A biblioteca do Miguel

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Eu já tive mais livros infantis do que tenho hoje. Desfiz-me de muitos ao longo do caminho. Mas não ache que perdi ou destruí (talvez um ou dois), mas a maioria teve outro destino. Como minha consciência de que o Miguel viria era ainda nula, eu – pausa dramática de confissão – os vendi. Pensando bem, não foi algo tão horrível.
Minha escola buscava umas duas vezes por ano estimular que trocássemos livros, HQ, figurinhas e papéis de carta (imagino que gerações posteriores ignorem o que eram, mas confie em minha palavra: eram infinitos e geravam um comércio infernal). Os professores promoviam uma feira e, com dinheiro de brinquedo (ou de verdade, não lembro bem) colocávamos nossos não tão queridos pertences à venda. Nessa brincadeira foram meus livros enrola/desenrola – cuja leitura enviava para páginas não sequenciais, criando infinitas possibilidades para a história, a idéia era interessante, mas o resultado tão cansativo que dá para entender porque estes livros sumiram da praça. Também foram alguns livros de aventura cuja leitura não gostei muito e aqueles menos amados de coleções que, antes estavam inteiras.
Verdade verdadeira? Arrependo-me profundamente. Soubesse eu do Miguel naquela época, jamais teria me desfeito de nenhum deles. Se ele iria lê-los? Ignoro, mas eu teria a chance de revisitar e ver com outros olhos, o que me desfiz na infância.
Ainda restaram muitos. Toda a coleção da coleção da Gisela e também da Inspetora. Os livros da Condessa Ségur que, tenho quase certeza, ele não dará a mínima até ser adulto. Minha versão completa e não adulterada da Rainha da Neve do Andersen. Os quatro Mundos de Walt Disney com seus textos grandes e um livro apenas sobre vida animal. Vale dizer que, este último é anterior às princesas, ao excesso de cor de rosa, à Pixar, e, com certeza, à ideia de que textos longos afastam as crianças. De fato, é uma edição praticamente pré-histórica.
Aliás, lembro agora, foi justamente por conta destes quatro livros que a consciência da biblioteca do Miguel nasceu – muito antes do próprio Miguel. Eu havia voltado do mestrado e era professora substituta na UFSM (no tempo em que isso era ruim como não há palavras para expressar – na verdade há, mas não neste horário). Estava envolvida com um grupo de estudos – O Povo de Clio – e tínhamos uma sala que ocupávamos nos intervalos das aulas para cafés e conversas quase sempre surpreendentemente acadêmicas. Numa dessas tardes cinzentas, apareceu um vendedor de livros. Conversa ensaiada, mas direitinha, vinha nos oferecer Os 4 Mundos de Walt Disney. Ninguém ali tinha filhos ou dinheiro para presentear uma escola com a coleção, mas eu saltei sobre ela para ver as diferenças, já que o vendedor alardeava que a edição tinha sido melhorada. Vou traduzir o que ele quis dizer com “melhorada”:  os desenhos estavam maiores e os textos menores. De fato, bem menores.
Não sei se posso explicar, mas, senti-me roubada. Era como se o melhoramento invalidasse o que eu prezava quando criança. O tal “melhoramento” tornava minha infância obsoleta. O moderno era ser rápido, fácil, acessível. Quando questionei o vendedor, em meio a um monte de alunos de pedagogia, ele me chamou de antiga, disse que eu nada sabia das crianças, que elas tinham mais o que fazer do que ler textos longos. Sem qualquer freio ou vergonha, ele saiu da conversa ensaiada e encheu minha infância de tédio – pois só alguém que não tivesse mais o que fazer leria tanto. Retirou-se furioso, quando eu, perdendo um pouco a classe, disse que ali eu não o deixaria vender uma edição que imbecilizava as crianças.
Contudo, o impasse ficou no ar. Era eu uma velha saudosista de 26 anos contra um vendedor que traficava modernidades e tentava, em meio os vídeo-games e pokemons, manter o livro vivo? Ou, de outra forma, quase impensável naquela época: eu estava certa em defender a necessidade dos textos ricos e o vendedor, e toda a indústria que o acompanhava, estavam errados?
De qualquer forma, foi naquela tarde que decidi: quando o Miguel viesse (e ele nem se chamava Miguel e nem era menino) ele não seria uma criança “moderna”. Se fosse, teria uma mãe antiga, chata que, entre estimulá-lo a correr pelo prazer de correr, entre montar acampamentos na sala e piqueniques no jardim, entre ver filmes de aventura e dançar músicas engraçadas – meus passatempos cheios de “tédio” conforme o vendedor – o estimularia a ler livros de textos grandes e conversaria com ele sobre isso. Com esta decisão, minha quase esquecida biblioteca infantil ganhou foros de preciosidade. Coloquei-me como ursa a proteger meus rebentos de textos grandes, impedir sua deterioração já que eu não podia confiar nos “modernos”, nem na indústria que modelava seus consumos. Minha postura “antiga” se recusava a deixar de lado um livro de texto mais trabalhado por outro de figuras mais brilhantes.
Muitos anos depois (e vários Harry Potters de mais de 500 páginas a provar que eu estava certa e o vendedor errado) ainda nos deparamos com livros infantis cujos textos carecem de cuidado. Ainda encontramos “modernas” subversões às histórias originais numa obtusa ideia de preservação da inocência infantil (os pais que se preocupam com a madrasta má são, em geral, os mesmos que não mudam de canal na hora em que alguém é agredido a pontapés na novela das 9). Ainda encontramos pais que arrastam os filhos para fora de uma livraria em troca de um chocolate ou um jogo de computador Afinal, é coisa antiga e sem estímulo ficar sentado lendo, quando se pode ficar sentado, jogando com os dedos e comendo chocolate.
O Miguel tem dois anos e meio e é o dono de cerca de 60 livros mais minha herança – da qual ainda não decidi se ele será dono ou depositário (vai que ele não goste de ler). De qualquer forma, o pai dele e eu decidimos que, quando ele abrisse seus olhinhos para o mundo e os focasse, não veria apenas bichinhos de pelúcia, veria livros, aos montes e o texto escrito seria parte integrante da vida dele.
Tenho muitas esperanças na biblioteca do Miguel. São tantas e tão vastas que não vejo beleza maior do que ver o meu filho dentro dela.


