Feiticeira: um comentário sobre Cira e o Velho, de Walter Tierno



Desde que comecei a me aventurar a escrever, não nego a ninguém a minha defesa de que é possível fazer boa ficção com cenários e elementos brasileiros. Não se trata de bairrismo e nem tampouco de desmerecer uma literatura viajante. É apenas uma afirmação em meio a um certo colonialismo literário ou aquela tendência novelesca de que só o exterior é rico o suficiente para fornecer inspiração. Isso é mais forte se a gente olha para os livros de fantasia cheios de inspiração medieval, terras médias e muito fog inglês. Novamente: não estou desmerecendo este tipo de obra, não é o cenário que mede a qualidade de um livro, apenas, esta é minha afirmação: dá sim para escrever um ótimo livro de fantasia usando elementos próprios da cultura brasileira!
O problema é que quando se faz uma afirmação destas, nossa mente voa direto para as aulas de folclore que se teve no colégio ou as de Cultura Brasileira em alguns cursos universitários ou, o pior de tudo, vai direto até às novelas e especiais da Rede Globo. Isto, obviamente, é alimento para preconceitos, com tudo o que os PRÉ-CONCEITOS têm de ruim. Alguns desses?
Uma distorção do que é cultura brasileira. Com base nos conceitos prévios que hoje chegam mais facilmente à maioria das pessoas, tem-se a impressão de que cultura brasileira é uma mistura carnavalesca, colorida e alienada de invencionices regionalizadas e tornadas nacionais a formão. O trágico parece pueril ou diminuto e limitado. É interessante como nossa ideia sobre o que é um imaginário mitológico rico precisa ser jogada para fora de nós. Enchemos a boca para falar de mitos gregos ou nórdicos e nos afundamos neles para “nos entender” e inspirar. Mas, primos pobres, do Brasil e sua riqueza mitológica e histórica pouco tiramos. Tratamos nossa mitologia como nossa sociedade trata as crianças de rua: é pobre, não vai crescer, não tem brilho, melhor evitar e esquecer.
Para que não me acusem de hipócrita, digo desde já que estudo mitologias (grega, nórdica, etc) com grande entusiasmo e desde muito tempo. De fato, meu presente de 10 anos de idade foi um Dicionário de Mitologia (sem desenhos) Greco-Romana. Então, novamente, não se trata de um manifesto nacionalista, mas do trabalho com as possibilidades imaginárias de um universo muito, mas muito mais rico do que se tem admitido enquanto nos encantamos com castelos. (Não que os castelos não sejam dignos disso, apenas, não são somente eles que são.)
Essa distorção não cai somente em cima do edifício da cultura e do folclore. Cai também sobre a história. Caso você não tenha percebido, a história está na moda. Mas qual história? A que tem feito a fortuna de alguns divulgadores é aquela que pode ser tornada anedota. Não teria problema se, em muitos casos, não estivesse também absolutamente equivocada (não estou nem falando de interpretação dos fatos, estou falando de fatos mesmo). Mas isto é tema para outro comentário. E nem era de nada disso que eu queria falar aqui.
Eu quero falar de Cira…
Sim, parafraseio o autor sem nenhuma vergonha, pois este começo é o que te joga num livro devorador e devorável. Terminei-o em 3 dias. E não, não é um livro de mistério, embora tenha algum. Mas isso, nem de longe é o mais importante. Cira e o Velho tem o gosto de um dos meus velhos livros de mitologia. Nada carnavalesco, embora colorido. Cheio de tragicidade, mas nada pueril. É fundado na mitologia, na cultura popular e na história brasileiras. Tem iaras, lobisomens, cobras que se fazem gente, bruxas que controlam árvores e são árvores. E, nada disso é infantil, ou gratuito, ou inverossímil. A arquitetura da história é perfeita. Ela te envolve e transcende o ordinário, como a boa ficção fantástica tem de ser. Em nenhum momento me peguei pensando: “mas, como?” Estive completamente convencida por todo o tempo. Em outras palavras: o texto fez a mágica. Como diz Milton Hauton, “a tarefa do escritor é nos convencer de que o que lemos podia ter acontecido”. E foi o que aconteceu. Cira e sua família entraram no meu panteão.
Walter Tierno – que também é ilustrador – estréia como autor de literatura fantástica num romance de personagens absolutamente encantadores. De heróis que cometem erros e vilões afundados na própria soberba. De animais que falam, mas com uma personalidade tão própria que, certamente, você perceberá que não está em Narnia. De homens que lutam pelo comando de uma terra que, ela própria, é também um personagem oculto, mas forte e presente. É também violento e a prosa crua, nestes momentos, consegue te transportar a tempos ainda “mais hereges” (como diz o avô do Guto) que os nossos.
Como leitora chata que sou, não direi que o romance mantém o encanto por 100% do tempo. Foram 99%. Mas isso pode ser pessoal. Impliquei com uma ou duas passagens que o autor parece render-se a imagens mais próximas ao HQ. Nada que desmereça o livro, nem mesmo a passagem em si, são apenas algumas frases que já tinha se formado na minha cabeça e não seria necessário lê-las.
Mas, mesmo isto, vem antes de Cira. Porque, veja, é muito difícil manter o discernimento depois que Cira aparece. A pequena feiticeira (isso é por minha conta, e já explico porque) ilumina o livro. É difícil não se encantar por ela, não desejar ouvi-la ou saber sobre as coisas que ela quer fazer. Ela domina o livro e, claro, seu autor, que passa às suas mãos, assim como os leitores. Como só acontece nos bons e não-abandonáveis livros. O feitiço de Cira é com quem lê e não dentro do livro, onde sua magia é mais pressentida que usada.
Dos outros posso dizer que: apaixonei-me por Cobra Norato, quase como uma de suas inúmeras amantes. E toda vez que alguém chamar outra pessoa de Caninana na minha frente, isso terá um sentido mil vezes pior.
O Velho? É um personagem incrível. Desprezível. Odiei-o cada segundo. Como teria de ser.
É interessante que o Walter, ao me dar seu autógrafo no Fantasticon, tenha referido o Velho (e foi o autógrafo mais legal que já vi). Talvez, no meu caso, o aviso devesse ser outro: Cuidado! Cira é feiticeira e você é presa fácil.
Meu livro autografado pelo autor: “À comadre Nika, um conselho:
Não acredite no Velho. Ele mente”.


