Lascas e cicatrizes


Ainda lembro quando o primeiro prato da minha casa de adulta lascou. Não quebrar, porque, afinal, muitos já haviam sido quebrados por acidentes diversos. Mas, lascar, ali, na pontinha. Fosse um prato de todo dia, nem o perceberíamos. Acontece que era um prato daqueles, sabe? Dos bons, dos que somente se tira para as visitas. Não que fosse algum tipo superior de faiança. Não, não. Apenas não era o ordinário, era o mais guardado. Quando se tem pouca coisa – como era na época – e se conta os trocados, isso tem um potencial bem grande de virar quase tragédia. As mulheres, em geral, dão uma atenção exagerada para isso; e eu vi ali a tentação de me escabelar por um prato lascado e reclamar da vida que não me permitiria comprar outro, que me faria escondê-lo, limitar meus convidados ou colocá-lo sempre no meu lugar da mesa. 

No entanto, sobreveio-me uma espécie de epifania. Olhei meu marido, dei de ombros e disse: a vida lasca! A vida não fica quietinha, na prateleira, em exposição. Ela lasca, perde o esmalte, os desenhos perdem a cor. Acontece porque está em uso. Vidinha ruinzinha aquela em que os nossos melhores jogos de pratos permanecem virgens, intactos, sem quebrar nenhum, sem lascar. Significa que estão sem uso, sem amigos para comer neles, que nunca vão à mesa e que sua existência se resume ao conhecimento da parte interna da porta nunca aberta do armário da cozinha.
Senti-me muito superior naquele dia. Coisas que a epifania dá. Eu havia entendido um segredo da vida e as lascas não mais voltariam a me incomodar, minha existência atingiria outro nível. 
Demorei algum tempo para colar as coisas, isso porque as lascas que tenho de lidar, hoje, são comigo. E, descobri, é bem mais difícil ser indiferente quando é nosso corpo que se rasga e se marca pela ação do tempo e da vida. Não, não falo das rugas, sempre soube que chegariam, nunca me preocupei, de fato, nem as tenho. Falo de cicatrizes. Das grandes. Das que passam a companheiras e precisam, por elas, uma nova geografia, uma nova escrita do antigo corpo conhecido. 
Quando eu tinha uns 8 anos, minha mãe fez um cirurgia de vesícula. Algo tremendamente invasivo na época. O corte marcou a barriga dela e meu olhar. Sempre indignei-me com a possibilidade de ficar com uma marca daquelas. Nem uma, nem duas vezes, sugeri que minha mãe fizesse uma plástica, sei lá. Só olhar, já arrepiava. 
Então, quando meu filho nasceu, minha barriga teve de ser cortada de cima a baixo e do lado. Um conjunto de marcas que hoje me pertencem, me fazem, mas ainda luto para incorporar. É possível que haja alguém que encare a reestruturação do eu físico de forma fácil ou impassível. Não sou destes iluminados. Minha lasca é grande e eu a vejo todo dia. Ela modificou minha nudez, minha percepção de mim.
De início, a sua existência doía, mesmo que silenciosa. Depois, o tempo começou a construir uma indiferença de convivência, mas ela não era real. Era fingida. Uma simulação de ausência ante uma presença. A lasca/cicatriz sempre ali. Penso em mim e a vejo. E como a mente não constitui um mar de raciocínio lógico, não adiantam pensamentos como: “há pessoas com marcas maiores, mais duras, mais difíceis”. Não adianta o comparativo. Concorda-se com o argumento, mas ele não tem poder da epifania. Não transforma a realidade em aceitação imediata. Meu respeito aos que possuem lascas como as minhas, ou ainda maiores, cresceu de forma imensa e eu consigo ver beleza e conter meus arrepios e admirar a força de quem as carrega. Porém, na minha lasca permaneci frágil, ostentando uma força que eu sei fingir ter.
