A erudição de Lovecraft

Sempre que começo a ler um autor que eu ainda não tinha lido, fico com aquela horrível impressão de ter chegado no fim da festa. Já rolaram os maiores babados, mas eu não tenho tempo de me inteirar de tudo. Então, como o jornalista que só conseguiu uma testemunha que soube por ouvir dizer, eu tento escrever. Vida dura esta… mas, a verdade, é que não me conformaria em não indicar um dos mais interessantes livros que li nos últimos tempos. Trata-se do longo ensaio histórico-literário feito por H.P. Lovecraft (que entremeei com a leitura de alguns contos deles que resenharei depois), intitulado O Horror Sobrenatural em Literatura. 
Com um panorama traçado desde meados da época moderna, Lovecraft convida a uma deliciosa viagem pela literatura anglo-saxônica de horror sobrenatural. Mas não é apenas o trabalho de um escritor apaixonado pelo próprio gênero de trabalho. Lovecraft deixa claros os critérios com que leu cada época e cada um dos autores. Reconhece os pontos fortes e os fracos e a contribuição de cada um para o gênero. Acima de tudo, o escritor concebe uma encantadora definição para a literatura de horror sobrenatural e seu lugar no gosto dos leitores, embora, ele reconheça, ela nunca chegará a todo o público leitor pelo gosto e sempre encontrará muita dificuldade em ser reconhecida pela “grande literatura”. 
Neste último ponto, há uma avaliação lúcida e coerente. É muito difícil fazer uma literatura de gênero, capaz de açambarcar o gosto popular e, ainda assim, construir uma prosa imortal. Mas não é impossível, há bons exemplos e Lovecraft os analisa todos. Contudo, fica claro que, neste caso, a celebridade dos autores de gênero se dá menos pelas experimentações estilísticas que pela capacidade de criar fábulas a temporais, capazes de acessar as partes escuras da alma humana e fazê-las temer. Os autores capazes desse feito, são aqueles cujos escritos atravessam nossa sociedade aficionada ao realismo sem jamais caírem no ridículo. São os que, nas palavras de Lovecraft, exploram, acima de todos os medos, o medo do desconhecido.
Ora, com o que povoamos a escuridão se não com nossas perversidades e horrores? O medo do desconhecido é o medo da loucura, da própria mente humana em desalinho. É ali que o pavor mais insuportável reside. Os personagens de Lovecraft podem salvar a vida, mas poucos mantém a sanidade. Os que mantém, após os episódios narrados, nunca mais serão os mesmos, carregam para sempre a marca do horror. Uma marca que sequer conseguem compartilhar, pois nela reside o indizível.
Terminei a leitura como uma sensação de inveja de uma escola de escritores como a professada por Lovecraft. Não estou falando dos escritores de literatura fantástica ou de horror, mas dessa ideia tão clara demonstrada por ele: a de que para mergulhar na literatura não basta apenas ler e conhecer os pares, mas que a presença de uma saudável erudição pode ser extremamente benéfica. Fiquei encantada e diminuída com o tamanho deste autor. Ávida por mais e mais dele. Mas, perdoem os fãs mais antigos, pois li apenas este livro e alguns contos e estas são as minha impressões no fim da festa. Devia ter chegado antes…
A quem interessar possa, há uma boa biografia com análise de seus escritos neste blog.

Mundo da Antecipação II



Volto a ler as antologias organizadas por Isaak Azimov. Desta vez não li, devorei. O Volume 1 de Histórias de Robôs é menos técnico, talvez, até menos capaz de criar vórtices em direção ao futuro, mas é tremendamente emocional. Enquanto o Vol 3 me fez ficar horas pensando após a leitura de um único conto, buscando cenários e implicações, o Vol 1, cujo primeiro conto é de fins do XIX, me fez saltar de um conto a outro com avidez aficionada. 