Mini-Contos de Fadas III

1.
– Humpf, não dê atenção a estes meninos bobos – diz a mãe para o Pequeno Polegar. – Ninguém vai te chamar de baixinho quando você for MÉ-DI-CO.

2.
– Vocês colocaram uma ervilha debaixo de 20 colchões para saber se eu era uma princesa de verdade? – perguntou a moça, incrédula.
– Foi ideia da mamãe – respondeu o príncipe.
– Ótimo! Nem casei e já tenho sogra.

3.
– Ok, ela podia ser uma bruxa, mas tinha bom gosto. Roupa preta com sapato vermelho é über fashion.
– Com meias de listras?
– Tendência, querida…

 4.
Os sapatinhos vermelhos cor de sangue brilhavam como maçãs na vitrine. A menina não os queria, precisava deles, isso sim. O que queria era os olhos verdes da inveja acompanhando-a quando ela os pusesse nos pés.

5.
A Pequena Vendedora de Fósforos
Não há  como fazer graça, nem ternura, quando a história é sobre uma criança que morre de frio.

Bolo Floresta Negra

Hoje estou na pressa de uma uma sexta em que a inspiração só chegou agora, mas as datas finais não estão nem aí para isso. Sendo assim, a receitinha vem sem a crônica de praxe. Mas, confesso que estou tão encantada com a minha invenção que acho que os comentários adicionais se tornam desnecessários. Ainda assim…

Quase todas sabem que Floresta Negra, no Brasil, é o nome que se dá uma torta feita com bolo de chocolate, chantilly e cerejas. (Não esquecendo que é o nome de uma floresta alemã e de um filme sensacional – e nada infantil – com a Sigourney Weaver fazendo uma fantástica madrasta da Branca de Neve, mas isso é outra história). Gosto da torta, assim, faz tempo que penso em como fazer um bolo que lembre o sabor. Claro que já fiz bolo de chocolate com pedacinhos de cereja. Ficou bom? Certamente. Mas daí que eu paro? Não sei se já informei por aqui, mas gosto mais de inventar, do que fazer devo o que sempre dá certo. Então…

Quem já circulou pelas prateleiras de importados do supermercado deve conhecer esta geléia. Para os que nunca se arriscaram a comprá-la, uma dica: as cerejas negras vem praticamente inteiras, quando não estão inteiras. A segunda dica, que deve agradar quem tem problemas ou ressalvas com açúcar, é que ela não leva açúcar na fabricação. Deu para entender as possibilidades deste vidrinho de paraíso? Então, vejam onde minha cabecinha fazedora de bolos foi.