14 ideias sobre “A biblioteca do Miguel

  1. "Vai que ele não goste de ler"Eu adorava ler e trocava facilmente qualquer outra atividade por leitura. Acho que por isso, meu irmão mais novo declarava que não gostava de ler. Eu ficava em casa e ele era o sociável que saia, que não ia bem nas redações e tudo aquilo. Só que os anos passaram e passou também a necessidade de se auto-afirmar por bobagens. Hoje ele gosta de ler. Talvez não tanto quanto eu, e certamente nós dois não gostamos tanto quanto a minha mãe, mas o estímulo todo ficou. Como se fosse um vírus encubado.Sobre os livros, fiquei indignada com essa modernização. Eu sempre vi com inveja a quantidade de livros e sessões infantis que as crianças têm e na nossa época não existia nada. Agora sei que tem esse lado. Que pena.

  2. Quanto tu quer pela coleção da Inspetora? Pago o que tu quiser…ela foi minha melhor amiga juvenil. Te entendo bem, e já estou montando a biblioteca do meu "Miguel" …

  3. Caminhante, eu tenho uma história parecida com a minha irmã. Mas no caso dela ainda havia uma dislexia a superar, hoje ela é uma leitora superinteressada, inclusive em fazer bibliotecas para os filhos.Você não imagina minha vontade de fazer campanha contra esse tipo de "modernização". Enlouqueço com as propostas imbecilizantes que aparecem por aí.Desculpe, querido, mas A Inspetora não tem preço que pague. Nem se o Miguel não a quiser. Ela e a Gisela são "minhas preciosas" rsrsrs. Oba!!! Teremos um "Miguel" aí? Sou tia, já sabe, né? Bjs

  4. no que depender de mim, amiga, a biblioteca dele vai crescer até precisar de um endereço próprio. Sempre me preocupei com as leituras da Camilla (mesmo antes dela ser a Camilla) e hoje só tenho orgulho da minha menina. Adorei o texto. E concordo com cada linha aqui registrada. Antes sermos velhas, obtusas, século passado… mas com conteúdo!

