Aprendendo como funciona a ficção

            

Tenho vivido uma fase neófita. Sinto-me começando em muitas coisas. Uma nova área de pesquisa depois de mais de década. Uma aventura materna. Uma dedicação obsessiva ao desejo de escrever ficção de forma profissional. Talvez, esteja vivendo uma crise dos quarenta antes da época. Como nasci de novo à cerca de dois anos e meio, ainda me pergunto se os caminhos são novos ou o sou eu. Não pense que estou ansiosa por uma resposta. Não estou. Gosto de me sentir neófita na vida, de ter poucas certezas (“a grande benção que liberta”, adquirida aos trinta anos), de olhar meus velhos sapatos – tão acomodados a mim que me fazem parecer descalça – como algo que posso desfazer-me sem sentir saudades. Aprendi, já faz tempo, que sou uma generalista de boa memória: ouvi aqui, gravei ali, li isso em algum lugar acolá. Os generalistas estão, quase sempre, começando em alguma coisa, são sempre aprendizes.
Provavelmente, disfarço aqui a minha grande especialidade: ser neófita. Começar. Estudar sempre. Acho que estou acomodada a iniciar e ver-me (quase) confortável nisso. Os iniciantes acostumam-se à maravilha – que nasce do aprender pela primeira vez – e, muito mais, à vergonha – que acompanha todo o não saber.
            Em minha aprendizagem de escritora, terminei a lenta leitura de Como Funciona a Ficção, do crítico literário James Wood. A leitura andou vagarosamente por minha conta, não pelo livro. De fato, eu o senti como uma obra de leitura sem pressa, do tipo que se aprende absorvendo, tanto quanto lendo. Obviamente, Wood não fez uma manual de “como funciona” a ficção, falamos de literatura e não de máquinas. Provavelmente, o livro é mais sobre como funciona a cabeça do leitor ou do crítico, ou do leitor (apaixonado) e do crítico (controvertido) que Wood é. Ainda assim, senti-me levada pela mão na aprendizagem de como e porque determinados autores icônicos são reverenciados. Dos citados, li muitos, mas não em quantidade, e estou há quilômetros de ter lido todos. Alguns, eu conheci tão jovem e de forma tão pouco orientada que sequer entendi. Wood renovou-me a vontade de ler e reler clássicos e esclareceu-me o sobre o que enxergar na prosa dos grandes autores e dos grandes estilistas literários.
            Os detratores do Wood o acusam de ser conservador, tanto em seus gostos, quanto no que ele preza e valoriza. Confesso que, em minha ignorância das modernas correntes e debates da área literária, o livro de Wood me soou confortável e acessível como uma xícara de café batido. E, mesmo que alguns críticos apontem isso, eu não senti empáfia no seu texto. Pelo contrário, é muito fácil somar-se ao encanto e à paixão do autor pela literatura contemporânea. Longe de pretender ensinar macetes, a obra de Wood se debruça sobre o já escrito e tenta encontrar suas partes. Tenta. Nem sempre consegue. E isto é o que há de melhor no livro: a conclusão de que falando de arte, podemos até localizar suas partes móveis, mas entender por que colocadas de uma determinada maneira elas funcionam e de outras não, fica fora de nossa alçada consciente. Nesse sentido, a metáfora do cozinheiro (que pode ser vulgar, mas não é incorreta) usada pelo autor em sua introdução foi caindo com mais força em mim ao longo da leitura. Pode-se dar a mesma receita e os mesmos ingredientes a cozinheiros diferentes, o resultado jamais será o mesmo.
            Não foi uma nem duas vezes que, ao visualizar as peças móveis apontadas por Wood dentro de obras reverenciadas, percebia imediatamente já tê-las visto, de forma ruim e mal arranjada, em outros textos ficcionais. Imaginei que um escritor iniciante que muito estudasse o que ele aponta ali, conseguiria reproduzir, imitar, reconstruir, e elaborar sobre o caminho erguido pelos mestres e, ainda assim, não teria garantias de fazer uma boa ficção. Isso porque, depois que uma obra está escrita, você consegue entender de que forma aquilo funcionou, mas não antes. Claro que as diretrizes ajudam, mas o fato é que elas não determinam. Se você aplicar todas as técnicas ao texto, mesmo as melhores delas, terá um texto técnico, nada mais. Isso pode garantir um bom texto. Um texto vendável. Uma publicação. E haverá quem goste e haverá quem desfaça. No entanto, arte não é só técnica. Técnica é uma das suas armas de expressão. Uma ferramenta que a arte molda e subverte à sua conveniência. Quem vai determinar o valor do resultado? O crítico? O público?
            Minha veia de historiadora aponta para o tempo. Aliás, essa é minha maior crítica ao livro de Wood, sua pouca atenção aos ritmos do tempo e da história. Ao fato de que, mesmo que obras que os transcendam, os escritores são criaturas grudadas no mata-moscas histórico que é o seu contexto, seu tempo, seu espaço.
            Após ler o livro, fui ver o que estava escrito sobre ele e deparei-me com uma obra que chegou ao Brasil sob o signo da polêmica. Primeiro com a tradutora Denise Bottmann – a quem muito admiro, em especial por suas traduções na área da História – que retirou sua responsabilidade sobre a tradução da obra. Admirei ainda mais a honestidade da profissional e concordo com seus argumentos, o que, no entanto, de forma alguma invalida a leitura do livro.Depois, vieram as controvérsias entre quem gostou e quem não gostou do livro. Muitos resenhistas ligados à academia torceram o nariz e têm seus (bons) argumentos para isso. Os anti-acadêmicos saudaram. Os leigos como eu, para quem afinal o livro foi escrito, o recomendam. A terceira polêmica está por conta do próprio autor. Crítico nem sempre apreciado pelos jovens escritores que tentam inovar estilisticamente. Recomendo a boa entrevista que ele concedeu ao Portal IG para se inteirar de suas opiniões e das que pesam contra ele. 

