrita de sua monografia de conclusão de curso, ritual de passagem temido e odiado pela maioria. As famigeradas 30 ou 40 páginas são dores de cabeça constantes para os concluintes e (não em menor grau) para seus orientadores. Comecei falando de narrativa. Assistimos ao belíssimo Herói (filme que recomendo). Vimos como é possível dar uma mesma informação por pessoas ou órgãos diferentes. Fizemos alguns exercícios. Então, percebi o óbvio: estava ensinando a escrita sem saber exatamente como meus alunos liam. Claro que costumo evidenciar logo nas primeiras aulas o que acho serem as etapas básicas da leitura acadêmica: 1ª leitura – reconhecer o texto; 2ª leitura – saber do que o texto trata em profundidade; 3ª leitura – compreendê-lo; 4ª leitura – relacioná-lo com outros textos. 
Os quatro passos genéricos serviam para alguns, mas nem todos pareciam segui-los ou internalizá-los. Então, formulei uma sequência mais completa, com a intenção de ajudar um leitor a seguir um texto acadêmico. Hoje, organizando a vida, encontrei com este material e resolvi postá-lo por aqui. 
Como ler um texto Acadêmico das Humanas: 
1. Localizar quem é o autor.
2. Título do capítulo, título da obra, que tipo de obra: o que tudo isso informa sobre o texto?
3. Como o autor começa?
4. Que elementos o autor utiliza para definir o tema?
5. O autor define os objetivos do artigo? Como?
6. Ele problematiza o trabalho? Como?
7. Quais os principais problemas que o autor aponta para o tema que ele propõe?
8. Quais os conceitos que o autor utiliza e como ele os aborda?
9. O autor faz uma revisão bibliográfica? Neste caso, preste atenção em:
a) que autores e obras ele cita?
b) o que dizem estas obras?
c) os autores citados se contrapõe, concordam ou se complementam?
d) o autor do texto concorda ou discorda deles?
10. O que o autor agrega, em termos de argumentos, o seu texto ao debate com os autores que ele cita. Você consegue perceber que é um diálogo? O que o autor ressalta da fala dos outros autores e como ele opõe ou concorda com o que já foi escrito?
11. O autor recupera obras que trazem como modelo o tema que ele está abordando? De que forma ele as apresenta?
12. Como o autor apresenta o problema das fontes? Qual é a visão dele? Ele apresenta a visão de outros autores? Ele concorda ou discorda dos outros?
13. Como o autor estrutura os trabalhos analisados no tema abordado em relação ao uso de fontes e métodos?
14. O autor se posiciona sobre a validade desses usos?
15. O autor se refere à escolas de pesquisa? Quais? E, principalmente, COMO?
16. Quando o autor começa a desenvolver sua própria idéia sobre o tema?
17. A partir de que problematização ele discute?
18. Como ele faz isso?
19. O autor cita outros autores e obras nessa parte? De que forma?
20. Ele retorna à obras já citadas? Como? Qual o seu objetivo no texto ao fazer este retorno?
21. Que outras questões ainda aparecem?
22. De que forma o autor começa a concluir? Como ele finaliza?
23. Situe em termos de páginas: introdução, revisão bibliográfica, problemas, desenvolvimento, conclusão.
São 23 pontos árduos, mas que, acredito, podem ser internalizados aos ponto de serem imperceptíveis, de serem feitos de forma quase automática. Mas acho um bom guia de trabalho. Para ler. E, certamente, para escrever dentro da academia.