  5. Acho que Miguel tem sorte ^^E de fato, é muito triste abrir um livro, destes que nos marcaram e tanto carinho nos deram, e ver que foram mutilados, leia-se adaptados,resumidos, cortados e sei lá que outros ados. Os detalhes que fazem toda a diferença, por exemplo, são simplesmente ignorados e as vezes, o que havia antes torna-se um relatorio, apenas.

  6. Obrigada, Jane.E eu sei que você é uma fornecedora, Lica, rsrs.É isso, Tânia. As pessoas hoje falam que as crianças são mais inteligentes do que eram no passado, mas, ao mesmo tempo, apoiam que se mutile as histórias tradicionais com esse argumento duvidoso de proteção, ou pior, dizem: eles não vão entender isso. O ponto é, se as crianças estão mais inteligentes, os adultos, sem dúvida, não estão.

  7. Tipo de texto que me deixa emocionado e extasiado, Nikelen.(Estava a rir aqui de imaginar você discutindo com o vendedor de livro_ um pouco injusto descontar no coitado.)Eu falo pouco da atração real do Eric e da Júlia pelos livros como se numa atitude de preservar esse tesouro familiar. Afinal, é verdade: pais que lêem tem tudo para que seus filhos fiquem influenciados pela leitura. Todos os meses encomendamos pelo menos um livro pela livraria cultura, o que se transforma na exigência de também comprarmos um livrinho para o Eric (a Júlia agora que está aprendendo a não trucidar as páginas). Isso é essencial aqui. O Eric passa horas folheando meus livros, olha com uma atenção incrívelmente absorvida para os desenhos e as letras. Parece invenção, mas mesmo a Júlia deixa seus brinqueos e engatinha em direção aos livros. Eu não posso ler perto dela porque ela vem e me toma o livro, de uma forma gentilmente brutal, maneirando a ação com um sorriso e a cobrança de que a pegue no colo e leia para ela.Livros dois quais lamento ter desfeito deles, dois volumes maravilhosos do Príncipe Valente, editados pela Ebal, em formato de prancha. Desenhos lindos, e textos contundentes sem balões.A propósito, o banco Itaú disponibiliza a quem solicitar, uma série de livros infantis ótima, entre eles um que tem a assinatura do Chico Buarque, não sei se sabem. É só irem ao site.abraços.

  8. Charlles querido, eu não conheço nada mais lindo que a fascinação de uma criança por livros. Minha identificação é imediata já que eu folheava os Perry Rodhan do meu pai antes mesmo de saber ler. O Miguel, como a Julia, teve os livros de consumo e de aprendizado. Hoje ele os folheia e anda sempre com algum embaixo do braço ou fazendo frete com eles com os caminhões, o que é muito divertido. Sim, eu sei dos livros do Itaú, já estamos com as duas coleções aqui em casa (a do ano passado e a deste). Aliás, a deste ano está lindíssima, são livros de enorme qualidade. Miguel se fascinou pela Festa no Céu. Beijos para vocês quatro.

