Músicas mal colocadas

Faço poucos posts musicais por aqui, mas este faz tempo que ronda minhas “preocupações”. Falo da divergência entre a letra da música e a ocasião em que é tocada. Convenhamos, gostar de uma música não exatamente a qualifica para qualquer ocasião. Minha listinha é curta (por falta de tempo), mas imagino que haja muito exemplo rondando a vida de outros por aí.

Vamos lá!

Ocasião: Formatura
Música: Como os nossos Pais
Letra e música: Belchior
Interpretação: Elis Regina

Sinceramente? Não é uma música elogiosa aos pais. E é justamente quando ela toca em formaturas, na homenagem aos pais. É só pensar no que a letra quer dizer: vocês fracassaram em mudar o mundo, nós também. Continuaremos sendo e fazendo o que vocês fizeram, isto é, nada. A música é linda e tem seu quê de verdade, mas não faz nenhuma homenagem, é um chute na cara. Que bom que, como seus filhos, os pais nunca notam isso.

Ocasião: Casamento
Música: Comming around Again
Letra, música e interpretação: Carly Simon

Perdoe-me quem gosta, mas em termos práticos, a música fala de uma separação (ou quase isso), não é exatamente o pedido ideal para tocar num casamento. Já bastam os padres e os amigos apavorados a dizer que isso não vai durar, trazer a Carly Simon para a festa também…

Ocasião: Festa de criança
Música: Funks apelativos

Deste não tem videozinho, porque << esta pessoa se recusa. Mas, convenhamos, se os pais não veem nenhum problema em seus filhos ouvirem isso, que, ao menos, tenham compaixão e piedade dos convidados. Submeter os outros e os “filhos” dos outros às batidas do funk apelativo é maldade sem tamanho.

Ocasião: Festa do Vizinho
Música: Amigos para sempre
Letra: Jose Carreras
Interpretação: José Carreras e Sarah Brightman

É aquela hora em que todo mundo sorri amarelo. Dia do vizinho sim, amigos para sempre é um pouco de exagero.

Ocasião: Qualquer loja que venda qualquer coisa (pior em livraria)
Música: Todo e qualquer tipo de bate-estaca.

Senhores lojistas esse é o tipo de música “espanta cliente”. Não importa se vocês gostam. Não importa se seus funcionários gostam. Não importa se o cliente fica poucos minutos e vocês o dia todo aí dentro. Na verdade, nem ao menos importa se o som está numa altura civilizada (nunca está). Não é a hora, não é o momento, estabelecimentos comerciais (a não ser que se proponham a isso) não são uma Rave. Acreditem. muito cliente bom e, até a fim de gastar, vai dar volta quando chegar à porta. Por caridade, adotem o silêncio de fundo como propaganda ou o sacrossanto fone de ouvido.