Minha receita base que dá para decorar com facilidade. Três claras em neve reservadas, três gemas batidas em ponto de gemada com uma xícara de açúcar (dá para tentar com Tal7Qual ou outro adoçante que imite a quantidade do açúcar e possa ir ao forno). Depois meia xícara de óleo, batendo até a textura engrossar. Três xícaras de farinha peneirada, 3 colheres de chocolate 50% de cacau, 1 1/2 xícara de leite morno. Bate tudo. Tire da batedeira e misture as claras e uma colher bem cheia de fermento com uma colher de pau. Misture! Não bata.

Isso é só bolo de chocolate, certo? É, mas faça o seguinte, após colocar toda a massa em uma forma untada (eu gosto das tipo pudim), coloque a geléia com uma colher não deixando nenhum espaço na linha em torno do círculo.

Se você conseguir esperar esfriar… Bon apetit!

(Não houve tempo para fotos)

Essa coisa de sempre chegar depois

Tenho tido a sensação de me mover na água. Uma câmera lenta que fica fora e dentro de mim ao mesmo tempo. Oh não, não se trata de um daqueles textos tipo “hora de expor minhas dúvidas existências”. São mais reflexões de quem tem a sensação de estar atrasada em relação a um mundo que parece satisfeito em te engolir e derrubar (algo como as ondas da Praia da Solidão em Floripa). 
Neste final de semana consegui ver um filme que queria ter visto há um ano atrás ou antes. Há duas estreias no cinema (que já são velhas em praças maiores) que quero muito assistir, mas que estão em horário não condizentes com pais que trabalham. Tenho tentado ler intercalando clássicos e material novíssimo, porém, sempre fico com a sensação de estar com o assunto de ontem. 
Se meu devagar me incomoda? Não. É a pressa dos outros que acaba por me cansar. Mal tenho conseguido disfarçar minha cara de tédio ao ouvir o clássico: “Nossa, já é agosto. O ano está voando, não é? Logo é Natal.” Não, o ano não está voando, está passando na mesma velocidade de todos os outros anos. Os físicos já provaram que o tempo não está acelerando (talvez, esteja justamente o contrário). Demorou para chegar agosto e zilhões de coisas aconteceram desde janeiro. Não viu? Não sentiu? Será que o problema é com o ano? Ou você ficou apenas empilhando notícia em cima de notícia, tão antenado com o mundo que “desantenou” do resto? Sabe quantas ditaduras caíram desde janeiro? Quantos massacres ocorreram? Quantas piadas sem graça foram ditas e repercutiram na mídia por semanas? Foi o suficiente para encher todo este tempo que não foi rápido, foi no tempo dele. Isso porque o tempo não acelera, só você. 
As pessoas olham o Miguel com seus dois anos e cinco meses e me dizem que o tempo voa e como “eles” (as crianças) crescem rápido. Sinceramente, eu vivo cada etapa do meu guri e adoro o fato de cada dia ter ganhos e ser diferente. Ai de mim se ele estivesse ainda em alguma das etapas anteriores. Ele não está crescendo rápido, está no tempo dele, cada segundo no tamanho exato que um segundo deve ter. Talvez, quem está de fora, e não o olhe como eu, se surpreenda, mas não peça que eu acompanhe esta surpresa. De fato, no primeiro ano dele essas palavras até me incomodavam. Poxa, foi um parto punk, dias e dias de hospital, 3 cirurgias, 50 dias de UTI para ele, eu reaprendendo a andar e a respirar e a criatura vem me dizer que passou rápido? Rápido? Antes fosse, amiga, antes fosse.
Minha imensas alegrias e dores dos últimos… humm 8 anos (instalei a câmera lenta em 2003) passaram no tempo que tiveram de passar. Algumas, até demoraram um pouco mais. Não sou do tipo saudosista, pelo contrário, o tempo que passa vira história para contar e eu sou historiadora E escritora. Então, por que ficar lamentando?  
Eu chego depois dos outros sim, mas estou no meu tempo. Vou ler pela primeira vez um livro há muito escrito e que todo mundo já leu. Vou ver um filme que já passou para a sessão de clássicos da locadora. Vou comentar um fato que ocorreu há mais de mês. Acontece. Mas se o Miguel chamar, eu paro, só para ficar olhando ele crescer.
Ah… e ainda faltam quatro meses para o Natal (dá para derrubar um monte de ditadores até lá).

Do Animal contador de Histórias

O texto não é meu. Reproduzo na íntegra porque lê-lo é bom demais. Com vocês: Graham Swift – Terra d’água.