  9. Nika, querida!!!Minhas influências também remontam à minha infância. Principalmente da minha vó e da minha mãe que leram TODOS aqueles de almanaque, da coleção Circulo do Livro, lembra? Ágatha Christie, Sidney Sheldon… Ainda hoje eu troco livros com a minha mãe, emprestamos, conversamos longamente sobre literatura, é uma delícia…Uma tia minha também me incentivava, lendo Monteiro Lobato prá mim e me presenteando mês a mês com um volume do Sítio. Ela também me presenteou com a coleção Os Pensadores, mesmo depois de adulta. E eu guardo com o maior amor esses presentes.Eu me lembro ainda de, como você, folhear livros por horas a fio, mesmo sem entender nada. Ainda tinha uma biblioteca na casa de outra tia que eu me lambuzava com os contos de fadas, com bons textos e desenhos lindos!Inclusive nessa tia, eu já pedi meu direito de herdar alguns exemplares quando ela tiver que desmontar a biblioteca para a mudança para uma casa menor. (nem vejo a hora…*__*)Sobre a biblioteca pros filhos, eu faço como você. Já planejo antecipadamente a coleção deles e disse pro Jonas que vou deixar "estrategicamente" uns livros espalhados pelo chão e quando ele engatinhar vai topar com eles…rsrsrsrs… Inclusive, meus exemplares de Harry Potter (os livros e os DVD's), serão deles (já que a maioria dos livros já comprei de segunda mão). Então, irei comprar nova coleção para mim, aquela que ficará muito bem cuidada como uma boa fã sempre faz. Só lamento que na minha escola não tinha nenhum incentivo à leitura, só no primário eu me lembro de alguma coisa. Quando adolescente, só entrei na biblioteca da escola uma vez, prá um ensaio do Hino Nacional que cantaríamos na formatura da 8a. série. Lembro-me que me senti como naqueles filmes que a pessoa descobre uma porta nova e um cômodo que nunca imaginou existir. Eu pensava que conhecia a escola toda como a palma da minha mão… Doce ilusão.Para compensar, minhas raízes falaram mais alto e eu ia sempre na biblioteca pública perto de casa e emprestava livros.Aqui em casa eu tenho alguns clássicos, como Éramos Seis e Meu Pé de Laranja Lima. Os que lia na escola estão aguardando um novo e jovem leitor que um dia os tomará nas mãos novamente. Assim o espero e farei a minha parte para que assim seja!Beijos querida!!

  10. Adorei o texto, Nika. Ao contrário de você, eu não tive uma infância com livros. Porém, agradeço minha professora de 6ª série que nos fazia ler um livro por mês e debatê-los. Os primeiros quatro meses foram um martírio, uma vez que eu não era acostumada a livros (e eles eram próprio para a idade, ou seja: quase nada de figura!). Contudo, quando chegou o ano seguinte, lá estava eu toda animada para a escolha dos livros que leríamos no ano! Minha biblioteca ainda é modesta, e responde apenas ao gosto da dona. No entanto, lendo sua crônica, penso: vou começar a fazer a biblioteca do meu "Miguel". Ele pode demorar a vir, mas uma coisa é certa: eu farei de tudo para ele ter prazer em ler.Mais uma vez: ótimo texto, mana! *-*Ah, sim: "quando eu, perdendo um pouco a classe, disse que ali eu não o deixaria vender uma edição que imbecilizava as crianças" Honestamente? Consegui te visualizar totalmente nessa cena! kkkkkkkkBeijos, querida.

  11. Nika, Sério que você ainda tem quase todos livros da Condessa de Ségur? Nossa, como fizeram parte de meu universo de leitora infantil! Concordo com você que há relíquias sentimentais impregnadas nessas leituras mais remotas e lamento que, muitas vezes, cedamos a apelos de terceiros para nos desfazer de livros que amamos.Isso me lembrou o meu filho caçula, o Max, que foi incitado pela professora (e escola) no final do ano passado a "doar" um livro com o qual trabalhou nesse período, pois está esgotado (e não há perspectiva de que a editora vá bancar nova tiragem). Quem disse que ele quis doá-lo, por mais razoáveis que fossem os argumentos? (continuidade do projeto escolar, etc.) Concordo com tudo o que você postou e assino embaixo!Beijos,KyanjaPS.: Feliz e privilegiado é o Miguel, que será um grande e crítico leitor, com os pais que tem.

  12. Pingback: Como criar um leitor - Nikelen WitterNikelen Witter

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