Mil Histórias

Neste último semestre e nos próximos, os professores do meu curso resolveram que era hora de nos utilizarmos de um pouco de ousadia. Sendo assim, resolvemos que as disciplinas optativas deveriam abrir-se para seu foco original, ou seja, tornar o curso mais flexível e permeável a outras leituras da história. O resultado está sendo oferecido aos alunos e interessados assim.

Foi dessa forma que puxei para mim a responsabilidade de trabalhar com as disciplinas de História da Alimentação, História do Vestuário e História da Leitura. Obviamente, algumas perguntas advieram daí. Afinal, onde se constrói a competência para trabalhar com áreas tão diversas. Num momento de superespecialização da História em suas áreas de pesquisa, os historiadores tendem a ficar restritos aos seus estudos mais técnicos e teóricos e nem todas as fugas são bem vistas.
Como já comentei outras vezes aqui no blog – não quer dizer que o leitor deste tenha conhecimento – minha área de pesquisa em história foi, durante uma década, a História da Saúde. Finalizada esta etapa, tenho iniciado minha reconstrução como pesquisadora adentrando em outro campo, o da História da Leitura. Vem daí e, de minha declarada e pouco racional paixão por livros, meu mergulho nesta nova e instigante área do conhecimento. Trabalhá-la com um grupo de alunos também pretende ser uma forma de estimular o interesse deles e dar espaço ao meu novo vício em pesquisa.

Nesta semana, inclusive, vou fazer uma fala na Semana Acadêmica dos estudantes de História da UFSM, justamente sobre o assunto e convido quem estiver ou for de Santa Maria a passar por lá.

Mas, você pode perguntar: como chegou até a História da Alimentação? Pelo blog dá para saber que sou uma entusiasta da boa arte culinária e, de fato, esta nem é minha primeira experiência com a disciplina. E, como da primeira vez, eu cheguei a este campo pela porta de meus estudos em saúde. As referências à alimentação são onipresentes nos estudos que se faz sobre saúde, doença e mesmo medicina, a qual, por muito tempo andou de mãos dadas com a dietética. Mesmo entre os curandeiros populares, o consumo de alimentos aparece de forma constante como parte das evitações ou necessidades para o controle do corpo e do bem viver.
A diferença de enfocar o mesmo assunto – a comida – pelo viés da História da Alimentação ao invés da História da Saúde está no acréscimo de prazer ao estudo e seus resultados. Afinal, não se buscou apenas saúde à mesa, mas também o prazer do sabor, da comensalidade, das trocas nutricionais e simbólicas. Por outro lado, quando se fala de comida, também se fala de fome, de escassez, de falta de distribuição, de morte.

Uma disciplina como esta – e falo sobre a minha experiência – pode ser assaz transformadora. Isso porque ela tem um potencial de significação do mundo que nos cerca e nos informa, cujo poder é inusitado e nos atinge dentro de nossos particularismos. Parece estranho afirmar isso sobre uma disciplina de faculdade, contudo, eu acredito que a história da alimentação muito pode contribuir para reformular e arejar nossos programas de ensino. E este, talvez, seja um dos pontos mais importantes a serem debatidos e reforçados.
Infelizmente, mesmo dentro da academia, ainda é comum perceber estes outros campos da História como “curiosidades”. Só a palavra já me dá engulhos, pois ela trai um tipo de concepção de História com a qual não compactuo. Por outro lado, chamar História da Alimentação de curiosidade é não ver do que ela se compõe. Uma história da Alimentação é econômica (produção, região, meios de produção, regimes de trabalho, distribuição, consumo), é política (organização do trabalho, disputas de posse, poder econômico, expansão marítimo comercial, controle de estoques, redistribuição produtiva), é cultural (representações étnicas e religiosas da culinária e da comensalidade, estabelecimento de hierarquias por meio da comida, alteridade, diferenças, e identidade de grupo). Logo, estamos bem longe da época em que se fazia uma história culinária sobre quem inventou tal preparo de alimento ou bebida.
É fácil perceber que há um universo aí e que a História da Alimentação, antes de ser uma parte da grande História é uma PORTA para a grande História, pois é necessário trabalhar com todos estes elementos para compreendê-la e construí-la.
Manequim de costureira adquirido com o apoio da UNIFRA
para uso nas aulas de História do Vestuário.
Mas e a História do Vestuário? Isso não seria a máxima expressão de uma História frívola? Bem, primeiro é importante não confundir a História do Vestuário e a História da moda com a própria Moda. Segundo, aos historiadores cabe tentar compreender o que movimenta o mundo e a moda movimenta bilhões em capital e se irradia a quase todas as esferas da vida das pessoas. Por outro lado, olhando para o passado, é igualmente difícil perceber seu estudo como mera “curiosidade”. Igualmente identitário e econômico, o vestuário é a marca visível de grupos sócio-histórico-culturais que demonstram por seus lenços, batas, roupões, kimonos, cores, etc. que não há apenas o “modo ocidental” de vestir.
De fato, o estudo do significado das roupas ao longo do tempo e também (por que não?) do espaço é de grande importância para construir o respeito à alteridade. Alguns exemplos ilustrativos do que estou tentando dizer:
1. Os panos listrados já foram conhecidos no Ocidente como “panos do diabo” por serem parte comum da indumentária de judeus e muçulmanos.