“Sei o que vocês sentem. Sei o que vocês sentem aí sentados em seus bancos, em atitudes de tédio, desânimo, ressentimento, resignação. Sei o que pensa toda criança quando submetida ao regime das aulas de História, a doses de passado enfiadas em colheres: ‘Mas e o Agora? Agora, estamos no Agora. E o Agora?’
Diante de vocês, um calvo quinquagenário tagarela dobre o Ancien Régime, Rousseau, Diderot e a insolvência da Coroa Francesa, atrás de vocês, além da janela, luz cinza de inverno, um pátio de recreio vazio, desolados e enevoados blocos de concreto… E à sua volta, esta sala de aula cheirando à mofo, em que vocês ficam suspensos, enjaulados como animais retirados do habitat natural.
Agora. E o Agora?
Prince chia – uma das inúmeras tentativas de subverter a Revolução Francesa, de perturbar a perturbação – e diz: ‘O que importa é o aqui e agora’.
Mas o que é esse tão falado Aqui e Agora? Quantas vezes o Aqui e Agora vem até nós? Aparece tão raramente que nunca é o que imaginamos (…).
Contudo o Aqui e Agora, que traz ao mesmo tempo prazer e terror, só raramente aparece – neo vem nem quando o chamamos. É assim que é: a vida inclui muito espaço vazio. Nós somos um décimo tecido, nove décimos de água: a vida é um décimo Aqui e Agora, nove décimos uma aula de História. Pois a maior parte do tempo o Aqui e Agora não é nem agora nem aqui.
Que se faz quando a realidade é um espaço vazio? Pode-se fazer com que as coisas aconteçam – e invocar, com todos os riscos, um pouco de urgência simbólica; pode-se beber e ficar alegre, e esquecer o que a mente sóbria nos diz. Ou (…) pode-se contar histórias.
O fato de eu me tornar professor de história pode ser diretamente atribuído às histórias que minha mãe me contava quando, como a maioria das crianças, eu tinha medo do escuro. (…)
Meu primeiro contato com a história tornou-se assim, na forma como saía dos lábios de minha mãe, inseparável de suas outras fábulas da hora de dormir: Alfredo deixando queimar os bolos, Canuto dando ordens às ondas, o rei Carlos escondendo-se num carvalho – como se a história fosse uma invenção agradável. E mesmo quando colegial, quando apresentado à história como objeto de estudo, quando alimentando deveras uma paixão implume que ia durar a vida inteira, ainda era a aura de fábula da história que me atraía, e eu acreditava, talvez como vocês, que a história era um mito. Até que uma série de choques com o Aqui e o Agora deu uma súbita objetividade a meus estudos. Até que o Aqui e Agora, me pegando pelo braço, me esbofeteando, e me mandando dar uma boa olhada na bagunça em que me encontrava, me informou que a história não era invenção, mas existia de fato – e eu fazia parte dela.
Assim, meti o peito na minha Matéria, Assim, comecei a olhar dentro da história – não apenas a manuseada história do vasto mundo, mas também, na verdade com zelo particular, a história dos meus ancestrais (…). Assim comecei a pedir da história uma Explicação. Só para descobrir, nessa busca dedicada, mais mistérios, mais coisas fantásticas, mais maravilhas e motivos de pasmo do que aqueles com que começara; só para concluir, quarenta anos depois – apesar da dedicação à utilidade, ao poder educativo da disciplina que escolhera -, que a história é uma fábula. E poderei eu negar que o que queria o tempo todo não era alguma pepita de ouro que a história acabaria fornecendo, mas a própria História: a Grande Narrativa, a enchedora de vácuos, a afastadora de medos da escuridão?
Crianças, só os animais vivem inteiramente o Aqui e Agora. Só a natureza não conhece memória nem história. Mas o homem – deixem-me dar-lhes uma definição – é o animal contador de histórias. aonde que que ele vá quer deixar para trás não uma esteira caótica, não um espaço vazio, mas as reconfortantes boias de sinalização e as indicações de estrada das histórias. Tem de continuar contando histórias, tem de continuar inventando-as. Enquanto houver histórias, está tudo bem, Mesmo em seus últimos momentos, dizem, na fração de segundo de uma queda fatal – ou quando se está se afogando – ele vê, passando rapidamente à sua frente, a história de toda a sua vida.
E quando se senta, com mais lazer mas não menos terror, no meio da catástrofe, quando se senta (…) em seu abrigo anti-nuclear, ou simplesmente se senta sozinho porque lhe levaram a esposa de mais de trinta anos que não mais o reconhece, nem ele a ela, e porque seus alunos, seus filhos, que outrora – sempre lembrando-se do futuro – vinham às aulas de história, não estão mais ali, ele conta, mesmo que só para si mesmo, mesmo que só para um público que é obrigado a imaginar, uma história.
Portanto, deixem-me contar-lhes outra. Deixem-me falar a vocês”.
SWIFT, Graham. Terra d’Água. Trad. Marcos Santarrita. SP: Companhia das Letras, 1992.
Minha homenagem aos contadores de histórias.