São quase três anos agora. Então, por um detalhe mísero, um pensar tão efêmero que nem lembro, a epifania veio. Meu corpo ainda sente não somente a marca externa, mas as internas também, sempre a lembrar que a cicatriz existe, que os cortes estão todos ali. Porém, meu filho me lembra todos os dias por onde e como ele nasceu e isso me faz ver a marca como nada. Na frente do espelho, lembro que eu também renasci através dessa marca. Que estas lascas são meus anos vindouros, os anos vindouros do meu filho, o riso com os meus amigos, as festas com a minha família, os livros que vou ler, as palavras que escreverei. Nunca mais terei uma barriga lisa, e não creio que poderei achá-la bonita, mas eu já posso incorporá-la. Lasquei sim, mas é porque estou em uso e é muito bom continuar por aqui.

Um pouco de feminismo e um pouco de nordeste

Estou sempre contando esta história, mas nunca a escrevi. Talvez porque para contar meus vividos eu seja muito detalhista. Verdade, não acho que conte bem histórias em voz alta. Ponho detalhes demais e dependendo da narrativa me inflamo. Tem ouvinte que me acha pronta para a briga. Transporto-me com facilidade ao passado por ser memoriosa excessiva, das que pouco sofre a ação do tempo. Nos detalhes, lá vou eu outra vez me indignar, erguer os punhos, dizer o que disse e o que me ficou travado na garganta. Escrevendo sou um tantinho mais capaz por saber usar com tranquilidade os dois (excelentes) recursos de apagar que os computadores oferecem. Ao fim do texto, posso reler e retirar os excessos. Um escritor fica bem melhor sem os excessos das pessoas que, como eu, falam demais.
Acho que devia ser maio de 1998. O ano eu lembro bem. Eu tinha casado em fevereiro e descobria muitas coisas sobre minha nova condição. Uma delas é que nascer já não tinha mais validade. Eu tinha casado. Uma segunda vida aflorava e, nos meus documentos, surgiria um novo dono. Mais ainda, eu devia provar a todos que eu não mudara o meu nome! Interessante o estatuto jurídico da mulher casada na época, provavelmente, a única peça do ordenamento brasileiro em que se devia provar o que não se fez. Obviamente me rebelei. Recusei-me a mudar meus documentos. Ainda mais porque nenhum exigência pesava sobre os documentos do meu marido. O qual, aliás, usava uma carteira de identidade arrebentada com uma rechonchuda foto de um garoto de 12 anos em preto branco que era bem recebida em cartórios, aeroportos e instituições públicas. A minha? Bom, como eu podia me declarar casada se não constava na carteira? Não importava se a moça da carteira era igual àquela sentada em frente ao burocrata. O menino da foto arrebentada era mais digno de confiança, certo? Afinal, ele nunca foi questionado por declarar-se casado e andar com uma carteira cuja assinatura em garatujas não batia com a atual. Já a moça… Bem, o que pensar de uma dessas que casa e não troca os documentos. Casa e não troca de nome.
– Minha senhora – eu respondo num fio de calma – eu não troquei de dono, porque eu trocaria de nome?
Ganhava um torcida de boca.
– Então, tem de apresentar a certidão de casamento.
– Certo. Então me faça o seguinte, a senhora pode devolver minha ficha.
Pego a ficha, rasgo e digo.
– Por favor, escreva na próxima: solteira.
– Mas…
– Eu me responsabilizo: solteira.
Outra torcida de boca. E uma expressão quase chocada dirigida ao meu sorridente marido, como se lhe perguntasse “e tu deixa?”. Se lembro bem, o Guto, a essa hora, estava mais preocupado em conter minha vontade de saltar (metaforicamente) no pescoço da funcionária da imobiliária do que em responder aos pedidos mudos dela para que “fosse homem”.
Ao contrário do que ouvi de algumas pessoas, minha decisão não foi um ato de rebeldia. Foi fruto de minha consciência histórica – no passado, se mudava de nome por se mudar de dono – e de minha compreensão feminista desta historicidade – não mudei de dono, logo, não me interessa mudar de nome. Sei que há posturas diferentes, que envolvem o que as pessoas entendem por ser um casal. Respeito. A que me serve é esta e ponto. Por outro lado, vou me indignar sempre que minha atitude for tratado como exceção, como se eu fosse incorreta num mundo tão certinho em que tudo funciona tão bem, há tanto tempo.