A biblioteca do Miguel


Eu já tive mais livros infantis do que tenho hoje. Desfiz-me de muitos ao longo do caminho. Mas não ache que perdi ou destruí (talvez um ou dois), mas a maioria teve outro destino. Como minha consciência de que o Miguel viria era ainda nula, eu – pausa dramática de confissão – os vendi. Pensando bem, não foi algo tão horrível.
Minha escola buscava umas duas vezes por ano estimular que trocássemos livros, HQ, figurinhas e papéis de carta (imagino que gerações posteriores ignorem o que eram, mas confie em minha palavra: eram infinitos e geravam um comércio infernal). Os professores promoviam uma feira e, com dinheiro de brinquedo (ou de verdade, não lembro bem) colocávamos nossos não tão queridos pertences à venda. Nessa brincadeira foram meus livros enrola/desenrola – cuja leitura enviava para páginas não sequenciais, criando infinitas possibilidades para a história, a idéia era interessante, mas o resultado tão cansativo que dá para entender porque estes livros sumiram da praça. Também foram alguns livros de aventura cuja leitura não gostei muito e aqueles menos amados de coleções que, antes estavam inteiras.
Verdade verdadeira? Arrependo-me profundamente. Soubesse eu do Miguel naquela época, jamais teria me desfeito de nenhum deles. Se ele iria lê-los? Ignoro, mas eu teria a chance de revisitar e ver com outros olhos, o que me desfiz na infância.
Ainda restaram muitos. Toda a coleção da coleção da Gisela e também da Inspetora. Os livros da Condessa Ségur que, tenho quase certeza, ele não dará a mínima até ser adulto. Minha versão completa e não adulterada da Rainha da Neve do Andersen. Os quatro Mundos de Walt Disney com seus textos grandes e um livro apenas sobre vida animal. Vale dizer que, este último é anterior às princesas, ao excesso de cor de rosa, à Pixar, e, com certeza, à ideia de que textos longos afastam as crianças. De fato, é uma edição praticamente pré-histórica.
Aliás, lembro agora, foi justamente por conta destes quatro livros que a consciência da biblioteca do Miguel nasceu – muito antes do próprio Miguel. Eu havia voltado do mestrado e era professora substituta na UFSM (no tempo em que isso era ruim como não há palavras para expressar – na verdade há, mas não neste horário). Estava envolvida com um grupo de estudos – O Povo de Clio – e tínhamos uma sala que ocupávamos nos intervalos das aulas para cafés e conversas quase sempre surpreendentemente acadêmicas. Numa dessas tardes cinzentas, apareceu um vendedor de livros. Conversa ensaiada, mas direitinha, vinha nos oferecer Os 4 Mundos de Walt Disney. Ninguém ali tinha filhos ou dinheiro para presentear uma escola com a coleção, mas eu saltei sobre ela para ver as diferenças, já que o vendedor alardeava que a edição tinha sido melhorada. Vou traduzir o que ele quis dizer com “melhorada”:  os desenhos estavam maiores e os textos menores. De fato, bem menores.
Não sei se posso explicar, mas, senti-me roubada. Era como se o melhoramento invalidasse o que eu prezava quando criança. O tal “melhoramento” tornava minha infância obsoleta. O moderno era ser rápido, fácil, acessível. Quando questionei o vendedor, em meio a um monte de alunos de pedagogia, ele me chamou de antiga, disse que eu nada sabia das crianças, que elas tinham mais o que fazer do que ler textos longos. Sem qualquer freio ou vergonha, ele saiu da conversa ensaiada e encheu minha infância de tédio – pois só alguém que não tivesse mais o que fazer leria tanto. Retirou-se furioso, quando eu, perdendo um pouco a classe, disse que ali eu não o deixaria vender uma edição que imbecilizava as crianças.
Contudo, o impasse ficou no ar. Era eu uma velha saudosista de 26 anos contra um vendedor que traficava modernidades e tentava, em meio os vídeo-games e pokemons, manter o livro vivo? Ou, de outra forma, quase impensável naquela época: eu estava certa em defender a necessidade dos textos ricos e o vendedor, e toda a indústria que o acompanhava, estavam errados?
De qualquer forma, foi naquela tarde que decidi: quando o Miguel viesse (e ele nem se chamava Miguel e nem era menino) ele não seria uma criança “moderna”. Se fosse, teria uma mãe antiga, chata que, entre estimulá-lo a correr pelo prazer de correr, entre montar acampamentos na sala e piqueniques no jardim, entre ver filmes de aventura e dançar músicas engraçadas – meus passatempos cheios de “tédio” conforme o vendedor – o estimularia a ler livros de textos grandes e conversaria com ele sobre isso. Com esta decisão, minha quase esquecida biblioteca infantil ganhou foros de preciosidade. Coloquei-me como ursa a proteger meus rebentos de textos grandes, impedir sua deterioração já que eu não podia confiar nos “modernos”, nem na indústria que modelava seus consumos. Minha postura “antiga” se recusava a deixar de lado um livro de texto mais trabalhado por outro de figuras mais brilhantes.
Muitos anos depois (e vários Harry Potters de mais de 500 páginas a provar que eu estava certa e o vendedor errado) ainda nos deparamos com livros infantis cujos textos carecem de cuidado. Ainda encontramos “modernas” subversões às histórias originais numa obtusa ideia de preservação da inocência infantil (os pais que se preocupam com a madrasta má são, em geral, os mesmos que não mudam de canal na hora em que alguém é agredido a pontapés na novela das 9). Ainda encontramos pais que arrastam os filhos para fora de uma livraria em troca de um chocolate ou um jogo de computador Afinal, é coisa antiga e sem estímulo ficar sentado lendo, quando se pode ficar sentado, jogando com os dedos e comendo chocolate.
O Miguel tem dois anos e meio e é o dono de cerca de 60 livros mais minha herança – da qual ainda não decidi se ele será dono ou depositário (vai que ele não goste de ler). De qualquer forma, o pai dele e eu decidimos que, quando ele abrisse seus olhinhos para o mundo e os focasse, não veria apenas bichinhos de pelúcia, veria livros, aos montes e o texto escrito seria parte integrante da vida dele.
Tenho muitas esperanças na biblioteca do Miguel. São tantas e tão vastas que não vejo beleza maior do que ver o meu filho dentro dela.