Uma Livraria sem Limites

É interessante acompanhar um livro antes de nascer. Estamos acostumados a fazer isso com filmes (pelo menos eu estou). Quando um tema, ou diretor ou ator que aprecio se inicia num novo projeto, eu vou acompanhando notícias, vendo fotos, sabendo detalhes da produção. Algumas vezes vou na estréia, outras, aguardo as críticas. Não sou nenhuma religiosa com críticas, nem com resenhas de qualquer tipo. Tenho confiança no gosto de alguns críticos, então, aprecio saber a opinião deles. O que não me impede de formar a minha, é claro, e discordar veementemente quando for o caso. Discordo também de muitos sucesso de público (Titanic ser o maior sucesso do cinema mundial me faz pensar que nasci no planeta errado). 
Quando vi as primeiras informações sobre A Livraria Limítrofe, de Alfer Medeiros, foi meio sem esforço que comecei a acompanhar. Li a degustação, acompanhei o blog, li outros textos do autor (confesso que Lobisomens não são minha praia). O fato é que a proposta me pareceu encantadora desde o início.Uma livraria em que se molda ao gosto literário de seus visitantes, oferecendo-lhes uma experiência única. Um sonho para qualquer leitor compulsivo como eu. Uma descrição de paraíso. Um Valhalla de mortais. Cada capítulo, um conto, um encontro e uma experiência única. Fui na estréia e só li resenhas após ler o livro em três sentadas. 
Quem já leu algum comentário meu sobre livros sabe que não faço resenhas. Indico, comento, falo de minhas impressões, junto outras histórias. Não farei diferente. Então, já começo dizendo que gostei do livro. A leitura flui rapidamente (o que é óbvio pelo tempo que levei para ler). O texto é ágil e cativante. Os contos se apresentam quase como jogos, onde se fica brincando de encontrar a base das referências (a esmagadora maioria sobre literatura dita de gênero: fantasia, FC, infantil, terror, crime, etc). Trata-se do texto de um leitor apaixonado que se dirige a outros leitores apaixonados. É possível que um leitor iniciante venha a ser seduzido pelo texto, coisa que faço votos. Contudo, acho que será nos viciados pelo tipo de literatura explorada por Alfer que o livro encontrará seu público.
Por outro lado, o projeto gráfico do livro é igualmente fascinante. Livraria vem sem capa. E isso também conta uma história. Se o limítrofe se refere ao limite entre o mundo real e o literário, colocar limites físicos ao livro seria encarcerá-lo. Livraria Limítrofe como objeto é outro conto. E isso se repete nas páginas decoradas, pois elas também ajudam a descolar a história do livro e realizá-la em torno do leitor.
Emocionou-me o segundo conto, que tem algo de O Sul, do Borges, embora seja o que eu tenha falhado mais em identificar os autores que dão o tom da história. Os personagens, em geral, não são tipos originais, mas pessoas bem comuns, das que se encontra todo dia, das que se conhece. Dá para ler e ir pensando: olha o Fulano aí. Mas isso tem prós e contras, pois a narrativa em primeira pessoa exige identificação e algumas vezes isso não ocorreu. Ou porque o personagem não soava totalmente verdadeiro, ou porque seu discurso tinha pequenas mudanças de tom, ou porque havia uma frasezinha que podia ter ficado de fora (nada que incomode, se você não for um leitor chato, o que eu sou). 
O pró vem do fato de eu não conseguir parar de ler antes do final. Queria ver o que o próximo personagem veria, saber seu autor predileto e ver como isso se entrecruzava com sua história pessoal. Talvez, esse seja o grande trunfo do livro. Imagine uma livraria que não vê um cliente, mas apenas o leitor no que ele foi e no seu futuro. Uma livraria que é também um labirinto de duas faces, uma para o passado outra para o futuro. Uma livraria cujos limites físicos são a imaginação dos que conseguem acessá-la. 
A ideia vale o livro. O livro vale a ideia.

Robôs, imprensa, ditadura e política.

Durante minha última viagem à São Paulo terminei o volume 3 do História de Robôs. Eu já tinha comentado o primeiro conto aqui, mas,depois acabei emperrando nos contos seguintes.