2. O estudo da indumentária com características religiosas nos coloca em melhores condições de compreender ações arbitrárias como a proibição do uso do véu muçulmano em lugares públicos na França (em tempo, as velhas senhoras católicas ainda os usam em missas por lá).

3. O nu e o vestido ainda são tabus não apenas em termos de comportamento, mas nas sanções e discriminações feitas aos outros. Não vestir-se é ainda, para a grande maioria das pessoas e sociedades, um índice de selvageria e falta de civilização.
4. As tramas dos tecidos  superposição de roupas também seguiram as prescrições dos médicos e as crenças sobre o corpo, não se desvinculando de toda da história da saúde também.

Manequim de costureira masculino.




5. Os caracteres sexuais do vestir são tremendamente significativos da cultura e da identidade de pessoas e etnias. O ocidente não é imune com seu rosa para menina e azul para menino. Certo? Para quando? Além disso, temos o exemplo dos estudos a cerca das roupas íntimas femininas ligados aos movimentos de libertação da mulher tanto para o trabalho como para a vida sexual e social independente.
Espartilho datado de 1887

Os exemplos poderiam se estender ad infinitun, por isso, fica aqui meu manifesto para que olhe a história por outras portas, de outros lugares. Mas, principalmente, que não se veja estes olhares como acessórios. Deslocar-se por entre espaços de pesquisa apenas enriquece nossa disciplina e, mais, tende a contribuir para uma compreensão mais ampla do mundo para nós e para nossos alunos presentes e futuros.


Ah, claro, quem disse que não podemos nos divertir no processo?


Manequim de costureira de 1947 emprestado à UNIFRA para as aulas de  História do Vestuário

A Felicidade é Vermelha e Amarela

Este semestre, quando comecei as aulas de História da Alimentação, fiz uma pequena brincadeira com os convivas da disciplina. Pedi que eles se olhassem. Isso mesmo. Pedi que, em silêncio, olhassem muito bem uns para os outros, que decorassem e classificassem o que viam. Depois, pedi que fizessem um pequeno quadro mental, dispondo de um lado as pessoas que eles conheciam bem e, de outro, as que não conheciam tão bem assim. Feito o exercício, fui um pouco mais longe e pedi que, numa planilha semelhante e igualmente mental e muda, dispusessem, de um lado, as pessoas que gostavam, de outro, as que não gostavam tanto assim. Só depois disso, finalizei o que pensava e lhes disse que todas aquelas percepções acerca dos outros iriam mudar. O motivo era bem simples: ao longo daquele semestre, eles iriam cozinhar, oferecer banquetes e comerem juntos. Naquele momento inicial da disciplina, eu não conseguiria convencê-los do quão poderosas eram estas ações, não é algo sobre o que se possa falar e convencer, mesmo que as pessoas acreditem no que você diz. Mas, afirmei, eles perceberiam isso.

Primeira aula
Falei tudo isso com uma certeza que não vem de nenhum livro – de fato, não lembro de ter lido isso em livro algum. Minha certeza vinha de uma experiência prévia com a mesma disciplina e que já havia me causado espanto. Nada é mais gratificante para um professor do que observar transformações em seus alunos e nas relações que eles estabelecem uns com os outros e eu já havia visto isso, tinha certeza de que veria novamente. E, sim, eu estou vendo. Eles mesmos já vieram me contar sobre isso. Sobre essas transformações e elas são contadas com sorrisos, o que as tornam mais profundas e mais poderosas.

O bom destas aulas é que não sou protagonista, sou mera testemunha. Falo, claro, quase sempre um pouco demais, e meus alunos me lançam um olhar condescendente de “ah, certo, ela não consegue mesmo se controlar”. Logo, tudo vira conversa e, meio aos brados, tão diferente de uma aula convencional, o conteúdo vai sendo construído com sabor (com sabores vários); e vai se gravando, na mente, no paladar, nos olhos brilhantes, nas risadas – é claro que rimos muito – nos cochichos. Aula de História da Alimentação, eu bem sei, é aula eterna.