Poucos falam sobre Gerda

Creio que estava em meu segundo ano em Santa Maria. Lembro mais porque não ganhei o livro dos meus pais, mas de um amigo deles. Sempre tive um encanto diferente pelos livros de maior envergadura que não me eram dados pelos meus pais. Nunca realizei os motivos, mas hoje me parecem claros. Primeiro havia a surpresa: eu não os escolhia. A maioria das minhas leituras chegava à minha casa com base na lei do meu pai – não se economiza em livros – e nas minhas insistências toda vez que passava em uma livraria; ou nas listinhas quilométricas enviadas para compra pelo antigo reembolso postal. Nesse sentido, eu era quase autodidata. Meu pais davam-me total liberdade na escolha, mas orientavam pouco, já que nenhum deles havia sido um leitor infantil. Um livro não escolhido por mim, por alguma mágica, brilhava mais.
O segundo motivo de eu adorar esse livros “vindos de fora” era a mais pura vaidade. Achava o máximo que os amigos de meu pai soubessem que eu lia muito. Eu achava que este era realmente um motivo de mérito e era incentivada a pensar assim. Além disso, imaginar alguém andando em uma livraria e pensando: “humm, será que ela vai gostar de ler esse?” tinha uma força quase sagrada. Fazia com que os zilhões de caixinhas de plástico com imagens da Sarah Kay que eu ganhava de aniversário se transformassem perante meu olhos… na inutilidade total que de fato eram (acho que hoje posso dizer isso com todas as letras sem magoar ninguém).
O livro se chamava A Rainha da Neve. Tinha sido escrito por um autor que meu pai me ensinou a pronunciar o nome: Hans Christian Andersen. E era imenso para meus oito anos. Tinha poucas imagens, de uma ilustração que hoje acho belíssima, mas que, na época, meu padrão “Disney” não permitiu apreciar de todo. De fato, havia dois contos no livro. O do título, que era enorme, com vários capítulos. E um sobre um pinheiro de Natal, que jamais li.
Confesso que demorei a ler todo o conto da Rainha da Neve. Não era uma leitora ainda tão boa quanto me julgavam (mas essa aposta não tornava o livro ainda melhor?). De fato, demorei a superar a ideia de que não ler um livro dado era decepcionar o autor do presente. Então fui insistindo, estranhando e gostando. Estranhando porque nunca havia lido uma história que começasse com diabinhos. Tampouco com diabinhos que queriam troçar dos anjos. E ainda havia o espelho, aquele que deformava tudo o que as pessoas pensavam de si mesmas e lhes mostrava o que elas tinham de pior. Foram anos para deixar de temer aquele espelho e não acreditar que poderia haver algum minúsculo pedacinho dele pervertendo os espelhos da casa. Ainda mais à noite.
Então, cada capítulo era um novo desmonte às histórias que eu estava acostumada. Sim, no princípio havia um menino e uma menina, no entanto, é o menino que é encantado. É o menino que é roubado. É o menino que desaparece e não apenas por obra de um ser sobrenatural, mas pelo seu próprio desejo. Um querer distorcido pelo espelho, mas ainda um querer. Kay se fascina pela Rainha da Neve e a quer. Sua obsessão é tão poderosa que ele esquece sua mãe e também seus carinhos para com a amiga Gerda e parte. 
Apesar da óbvia semelhança entre a Rainha da Neve e a Feiticeira Branca de C.S. Lewis, e mesmo da relação de ambas com um menino, a primeira não é nenhum ser transpirando maldade e soberba. A rainha da Neve é bela e, relendo as delicadas entrelinhas de Andersen, sensual. O menino não resiste também porque está deixando de ser menino, está deixando de ter interesse em jogos e em histórias contadas pela avózinha. Eu só compreendi isso no fim da história, mas relendo me pareceu tão óbvio. Kay deixara a infância ao mesmo tempo que deixara Gerda.
Só que a história não é sobre Kay. Nem mesmo sobre a Rainha da Neve. A história é sobre Gerda e pouca gente fala de Gerda. Quando se cita o nome das grandes personagens femininas da literatura, Gerda não é lembrada e hoje me tomei por uma imensa estranheza acerca disso. 
Gerda é estupenda!