Sam Hall (de Paul Anderson) é bastante longo e, mesmo sendo excelente, levei dias para vencer por conta de outras razões que não a leitura. Ainda assim, há nele uma reflexão que se une, ao meu ver, a outro dos grandes contos do livros: Se Benny Cemoli não existisse (do fantástico Philip K. Dick). O primeiro conto tem ênfase em um mundo preso a uma ditadura técnica, em que tudo e todos são vigiados. Contínuos testes de fidelidade são feitos ao regime. Então, o personagem principal, um burocrata responsável pela máquina que faz a triagem e organização das notícias, resolve, por questões particulares criar um fictício rebelde, um herói de oprimidos, um guerrilheiro: Sam Hall. Benny Cemoli também é ficção dentro da ficção. É criado num planeta destruído, disputado por corporações que se apoderam de um jornal homeostático – isto é, um jornal capaz de “captar” a notícia. Porém, e se alguém pudesse controlá-lo? Se fosse possível criar notícias, mesmo que falsas? Não haveria aí uma realidade alternativa criando eventos e consequências que, de foto, não se ligariam ao real, mas seriam reais.

Eu fiquei fascinada com a leitura e não parei de pensar nisso por horas. Afinal, leio jornais todos os dias. Vários, de várias vertentes ideológicas (TODOS tem a sua). E não raro é possível se deparar com mentiras. Ou notícias que se contradizem ou que não nos dizem tudo. No entanto, elas criam efeitos e efeitos reais. Não serei leviana em dizer que temos uma ditadura dos meios de comunicação, que somos vigiados em nossas opiniões e consciências, que o factual e o factóide demoram a ser separados uma do outro ou nunca são. Não, não direi nada disso, mesmo com a sedução da ficção científica ficando menos ficcional a cada girada de tela do meu PC. Mas que dá para pensar, dá!

****

Os três contos seguintes do livro são bons, apenas isso. Fui eu que fiz você, de Walter M. Miller Jr; Gatilho Humano, de J.F. Bone; e Guerra com Robôs, de Harry Harryson. No fundo, os três tem algo de semelhante, pois parecem questionar este jogo deificado entre homens e máquinas e quem é o Deus de quem. Gatilho Humano tem a máquina como instrumento e o homem como um gatilho que depende do bom-senso. O problema é que o bom-senso é particular e restrito. E se não for o homem certo a estar no lugar errado na hora errada? Bum!

2066: ano da eleição, de Michael Shaara, seria um conto excelente não fosse a patriotada. Não se trata de anti-norteamericanismo, apenas, neste caso, a literatura perde para a patriotada. Não dá para ficar indiferente. Isso, caso, a literatura seja mais importante para você que os EUA e sua visão de si mesmo.

A chave-inglesa, de Gordon Dickson tem o personagem mais desagradável de todo o livro. Não gostei dele nem por um instante. Sua lógica e arrogância fazem do conto o único que pende para um certo suspense-pânico no final.

Disque F para Frankenstein, de Arthur C. Clarke foi, na verdade, o primeiro conto que li do livro, logo que o comprei e antes de chegar em casa. Motivo? Arthur C. Clarke. Isso não torna minha avaliação muito objetiva. Não nego que a palavra Frankenstein também tenha me chamado. Gosto bastante desse conto. Esse clima de conversar sobre uma tragédia que já se sabe, porém, ainda não chegou ao lugar em que se está. É um conto em que o clima de tensão supera a história. Mas… elogios irão minar o conto, deixo a quem ler.

O circuito de Macauley, de Robert Silverberg, não é um grande conto, mas fala de tantas implicações filosóficas e neurológicas a respeito da arte que não me sinto à vontade em comentar. Eu tendo a concordar, mas sei da superficialidade da minha abordagem. Gostaria de conversar sobre ele com o Milton Ribeiro e o Augusto Maurer, estes sim, capazes de discorrer sobre a música, quem a cria, quem a reproduz.

Judas, de John Brunner, volta a questão do Deus ex Machina. É óbvio de várias formas, mas extremamente atraente à leitura e ás questões que traz à tona.

Deixei, claro, meu favorito para o fim.
Prova, de Isaac Azimov. Sem muita surpresa, é claro. Asimov, como Clarke não falam com meu intelecto, mas com uma parte muito emocional de mim e isso acaba obliterando, não raro, minha percepção deles. Este conto tem como se pode imaginar um robô encantador, como só Asimov sabia criar.  Infelizmente, não é possível falar mais e,  não recomendo a quem quer se surpreender que leia a introdução ao conto. Por outro lado, este ser adorável só o pode ser por ser um robô e sua perfeição está em ser exemplo, não em dominar nada. Uma das belas utopias de Asimov.