Da arte de abandonar livros

Discussão comum entre leitores: abandonar ou não um livro? Os mais obsessivos (o que todo leitor é em maior ou menor grau) sentem-se desafiados e vão até o fim, independente do que estejam lendo. Outros, preferem nem começar se o livro tiver “falhas de nascença”, ou seja, começar mal. Há ainda os defensores da necessidade de resistir mesmo aos começos ruins, para ao fim, ganhar-se um grande livro. Como sou partidária do lema: a vida é curta e a lista (de livros) é longa, abandono sem remorso. Algumas vezes, para não entrar em longos debates com fãs ardorosos, acabo não dizendo quais livros ou o porquê do abandono. No entanto, acredito piamente que é possível vencer a “necessidade” de terminar um livro, fechá-lo com decisão e passar ao próximo. Sintetizei meus motivos abaixo. Listinha de 10 para que não falem que não gosto de listas (adoro):
1. Primeira frase ou parágrafo ruim. Sim, acho válido. Começou mal, nem tenho vontade de ir adiante. Pelo menos no primeiro parágrafo é necessário que o autor indique algum ritmo de prosa, e que esta seja atraente e dê vontade de prosseguir.
2. Texto grandiloquente por mais de 3 ou 4 páginas. Há quem goste, a mim enfadonha. Fica até legal numa primeira página, depois da terceira ou quarta a sensação de que algo está prestes a explodir me cansa. 
3. Narrativa cinematográfica. Simples assim: quero ver um filme vou ao cinema. Um livro tem de ter linguagem literária. São artes diferentes. 
4. Filosofia barata. Não dá… simplesmente não dá. Seja auto-ajuda, literatura de auto-ajuda, seja o que for. Corro na primeira frase que cheirar a isso.
5. Termos descolados e excesso de palavrões para o autor “parecer” cool. Quando o autor é, cola. Quando não… Preciso explicar?
6. Personagens que não convencem. O autor aparece o tempo inteiro ou neles ou os manipulando. 
7. Personagens cujo o destino não me importa. Coisa de empatia. Se depois de uns 5 ou 6 capítulos o que vai acontecer com as personagens pouco se me dá, não tenho interesse em acompanhá-las até o fim do livro.
8. Excesso de descrições. Este é um item negociável. Há autores que fazem isso de forma encantadora, outros te fazem pular parágrafos. Se eu começo a ler duas frases e pulo para o diálogo é indício que estou a dois passos de fechar o livro.
9. Furos narrativos. Exemplo sem citar nomes: protagonista de 16 anos desce de um carro, ao crepúsculo, com chuva, ajustando uma capa sobre a cabeça e corre em direção a uma confeitaria. Durante a corrida, ela descreve com detalhes a porta da confeitaria artisticamente feita em marchetaria e alto relevo. Entendeu? Ah, eu disse que o texto é uma memória escrita 50 anos depois? Pois é.
10. Excesso de metáforas, figuras de linguagem, floreios e adjetivos. Não sou contra o uso, sou contra o excesso e o excesso mal colocado. Deixa o livro ruim e fim de papo.

Primeira Leitura

Minha primeira leitura do ano foi Marina, do Carlos Ruiz Zafón, autor catalão que se tornou sucesso mundial com um livro posterior: À Sombra do Vento. Não li seu best seller e Marina acabou em minhas mãos por um conjunção entre indicação, preço acessível e a vontade de dar-me algo novo no Natal. Não direi que o livro é ruim, pois eu acabei a leitura, o que é mais do que posso dizer sobre muitos outros livros de autores bem recebidos no mercado e que abandonei no meio. De fato, consigo compreender quem gostou ou venha gostar do romance. Imagino que ele possa conquistar alguns fãs ardorosos e, portanto, se você está neste time (ou pretende incluir-se nele), sugiro que se poupe e não leia o restante, pois vou apresentar as razões de por que não gostei.
A primeira coisa a ser dita é que Marina compõe-se de duas histórias que se entrelaçam de forma não muito convincente, mas entrelaçam-se. Há dois mistérios. Um envolvendo a personagem título e que, provavelmente, o leitor irá perceber bem antes de chegar ao capítulo 10, mesmo que o autor somente o revele nos capítulos finais. A segunda história é de um mistério maior e é a que consegue te envolver para levar até o fim do livro. Mas está bem longe de ser algo avassalador ou inexpugnável. O autor usa como referência dois clássicos do terror, mesclando-os (não contarei para não estragar possíveis prazeres). O problema é que esta referência é óbvia o bastante para deixar o leitor muito certo do que irá encontrar à frente, o que, num livro de mistério é um pecado. A não ser, claro, que esta não fosse a pretensão de Zafón. Como o livro se diz para o publico juvenil, imagino que o autor quisesse encontrar um grupo mais desavisado de leitores e assim, instiga-lo à leitura de clássicos. Imagino…
Porém, foi com a primeira história que senti-me mais desconfortável. Além da quantidade de clichês dançando à minha frente, há uma sucessão de adjetivos tão grandes que, em alguns parágrafos tive a impressão do autor com uma metralhadora. Há um, no primeiro capítulo, cuja a impressão é de que os substantivos é que foram cortados. De fato, o primeiro capítulo incomodou-me a ponto de eu pensar que o livro ganharia muito, se ele fosse simplesmente cortado. Nele, o autor apresenta seus narrador e personagem principal. Este narrador vem, 15 anos depois dos acontecimentos, revisitar as memórias de quando ele tinha 15 anos. Aqui, o texto se superficializa muito, pois o narrador floreia as memórias do jovem com percepções – especialmente sobre a arquitetura de Barcelona – que me pareceram difíceis de estarem na cabeça de um jovem de 15 anos. Claro, no futuro, o narrador personagem será arquiteto (mas o leitor não sabe disso); claro, ele pode estar floreando a memória com percepções posteriores; claro, eu estou sendo tremendamente chata, mas o fato é que não me convenceu. Senti-me incapaz de alcançar o personagem. Ao contrário, eu sequer o via adulto. O que eu consegui vislumbrar foi autor falando pelo narrador e, acho, não era o que ele queria como escritor, nem eu como leitora, naquele momento.
Após os capítulos iniciais, felizmente, o autor rende-se à sua história e diminui grandemente a quantidade de adjetivos o que ajuda a leitura a fluir. Existem duas histórias espelho no texto (mais duas), que se tocam sem se completar e acabam se perdendo. O fim é vertiginoso, mas no capítulo clímax, infelizmente, na hora de maior tensão, Zafón nos arrebata do texto e nos leva ao cinema. Há quem goste. Não é meu caso.
Depois disso tudo, posso dizer que recomendo o livro? Não, acho que não, mas acredite, é bem possível que outros leitores não notem nada do que escrevi e gostem muito do romance. E, por favor, não pense que o que disse me jogará longe de outro Zafón. Há qualidade nele e lhe darei mais chances. Contudo, após a leitura finalizar, eu precisava exorcizar Marina de mim, por isso escrevi aqui.
P.S.: Achei resenhas mais abanadoras do livros, mas que entregam tudo o que devia ser mistério. Não vou indicá-las aqui por isso.