O primeiro conto trás um tom gótico, mas ficou longe de ser meu favorito. De fato, meu encanto se deu por Robbie, escrito pelo próprio Azimov aos 19 anos. O conto é obviamente a base de onde, anos depois, sairia O Homem Bicentenário, mas ele não perde nada por isso. Pelo contrário, fiquei encantada com sua prosa enxuta e o sempre arrebatador talento de Azimov em criar robôs comoventes sem lhes tirar a lógica pura. 

Contudo, em termos imaginativos, não há como não destacar outros dois contos. ‎A volta do robô, de Robert Moore Williams e sua sequência escrita pelo amigo Lester Del Rey: Mesmo que os sonhadores morram (neste só o título já é uma peça). Imperdíveis aos apreciadores da boa FC.

Há ainda mais um conto que merece ser mencionado: Adeus ao Mestre, de Harry Bates. Ele foi a base para o filme O Dia em que a Terra Parou que, confesso, só vi a versão de 1951.


Fica a dica de leitura para este fim de julho. 



Os sentidos na ficção

Acabo de terminar a leitura do livro Oficina de Escritores, de Stephen Koch, professor de escrita criativa nas universidades de Columbia e Princeton. É com certeza uma boa aula. Um bom curso, eu diria. Daqueles te dá a dimensão da tua incipiência em tantas coisas no universo da escrita que, ao sair do livro, a gente se sente menor do entrou. 
É certo que ele passa um bom tempo a convencer seu leitor (aspirante à escritor) do óbvio. Não é possível ser um bom escritor sem ser um leitor melhor ainda. Não é possível escrever profissionalmente sem estudar para isso, independente do que se quer escrever. Cada tipo de texto vai exigir uma preparação diferente.
Confesso que a primeira assertiva (muito embora eu saiba da sua verdade) sempre me deixa chocada. Adaptando a metáfora do autor: como alguém pode querer jogar futebol, se não gosta de assistir ao jogo? Seria como EU querer jogar futebol. Ou seja, um despautério total. Quanto a segunda afirmação, eu creio estar plenamente adaptada a uma existência acadêmica que não consegue encarar nada sem estudo. Mas imagino que haja uma boa quantidade de jovens aspirantes cuja crença no próprio talento é pouco permeável as tentativas de convencê-lo que, talento sem estudo é bom, mas nem sempre é legível ou, de qualquer forma, salvável em meio aos rasgos de amadorismo que o acompanham. 
O livro é escudado nas frases de grandes escritores sobre o ofício de escritor. Koch não se furta a usar todos os argumentos de autoridade que tem em mãos. E funciona. Muito raramente ele não me convenceu. Contribuiu também sua visão genérica e ampla, sempre pronta a acolher as técnicas idiossincráticas de cada um. Mesmo ressaltando a necessidade nunca descartável de que: sim, haja alguma técnica ao realizar este tipo de trabalho.
De tudo, no entanto, gostei mais de duas coisas (e gostei de bastante coisa no livro). A primeira está no último capítulo, onde o autor faz um tour pelos livros sobre o ofício de escritor, escritos por escritores. Uma pena que tenhamos tão poucos deles traduzidos. Acho que um grande público de jovens aspirantes se beneficiaria com isso, mesmo que a leitura em inglês esteja cada vez mais difundida. Por outro lado, fica uma sensação de que temos poucos trabalhos de escritores brasileiros consagrados falando do ofício. Sim, sim, nós temos muitas entrevistas em revistas com escritores falando sobre isso. Mas entrevista, por melhor que seja, é direcionada. Possuímos alguma coisa nas memórias de algum escritor como o Nélson Rodrigues, por exemplo. Porém, no conjunto, que chegue ao público leitor, se tem pouco, bem pouco, por parte de nossos maiores autores. 