Sobre gatos no Sapatinhos

Sou uma apaixonada por livros infantis desde o primeiro que eu tive. Na verdade, e isso não é segredo, sou apaixonada por livros. Antes mesmo de me alfabetizar eu queria ter idade para ler um que só tivesse letras. Posava para fotos sempre com um dos livros do meu pai na mão. Invariavelmente era um daqueles da série Perry Rhodan. Meu pai dizia que aquele livro falava do futuro, de como seria a vida quando pudéssemos alcançar o espaço. Fascinada, eu folhava as páginas de papel jornal com seus signos enigmáticos por horas. 
Claro que, logo, e quando era possível, comecei a ganhar aqueles livros grandes, ilustrados, cujas histórias eram contadas em frases. Passava por eles, mas, na maioria das vezes, só os olhava para inventar histórias para a minha irmã.
De fato, conto como meus dois primeiros livros os que ganhei em julho de 1980. Tinha acabado de me alfabetizar e ia mudar de cidade. Minha professora da primeira série e meus colegas fizeram uma festa de despedida e deram-me dois livros que guardo como relíquias até hoje. Ela me deu As Aventuras de uma Andorinha, que era um texto longo e em prosa que demorei a ler. Eles, por escolha dela, deram-me O Patinho Feio em poesia. Foi o primeiro LIVRO que li, e também a primeira narrativa poética. Dali um mundo todo foi surgindo. Nunca mais deixei de amar os livros infantis.
Como sempre tive crianças na família, acabei acompanhando os formatos que os livros infantis foram tomando nos últimos trinta anos. Vi os textos serem reduzidos sem que as ilustrações acompanhassem com alguma melhoria enriquecedora. Vi a cor substituir o conteúdo. Vi textos tão ruins que me davam a certeza de não ser feitos por escritores, mas por algum estagiário que o ajeitou entre uma cópia xerográfica e uma ida ao correio. Os resumos (?) de alguns contos de fada são de matar. Sem sutilezas mágicas, sem beleza, sem encanto. Nem vou falar da poesia.
Lentamente, observando os livros nos últimos dez anos, vejo as coisas mudarem. O texto está novamente ganhando relevo e ilustradores talentosos. Um cuidado maior com o livro infantil, mesmo aqueles pequenos, feitos para consumo, pois serão carregados e olhados e namorados até a exaustão (dos livros, não dos pequenos). 
Ontem voltei da Fantasticon 2011 trazendo para o Miguel, O Livro dos Gatos, primeiro livro infantil do Estevão Ribeiro. O livro é muito bonito, todo em preto e branco porque, afinal, criança ama pintar. As ilustrações não são óbvias. Pedem calma e observação. Pais tutores não são necessários, mas bem vindos para ajudar no encantamento.
E o texto?
Poesia. Linda, forte, mágica. Terminei a leitura num arrepio. Daqueles satisfeitos, emocionados. O tipo do livro que dá vontade de conhecer alguma criança para poder dá-lo de presente. O Miguel ainda é muito pequeno, amou o livro, mas vai demorar a compreender a história. Gostou da cadência da poesia e chamou de musiquinha. Ficarei encantada se este for o primeiro livro dele.

Somente o necessário

Saudade de colocar uma receitinha aqui no blog. Então, acontece que ontem fiz algo bem digno de vir para cá (sim, ainda estou devendo a receita de sopa de cebola, mas logo vem). 
Quem acompanha as receitas do blog sabe que sou adepta (ao menos quando eu cozinho) das comidinhas minimalistas: pouco a fazer, muito a saborear. Esta aqui não foge a regra e o bom é que não foi aprovada apenas pelos de casa, logo, já coloco aqui com pelo menos 6 pessoas dizendo hummm.
Mas, como nunca dou uma receita sem contar uma história (imposto para quem vem aqui só querendo ingredientes e modo de fazer), vou começar dizendo que esta não é uma receita surgida de um gosto, mas do desejo. Eu realmente não gosto de fígado. De verdade, não gosto de nenhum tipo de miúdos em termos de carne (exceto língua bovina, mas isso é outra história). Simplesmente não vai. E olha que já tentei. Nem gosto do saber em outras coisas. Assim, fígado cozido de frango ou na sopa, ou fígado bovino à milanesa, não dá. Eu nem ao menos gosto da palavra. Nem do ela lembra. Nem das referências canibais tão comuns na literatura e no cinema de horror.
No entanto… acho patê de fígado irresistível. Simplesmente adoro. Chego até a engolir aqueles horríveis que se pode comprar no mercado e que tem tanta mistura, conservantes e colorantes que nem mais se parecem com um patê de fígado. Sempre que eu tenho um desejo destes, que o que há no mercado não consegue suprir, minha mãe costuma fazer para mim. Porém, esta semana o desejo foi também de fazer o patê. Misturei algumas receitas, algumas memórias e voilá!
Numa forminha pequena (tipo de bolo inglês) fiz uma cama de fatias de bacon. Usei umas 250g de bacon gordo, com pouca carne e retirei a parte da pele. Depois, o cortei em fatias finas para montar a base que, obviamente, dispensa que se use óleo ou unte a forma. Depois, coloquei o fígado de frango (algo em torno de 300g), sal, e cobri com uma cebola grande picada e 2 dentes de alho. Depois salsinha e cebolinha frescas, pimenta do reino branca moída na hora. Reguei tudo com conhaque, usei umas sete colheres para isso, mas fica à gosto. Cobri com o bacon restante e coloquei no forno alto por uns 45 min. A casa se cobriu de um cheiro delicioso, daqueles que deve ter deixado os vizinhos com água na boca. Então, assim que o assado amornou foi todo para o liquidificador. 
Acredite, o resultado é extraordinário, mas para ficar bom, bastou usar o necessário. Até lembrei da música do Baloo. Essa é a cozinha que eu gosto.