De resto, obviamente, o livro não ensina como a ficção funciona. Porém, dá instrumentos para leitores e escritores revisarem com mais acuidade as peças dessa “máquina orgânica” que é a literatura. A arte? Bem, essa está nos olhos de quem lê, nos dedos de quem escreve e no ouvido interno (aquele que só escuta o que emociona) de cada um.


Prato único

Foi nas madrugadas de leitura que eu comecei a ser cozinheira de pratos únicos. Na adolescência, eu costumava a passar as noites lendo, mais do que nas baladas, que foram poucas. A fome aparecia pelas duas e meia, três da manhã. Eu levantava e, ainda lendo, ia até a cozinha. Então, nascia o prato único. Algo novo. Aventuroso. Irrepetível.
A receita do prato único é simples. Se compõem mais de faltas do que de presenças na geladeira e nos armários. Têm uma pitada grande dos restos já usados em outras coisas, mas ainda carentes da verdadeira alquimia. E, obviamente, deve ser regado com grandes doses de criatividade.
Dessa mistura nasceram alguns clássicos que sobreviveram e até chegaram a outros paladares além do meu: como a a massa risoto (cozida no próprio molho) e o pão dormido levemente frito no azeite com alho e manjerona fresca, coberto de queijo. Ah, sim, meus pratos únicos eram sempre salgados, uma pequena ceia que acompanhava a mim e ao livro que, ainda aberto sobre a mesa, esperava por meus olhos sempre famintos de histórias novas, enquanto saciava o estômago madrugador.
Houve ocasiões em que os aromas do prato único acordaram minha família. Então, ele tinha de ser elástico e alimentar a todos. Desciam-se mais pratos à mesa e o livro, como vinho, era o acompanhamento. Foram nestas noites que nasceram alguns sobreviventes que conseguiram ir além da ousadia, fome e faltas. Também, nestas noites, dividi algumas das minhas melhores leituras e pude digeri-las com mais sabedoria.
Outras, comi sozinha. Algumas tentativas nem ao menos deram certo. Daquelas em que tive maior sucesso ficou o gosto do nunca mais. Nunca mais aquelas sobras, nunca mais aquelas faltas, nunca mais aquela menina com fome e um livro nunca lido. Nunca mais aquela madrugada.
Alguém mais quer essa bandeja? Eu quero.

Aniversário

Eu sempre disse que eu era uma garota fácil. Bastava me dar um bombom, uma flor e um livro. 
Claro que tinha de ser o bombom certo
O livro certo
E as flores certas
Quem acertasse, levava. 
Ah, tinha de ser o cara certo também.
Há 20 anos.