A pergunta de: como chegou a isso, afinal, esta não era a tua pesquisa? – como tudo que envolve alimentar-se – só pode ser respondida extrapolando a academia. Entretanto, há, sim, uma resposta acadêmica. Estudei a história da saúde por 10 anos, impossível ficar indiferente às mudanças alimentares. Mas são estudos sobre o que se come. E, o que se come, é apenas uma parte da história toda. Quando se come, com quem se come e porque se come têm a mesma crucial importância que o alimento em si. E, embora, os pesquisadores do tema sempre escrevam isso, não foi com eles que aprendi, mas na casa em que cresci. Dividir o alimento cuidadosamente preparado com montanhas de amigos é um credo que meus pais seguem com fé monástica e atitude idólatra. 
Foi ao redor da mesa deles que fui retendo aprendizados que se inscreveram em mim sem qualquer esforço. De onde vem cada alimento, como é processado, onde foi comprado, qual o lugar mais barato, como foi preparado, o que se poderia modificar na próxima receita. Ora, em outras palavras, história, geografia, técnicas agropecuárias, economia, gastronomia, química e futurologia (é claro). Nos intervalos dos conhecimentos principais, se falava  de sociologia (ou vida alheia), literatura (o que inclui os folhetins conhecidos como novelas) e biologia (um repasse sobre mortos, nascidos e engravidados entre os conhecidos). Num dado momento, vinham à tona as duas polêmicas favoritas entre meu pai e meu compadre (seu irmão de alma, meu segundo pai). A primeira era sobre o futebol. Meu pai nunca gostou, meu compadre era aficionado. Meu pai defendia que os resultados eram arranjados, meu compadre (mais tarde com a adesão do Guto) dizia que isso era um despautério. A segunda polêmica era do evolucionismo X criacionismo. Meu pai era e é árduo denfensor de Darwin, meu compadre defendia a curiosa (e polêmica) teoria de que a vida havia sido plantada na terra por seres extraterrestres (anos de leitura da FC lhe renderam bons argumentos).
Herdei dos meus pais algum talento culinário, mas pouco de seu talento agregador. Hoje percebo, ao dar aulas de História da Alimentação, que a alquimia entre pessoas começa nas panelas, nas cozinhas repletas, nas salas organizadas com esmero de almofadas afofadas, cantos limpos e tralhas discretamente escondidas, nos potinhos com ingredientes picados. 
Foi com tudo isso que me deparei este final de semana na casa vermelha e quente como um coração, que pertence ao Milton e a Claudia. As pessoas carregam de significados excessivamente duros palavras como aprendizagem, aula, conhecimento. A mim, todas estas palavras soam leves, alegres, divertidas. A Claudia, com seus banquetes temáticos dá aulas de turismo, etnicidade, alteridade, tolerância, reverência, respeito ao inovador e ao diferente. O Milton com sua fala socrática, sempre terminando em perguntas, não raro, fazendo piada das contradições é um manancial cultural e nunca, nunca, parece estar ensinando nada. Algo raro, encantador e que merece ganhar aquela marca: preciso aprender isso!

A História da Alimentação, porém, ensina que nem só da alquimia das panelas e dos anfitriões se faz o momentum (inventei isso) de um banquete. Nos convivas é que este processo deve se condensar e catalizar. O que sai pela porta, não é mais como que entrou e isso só ocorre porque em meio a tudo que se aprendeu. Esta palavra não é pesada, ela é o cerne de tudo, o fogo verdadeiro que causa a transformação. Neste banquete tivemos aula de música e sobre a força do silêncio que se compartilha quando todos ouvem e se emocionam com o mesmo.

O encanto da música russo-brasileira de Elena e Vladimir Romanov

O piano de Alexandre Constantino

Houve aula de risos, sorrisos, e flores. A Astrid e o Augusto trouxeram doces em tigelas e palavras. A Caminhante Fernanda foi professora sobre caminhar e sobre fazer isso com leves passos de dança. Não se traduz em palavras conhecer uma pessoa que vive como quem dança. O gesto dela tem ritmo, os olhos, paciência observadora e luz de palco. Imagino com que atenção os passos dela se fazem quando ela os constrói numa música.

Astrid e Fernanda contra o fundo Vermelho sanguíneo coralino da casa de Claudia e Milton
Eu já tive o imenso desprazer de ir à festas (de adultos!) em que os homens ficam de um lado e as mulheres de outro. Então, a beleza das fotos abaixo dá a dimensão do meu bem-estar.

Comecei falando de aulas, terminei falando de festa. A diferença está nos olhos de quem vê e de quem vive. Não consigo conceber trabalho sem prazer. Festa sem um ENCONTRO TRANSFORMADOR, aquele que se estabelece por meio da aprendizagem e da melhoria de si, também não é uma festa merecedora deste nome em sua plenitude. Ao menos, aos meus olhos. E eu gosto de mantê-los maravilhados e muito bem alimentados de comidas e de gentes.
Amarelo foi o nome com que o Miguel (após duas cheias servidas) rebatizou o Locro Criollo da Claudia.
O nome desta postagem, espero, é auto-explicável em seu texto e legendas.