Notas sobre o Habitante da Ilha Deserta


O Habitante
O homem que habita a Ilha Deserta pode não ser um homem, mas pensa como um. Entenda, ele não pensa como “todos” os homens, mas como um bem específico. O habitante da Ilha Deserta pensa em si mesmo como único e sem igual. Sendo assim, ele é, obviamente, um ser superior. Não tão superior quanto o deus em que ele acredita, mas, como ele se pensa escolhido por este deus, é o único que pode se igualar a ele. Mas, não se engane, o habitante da Ilha Deserta não se acha diferente. Ele é que é “o igual”. Igual ao que se deve ser, segundo as leis que ele acredita e que são as únicas importantes e verdadeiras, pois também foram proclamadas pelo deus que “o escolheu”. Todos os outros, que não são iguais a ele, têm defeitos graves. Trazem a marca da deterioração do mundo, da decadência que o habitante da Ilha Deserta vê. Para ele, o mundo não é mais o mesmo. O mundo era melhor antes. O mundo hoje é tolerante demais. E decadente porque tolerante. O mundo devia ser dos fortes e escolhidos como ele pensa que é. E tudo o que ele perde é por culpa destes que são diferentes. Eles lhe tiram o emprego. Tornam suas ruas inseguras. O fazem mais pobre, mais infeliz e menos escolhido do que ele pensa ser. Nesse raciocínio, só pode ser pior que o diferente, estes seres horríveis que querem tolerar o diferente. Estes que poderiam ser iguais e pregam que o diferente é igual. O habitante da Ilha Deserta se esforça, mas não entende. Ele vai até a História e a molda ao seu gosto. Mata a sociologia, descrê da antropologia, ri da filosofia. Busca consolo na religião e também a molda ao seu gosto. O habitante da Ilha Deserta não vê o outro, nem pode. Vê apenas a si mesmo, único marco de perfeição e absoluta consonância com o destino brilhante, com os qual os desígnios divinos o marcaram.
A Ilha Deserta
Nela vivem o habitante da Ilha Deserta e todos os outros a quem ele quer invisíveis. Melhor se exterminados. Os diferentes conspurcam a Ilha que já foi boa, no passado, quando não havia tanta injusta tolerância. Quando não havia todo o mal criado por estes diferentes que, de uns tempos para cá, resolveram deixar de servir e passaram a querer ser vistos. Ora, não sabem os diferentes que seu único papel em existir é reforçar o quanto o habitante da Ilha Deserta é bom, bonito, perfeito e escolhido? O quanto ele é superior a todos os diferentes que aí estão? A Ilha Deserta só faz sentido por ser deserta de diferenças. Este é o mundo que o deus, em que o habitante da Ilha Deserta acredita, criou, e apenas para que este habitante, unicamente igual a si mesmo, habite.
Sobre o deus do Habitante da Ilha Deserta
Esta figura é a imagem e semelhança de seu filho escolhido. Também mora numa Ilha Deserta. Não criou os diferentes e não sabe por que eles estão por aí. É mesquinho e intolerante. Como seu escolhido, não gosta das outras imagens que o apresentam como tolerante, bondoso e igualitário. Diz que a frase “vinde a mim” é uma mentira. Coisa de esquerdistas subversivos que querem ver o mundo virado. Querem encher a Ilha Deserta de gente diferente e acabar com a igualdade sagrada dando ela para todos. É o fim do mundo! Ou, pelo menos, da Ilha Deserta.

Fonte da Ilustração: Galeriacores Cartoons