O segundo elemento que me agradou sobremaneira ficou naquilo que Koch nomeou como VOZ. Não somente a voz dos personagens, mas a voz própria do autor e aquela com a qual ele quer contar cada uma das suas histórias. 
Sobre a voz do personagem, é interessante sua sugestão sobre o uso dos sentidos. Ou eu achei interessante porque uso isso, não sei. Mas construir uma personagem não apenas por sua aparência, mas por sua voz é algo que me tocou profundamente. Tenho personagens que já chegam a minha cabeça falando pelos cotovelos. Outros são silenciosos, mas é daqueles silêncios eloquentes em que a postura diz tudo. Estes últimos me exigem dias de observação. Costumo pegá-los pelo olhar. E aí percebo que, quando escrevo, falo em olhos o tempo todo. Falo porque é neles que eu vejo o que quero ver. Obviamente, me cerco de cuidados e releituras para não atormentar o leitor que prefere ouvir, claro.
De qualquer forma, eu vejo ambos como uma espécie de jogo sinestésico. O bom olhar arrepia tanto ao autor quanto ao leitor. A voz correta cria uma cadência, um ritmo, um entendimento não transferível para outro personagem. Lembro de já ter escrito frases a serem ditas por alguém e ter de trocar seu autor, ou a forma do comentário, pois aquele a quem a fala originalmente se destinava, jamais a diria. Tenho uma personagem de quem o Guto vive reclamando por pouco ouvi-la. Claro, ela realmente quase não fala. Nem sei se um dia será falante. Não posso convertê-la numa tagarela e também, como autora, ela pouco me deixa invadir seus pensamentos. Transformar seus silêncios em eloquência, porém, é trabalho meu, não dela. Eu preciso escrever melhor, ela já é mais difícil de mudar (como o são pessoas que falam pouco, ou falam em demasia ou, ora, ela não vai mudar por hora, isso é mais um fato sobre ela).
A outra voz é a do escritor e o exercício proposto é tão interessante de ser feito consigo quanto com outros autores. Afinal, quem está narrando? Este autor que você lê, ele também é uma espécie de personagem e ele não se confunde com o narrador em absoluto, mesmo com o narrador externo, em 3ª pessoa e onisciente.  O escritor é uma superposição de vozes. A sua real, que pode ser ou não censurada na hora da escrita e, por isso cria o personagem escritor que reside sob e muito além da narração. A que ele revela como narrador, a que se faz ouvir em cada personagem. 
O escritor convive esquizofrenicamente com a arte e o papel. Ele nunca está exatamente sozinho, ou parado, ou pensando apenas. Assim, limpar essas vozes para se fazer entender é um exercício nem sempre fácil, mas interessante e importante. Certo, sempre há alguém a defender que vá tudo para o papel, sem controle. Que a arte é o incontrolável. Aí terei de concordar com Koch, não se controle e escreva para ninguém. Se quer comunicar, seja como for, conheça cada passo, cada voz. Se quiser misturar tudo, faça-o, mas consciência de o fazer. Alegar desconhecimento não torna ninguém mais talentoso, apenas desconhecedor da própria criação. 
P.S.: Belíssima capa com os recortes de azulejos.