A menina lourinha e sardenta, protótipo literário de fragilidade, não volta para casa, não sai chorando por uma ajuda que não virá. Informada da jornada para resgatar Kay, ela se lança contra o mundo e o inverno e vai atrás do menino amado. Então, e apenas no fim sabemos disso, Gerda também deixou a infância, mas de maneira muito mais madura que Kay. Ela não se deixa seduzir nem pelo que é belo, nem pelo que amedronta, nem pelo que é fácil. Gerda é insuperável em sua tenacidade, em sua força.Seus vacilos são a passagem do tempo, mas também suas perguntas: e se Kay não mais a quiser? Não se lembrar dela? Estiver feliz com a Rainha da Neve? Ah, é claro, não é um livro romântico, é para crianças e, no entanto, tudo isso está escrito lá. Quando reli o livro aos 12, já amando meu primeiro Kay, tudo isso me foi claro ao nível da obviedade. 
Tive medo da velha que fez Gerda se esquecer de tudo e sempre angustiava-me ler aquele capítulo cheio de flores, onde o paraíso era não lembrar quem se era. Outras passagens me chocaram. Uma delas foi a da Pequena Salteadora. A menina, de um mundo diferente do mundo protegido de Gerda, primeiro a maltrata, depois a trata como uma boneca e, por fim, a ama. Mesmo aos 12 nunca tive dúvidas do tipo de amor que o livro retratava. Um amor de uma menina por outra menina. Na época em que li, isso não era explicado e tive até vergonha de perguntar, mas estava ali, tão claro, como os outros não viam? Como minha mãe, que me ajudava a ler, não via? Eu tinha muito medo da Pequena Salteadora por ela ser violenta e cortar dedos e orelhas, mas não por seu amor por Gerda. Apenas não torcia por ele, pois Gerda me informava que era de Kay e, enquanto fosse assim, não poderia ser da Pequena Salteadora e elas se tornaram irmãs.
Depois da Pequena Salteadora, Gerda ainda tem mais duas mulheres interessantes em seu caminho: A mulher da Lapônia e a Mulher da Finlândia, uma quer que ela volte a ser criança e a mima, a outra lhe dá uma Rena e lhe diz como ir em frente, ambas espelham a mãe que não está ali. 
No fim, Gerda resgata Kay, não da Rainha da Neve, mas de si mesmo e eles podem voltar ao local da infância e visitar a avózinha, que é a única que ainda os vê como crianças. Nessa volta, a Rainha já não tem mais nenhum encanto. Nenhuma de suas peles, nenhum de seus brilhantes lhe fazem páreo para a crescida, despenteada e descalça Gerda. As mãos quentes da menina, mesmo sem as luvas, são de verdade. Ela toda é de verdade. Quando Kay a olha, sem o argueiro do espelho diabólico, consegue ver isso, consegue ver a mulher ao lado dele.
De novo, estou a descrever uma história de amor e nada disso está escrito lá, e tudo isso está escrito lá. Gerda é estupenda! Uma heroína rica, incomparável. Seu mundo é um mundo cheio de fantásticas figuras femininas: a avózinha, a Pequena Salteadora, as mulheres da Finlândia e da Lapônia, a Rainha. Todas ali para ajudar Gerda (e também Kay) a crescerem. Mas pouco se fala sobre Gerda ou sobre as poderosas mulheres do conto de Andersen. Quando se fala é para pervete-las, enfraquecê-las, açucará-las. Nunca vejo Gerda como um modelo para as meninas de hoje. E, mesmo que um dia ela figure nos desenhos animados desta geração, o fato é que Gerda está a quilômetros do time das “princesas”. De fato, da fibra de que Gerda é feita, não se fazem princesas, nem se fará.
Para encerrar, alguns apontamentos: 
1. Gerda é um dos meus modelos, das minhas influências. Invejo cada milímetro de sua coragem.
2. Pronuncia-se Guerda e não Jerda.
3. Se você tem filhos, ou terá, e se interessar em levar esta história a eles, faça-lhes o favor de procurar uma tradução do texto original. Não lhe facilite, não lhe dê resumos, nem adaptações que falseiam o texto. Não se deixe seduzir pelo belo, pelo medo ou pelo fácil. Nas versões que se espalham por aí, Gerda e Kay são irmãos, a Pequena Salteadora é confundida com as outras mulheres que ajudam Gerda e não é nem mesmo uma salteadora. Lembre que a complexidade jamais fez mal a ninguém, não apostar que as crianças possam compreendê-la, sim.