Prazer de ler

Durante o ano que findou iniciei um tipo de leitura que, embora não me fosse novo, nunca tinha feito com afinco e mais: com verdadeiro prazer. Falo de ler sobre a construção ficcional. Inicialmente, minha intenção era qualificar minha escrita, aprender, regular meu olhar para as inúmeras e (por que não?) enfadonhas releituras que o processo exige. Mas, então, em poucas páginas, vi-me do outro lado. Estava ávida sim, mas não como escritora. Era a leitora que aprendia. Depois de décadas, tenho me deliciado em aprender a ler.
Comentei os dois livros anteriores desta jornada aqui no blog. Primeiro, foi Oficina de Escritores, talvez, o mais direto para quem escreve ou o mais operativo, certamente o que mais dá apoio nesta casa inconclusa de cômodos vazios a serem preenchidos que é o desejo de escrever. Depois, li o genial  Como Funciona a Ficção, que figurou em várias listas como um dos melhores livros de 2011. Não li os outros, mas este, certamente, é. Diferente de Oficina de Escritores – que é escrito por um escritor e professor de escrita criativa -, Como Funciona a Ficção é escrito por um crítico literário. Sem pedantismo e com a paixão pela literatura impregnando cada palavra, o autor mostra o que, afinal, tanto delicia aos críticos ao lerem uma obra literária. De quebra, aprende-se. Obviamente não se vai passar a ler livros como um crítico, mas me peguei desejosa de ler obras clássicas que jamais haviam figurado em minhas listas de “quero ler”.
Então, ganhei o encantador A Arte da Ficção, David Lodge. Como Stephen Koch, o autor é escritor e professor universitário de escrita criativa. O livro surgiu de uma série de 50 artigos escritos para as páginas literárias do jornal The Independent on Sunday, depois organizados em livros. São artigos curtos, altamente didáticos, perfeitamente claros e expressivos, mas nem por isso menos interessantes ou inteligentes. Nunca consegui ler mais dois artigos por dia, isso porque, após a leitura de cada um, havia muito o que pensar, localizar, absorver. O autor usa um esquema fixo: uma proposição no título, um exemplo retirado de uma grande obra ficcional e a explicação sobre tal uso na literatura, algumas vezes, cruzando com exemplos de outros autores.
Ao fim dele: 
1. aumentei minha lista de leituras que preciso;
2. senti-me mais inteligente;
3. convencei-me de que minha escrita nunca chegará tão longe;
4. sou uma leitora melhor e, provavelmente, ainda mais chata.
Fiquei tremendamente satisfeita com o resultado e recomendo para quem busca uma boa leitura de férias, seja qual for seu interesse. Único pré-requisito: amar a literatura.