Revistas e livros

Quando fomos morar no Rio de Janeiro por um ano, tivemos de adaptar um monte coisas no nosso cotidiano. A cidade era muito maior, muito mais cara e, apesar das inúmeras e acessíveis opções de lazer (algumas até gratuitas), havia os deslocamentos e, claro, o medo. Não faço segredo de que passamos um março aterrorizado, presos num apartamento que não devia ter 20m², assistindo o terrível noticiário regional das 19h. Depois de um tempo, passamos a torcer para que as notícias deste não chegassem ao telejornal das 20h ou nossas mães (sempre mais apavoradas) teriam um treco. 

A coisa mais saudável que fizemos foi desligar a TV. Os telejornais pareciam dispensáveis quando somente serviam para criar pânico. E… bem, mesmo para quem cresceu assistindo telenovelas, a coisa toda já estava virando um tortura. De fato, acho que eu ficaria bastante desagradável se começasse a tecer minha opinião sobre isso. Então, na máxima: “se não tem nada de bom a dizer, fique calado”, vou falar sobre nossas soluções de entretenimento. Vou falar sobre revistas e livros.
Em primeiro lugar é preciso dizer: jamais censure um doutorando se ele resistir a ler como lazer, seja boa, seja má literatura. O cara (ou a cara) passou o dia todo… lendo! Muitas vezes numa língua que nem é a dele, outras, está lendo gente que não está muito preocupada em ser entendida, mas… seu orientador entendeu, seus colegas entenderam e você será o asno da classe se não queimar alguns neurônios para compreender também. (Se isso não servir de nada para o seu doc, ao menos você pode olhar com superioridade para quem disser que acha o tal fulano difícil).
Em abril começamos a sair de casa, mas nem o dinheiro, nem o cansaço permitem fazer isso todos os dias. Sem internet (o dinheiro da Lan também era regulado), apelamos para Revistas, uma leitura rápida, informativa e variada. Na verdade, eu apelei mais. O Guto tem uma capacidade de trabalho muito maior que a minha. Preciso mais de descanso e quase nunca é necessário me arrancar do trabalho. Eu vou de bom grado.
Então, no que nossas possibilidades econômicas permitiam, eu comprava de tudo (até revista velha, que vem num pacote com 3 e é mais barato) e a grande maioria com assuntos mulherzinha (se alguém me vir com uma 4 Rodas na mão, sem o Miguel ao lado, lendo com interesse, pode atirar porque é sinal de que os reptilianos começaram a invadir corpos). Então, achei uma muito interessante. Estava em seu primeiro número e o editorial era para lá de convidativo. Dizia: “somos buscadores, não temos respostas prontas, queremos uma vida diferente desta que o mundo nos exige todos os dias, queremos a contracorrente”. Fiquei encanta, até porque isso não soava num tom “auto-ajuda”. Comecei a comprar todos os meses e devorava do primeiro ao último artigo. Havia crônicas sobre filosofia, indicação de programas alternativos, reportagens sobre livros novos, ideias novas e livros antigos e boas ideias antigas, tudo aliado a uma abordagem bem dosada do cotidiano.
Fiquei um pouco surpresa quando, meses depois do início promissor, deparei-me com uma capa cuja manchete de apresentação iniciava com as palavras “como fazer”. No interior, a revista também estava diferente. Havia mais “dicas” e menos reflexão sobre ideias. O “como fazer” se repetia… e muito. Não mudou no mês seguinte. Nem no outro.
Parei de comprar a revista. Se quisesse um manual, bastava olhar as outras que já tem no mercado e que estão repletas de “melhore a si mesmo”. Não estava em busca disso. Estava em busca de um lazer que não me mandasse fazer mais ginástica, comprar menos, ou comprar mais, desejar uma casa no campo ou um apartamento com vista. Queria um texto que se debruçasse sobre perguntas, mas que dispensasse – com dignidade – a necessidade das respostas.
Ao fim de tudo, assumi que talvez eu fosse alguém na contramão do mercado. Ou, como não me acho um tipo único nem especial, que aqueles que abastecem o mercado preferissem moldá-lo ao invés de ouvi-lo. 
Sim, existem revistas boas, mas eu tinha escolhido errado o meu super herói. Então, venci a resistência e fui afogar minha decepção num sebo, com edições velhas e baratas de ótimos livros. Não me arrependi.