Mini-Contos de Fadas II



Para quem gostou dos primeiros, mais uma leva de Mini-Contos de Fadas.



Mini-contos de Fadas II

1. 
– Pele de Asno
– Schssssss ninguém conta essa história.
– Por quê?
– Um pai que quer casar com a filha é realidade demais para a cabeça das crianças.

2. 
– Só se tem duas chances na vida: ou se nasce bem ou se casa bem – discursou o gato.
– E como se faz para casar bem? – perguntou o filho do moleiro.
– Pareça que nasceu bem.

3.
Uma roupa que apenas os inteligentes veem? É melhor que esquente, porque, para a maioria, não vai tapar nada. 

4. 
Fecha o livro após a leitura do conto do Barba Azul.
– Mamãe? É ruim ser curioso, né?
– Não, filho. Ruim é matar pessoas e fazer disso um troféu.

5. 
– Dizem que nesse mar dá sereias.
– Sério? E qual é a isca?
– Amor eterno…


O “Terrível” e os Livros

Ainda desencavando textos que estão na gaveta do meu PC. Este é bem datado, foi escrito no dia 14 de outubro de 2010. Por que a data é importante? Leia e verá.



O “Terrível” e os Livros

No dia 12 de outubro, usei o Twitter para lembrar minhas leituras de infância e adolescência (época em que ler era quase “feio” entre as pessoas da minha idade). Não tinha a intenção, mas meus comentários geraram um belo debate com alguns amigos sobre livros e gostos literários. Em dada altura, comentei sobre os livros que satisfizeram meu gosto pelo drama, pelo horror e pelo trágico na adolescência. Sempre foi minha convicção que os professores de literatura perdiam de explorar essa “atração mórbida” dos adolescentes para conquistar mais leitores.

Meus interlocutores, todos mais jovens que eu, e mais próximos da adolescência, tenderam a concordar comigo. É claro, ponderei, não basta o trágico pelo trágico, é preciso uma identificação – mesmo que horripilante – com a narrativa. Um exemplo é o fato de que nada é mais comum no Brasil do que encontrar jovens que odeiem Iracema, de José de Alencar – e, com força maior, odeiam os professores que os obrigaram a ler e que, após a primeira página, deram um jeito de enganar fragorosamente (inclusive eu) – que é um romance cheio de tragicidade. Porém, também se encontra com facilidade, na mesma faixa etária, gente que ama Noites na Taverna, de Álvares de Azevedo, escrito praticamente na mesma época. O livro de 1855 tem admiradores mesmo entre jovens que só conhecem os contos pelos extratos dos livros texto de literatura.
Portanto, não é a antiguidade ou a novidade que regem o gosto literário dos adolescentes, mas essa atração pelo mórbido, pelo terror, pelo incomum. É o mesmo gosto que faz com que, nesta fase, se consuma filmes, jogos, imagens que remetam para aquelas coisas em que os adultos – mais preocupados com terrores diários, como as contas do fim do mês – preferem não pensar. Ou classificam como tolices: fantasmas, mortos-vivos, vampiros, dramas de culpa, amor, ciúme e morte.
É certo que falo de minha experiência como leitora, que pode não ter nada a ver com a de você que me lê agora, mas eu estou muito longe de ser um caso particular e único. Meus interlocutores no dia 12, no Twitter, me provaram isso. E também me fizeram pensar em onde está a raiz desse gosto pelo terrível (o trágico, o drama e o horror puro e simples)? Vi-me retornando a dois livros que tenho em casa: o excelente Fadas no Divã, de Diana e Mario Corso, e o igualmente interessante Brincando de Matar Monstros, do norte-americano Gerard Jones. Em ambos os livros, os autores defendem a necessidade (a palavra é essa mesma) de se entrar em contato com o terrível através do ficcional (sejam livros, histórias contadas, filmes, desenhos animados) nas nossas idades mais jovens. Em outras palavras, nada de dizer que a madrasta não era tão ruim assim ou que a bruxa não quer de fato cozinhar João no caldeirão. Nada de amenizar a orfandade (elemento que exerce uma atração aparentemente sem fim, mesmo entre adultos), nada de dizer que monstros não existem e que não é preciso matá-los, ao menos de mentirinha.
Sei que tem gente que se horroriza com essa ideia, mas a argumentação dos autores me foi muito convincente. O mundo ficcional é seguro. É onde podemos experimentar as emoções que recalcamos desde a tenra infância de forma que elas não nos machuquem, nem machuquem os outros (esta também é a tese de Bruno Bettelhein). É o lugar onde podemos pensar: e se isso acontecesse comigo? Como eu reagiria? É onde podemos deixar nossos medos crescerem até o insuportável e, então, vermos o dia nascer (fala alguém que só apagou a luz de cabeceira quando já havia sol lá fora). É onde podemos ser maus e gostar disso, sem nos tornamos pessoas ruins para quem nos rodeia de fato.
Porém, muitos negam essa literatura para os mais jovens. Veem nela uma influência ruim, perniciosa. Acreditam que os jovens, em especial as crianças, devem conhecer apenas o lado bom e doce do mundo. Será que o certo é só lidar com o “terrível” quando ele bate à nossa porta? Deixar nosso cérebro sem o salutar exercício fictício da perda, da culpa e do terror? São as escolhas de cada um. A minha escolha sempre foi entrar em contato e viajar pelo lado escuro do humano primeiro nas deliciosas e seguras asas da ficção.
Para terminar e aproveitando que 29 de outubro foi o Dia Nacional do Livro e 31 de outubro é Halloween (algo que queiramos ou não já vem se incorporando em nossa cultura) ficam as dicas de leitura abaixo. É uma pequena seleção de antologias de contos. Preferi os textos curtos aos romances não pelo fato de a leitura ser mais rápida, mas para que ninguém precise ir dormir deixando uma história no meio (isso sempre me causou um medo terrível). A seleção também privilegia os escritos do século XIX, por gosto pessoal. Se está começando a carreira de leitor, dê uma olhada. Se tem filhos adolescentes, experimente presentear com um desses. Se já os leu, o clima do final de semana pode sugerir uma boa releitura.
Noites na Taverna, Álvares de Azevedo (Editora nacional, 1994).
Contos Fantásticos do Século XIX, seleção de Ítalo Calvino (Cia das Letras, 2004).
Contos de Grimm (Editora Nacional, 2000).
Contos de Horror do Século XIX, seleção de Alberto Manguel (Cia das Letras, 2005).
Histórias de Fantasmas, Charles Dickens (L&PM, 2010).
A Carta Roubada e outras Histórias de Crime & mistério, Edgar Alan Poe (L&PM, 2005).