O problema é que lá pelo meio do semestre, eu perdi a carteira de identidade. Coloquei-a para marcar um livro é puff, nunca mais (descobri-a 3 anos depois). Então, lá tive eu de ir encarar as funcionárias do cartório de registro e  mudar os documentos que eu tinha jurado não mudar. Em bom português: estava puta da cara.
Na sala aguardávamos eu, uma outra jovem e um rapaz. Não demorei a descobrir ser a menina uma recém casada mudando os documentos para incluir o nome do marido. A funcionária anunciou isso bem alto e com elogios, logo após ter atendido o “meu caso”. Sentamos frente à frente enquanto não nos chamavam para sujar os dedos e éramos óbvias. Meninas de classe média, estudadinhas, de cabelinhos presos no alto da cabeça e alguma empáfia, eu na minha luta muda, ela na certeza de estar fazendo tudo como mandava o figurino. Nosso companheiro de espera também era jovem, mas tinha muito mais vida no rosto que a gente. As roupas eram simples e sua postura humilde. Olhava o chão e segurava com firmeza um saquinho plásticos com uns papeis amarelados.
Quando a funcionária o chamou e começou as perguntas, ele respondeu com voz clara e um natural sotaque nordestino (nossos desconhecimentos e as novelas da Globo nos impediram de saber de onde vinha o tal sotaque, que hoje sei ser muito diverso de lugara para lugar). Em 1998, isso causava espanto no interior do Rio Grande do Sul. Um imigrante! Vindo do nordeste. Então, assim que terminou de conferir os documentos, a funcionário principiou, sem a menor vergonha, a destilar preconceitos. Ironizou a perda de documentos do rapaz (eu não tinha levado nenhuma ironia por ter feito o mesmo). Depois, lascou o manjado e horroroso.
– Vocês lá levam uma vida fácil. Só na praia enquanto a gente trabalha para sustentar vocês.
(Cerrei o punho e estava prestes a levantar e dar uma aula de história, mas meu herói foi melhor, muito melhor).
– Dona – ele disse com uma raiva mais contida que a minha e que me deu inveja – vida fácil têm as mulheres daqui que abrem a torneira e sai água. (Para mim, ele não precisava dizer mais nada, mas ele continuou). As nossas tem de andar 5, 8 quilômetros para conseguir água para cozinhar. E ela não é limpinha, assim, que nem tem nesse tanque de água aí do lado da senhora. E elas fazem isso, enquanto os homens quebram pedra pra conseguir plantar.
Foi lindo! Sério. Minha vontade era aplaudir. Como não podia, me limitei a impedir que a funcionária retrucasse com um.
– Eu se fosse você, ia dar uma volta lá dentro agora.
Ela envermelhou ainda mais e aceitou minha sugestão. Bem que eu gostaria de ter lhe falado mais. De ter mostrado historicamente cada vírgula equivocada e triste que havia no seu preconceito.Queria lhe ter falado dos grandes escritores e de toda a cultura que herdamos do povo nordestino e de como as culpas sobre suas misérias recaem sobre todo o país. Porém, a funcionária já em nada me interessava. O rapaz, sim.
Encantada, aproximei-me dele para conversar, e a menina a minha frente fez o mesmo. Ficamos sabendo que ele tinha uma irmã que se parecia conosco (nossa idade, nossa cara de quem estudou, nosso jeito e disposição para ouvi-lo, não sei), mas ele elogiou a inteligência dela – tinha feito até a sexta série e era professora das crianças da sua região. Tivesse na capital, ele tinha certeza de que teria feito faculdade, porque ele não conhecia professora boa como ela. Ficamos sabendo da mãe que criara 8 filhos sozinha no meio da seca. E que ele não tinha gostado de São Paulo porque era grande demais. Tinham lhe dito que no sul tinha mais empregos e que aqui, em cinco anos, ele poderia ter uma casa com banheiro dentro.
– E nessa cidade tem faculdade, né moça? Quem sabe quando a minha irmã vier, ela não pode continuar a estudar.
Dei força. Afinal, minha pequena guerra naquela repartição era importante, mas a dele, era muito mais. Tenho certeza que a irmã dele deve ser uma grande professora, pois o irmão dela, mesmo sem estudo, foi um dos maiores professores que conheci.