Influências

Há alguns anos, quando eu ainda estava na faculdade, mantinha o costume de ir semanalmente à CESMA (Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria) para namorar os livros. Quando era possível, eu comprava, quando não, apenas o namoro já trazia aquela satisfação que só os amantes de livros conhecem. Desta época desenvolvi alguns superpoderes. Como comprar um livro no impulso e só descobrir seu real papel na minha vida anos depois. Ou abrir livros em páginas aleatórias e retirar dali verdades eternas. Por vezes, encontrava um um trecho que me marcava tão profundamente que sua simples leitura não apenas valia a compra do livro, mas tinha o mesmo poder de um encontro com o destino (não que eu acredite em destino, mas acredito em encontros).

O poema abaixo foi um destes:

Morte por Água

                                                                         T.S. Eliot

Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,

Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas 

E os lucros e os prejuízos.

                                                Uma corrente submarina

Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia

Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude

Até que ao torvelinho sucumbiu.

                                                           Gentio ou judeu

Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,

Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu. 

Ganhei o livro no meu aniversário seguinte e desde então sempre volto a esse poema. Obviamente é pessoal o que ele me causa e, talvez, jamais realize o mesmo poder em qualquer outra pessoa que venha a lê-lo. Porém, sempre que abro o livro Poesia de T.S. Eliot, não resisto em lê-lo. E sempre me vem o mesmo pensamento: É isso! É assim que quero escrever. Seja história, seja ficção. É no olhar de quem já viveu na carne a dor e a delicia de estar vivo que meu narrador que estar.
Se foi Tolstói um dos meus mais fortes professores, T.S. Eliot tem o condão de encher o ar com a música narrativa que quero respirar. 

Fragmentos de História da Vaidade

Esse artigo já foi publicado em outro blog, do qual, às vezes, sou colaboradora: o Pink Side. Trata-se de um blog bem humorado sobre meninas nerds e seus interesses e vaidades (que aparecem aí tanto de forma séria quanto de forma debochada). Conversando com uma aluna-amiga esta semana, ela perguntou por que este texto não estava também aqui nos Sapatinhos. É mesmo, por quê? 
Então, abaixo segue uma pequena pesquisa sobre a História da Vaidade, no tom que foi apresentado para o Pink Side.




Fragmentos de História da Vaidade I
Bem, se tem algo que define um nerd é a curiosidade, certo? Logo, atentas à curiosidade nerd (nossa e alheia), aqui vão alguns fragmentos interessantes sobre a História da Vaidade. Você certamente não imagina que tudo sempre foi assim tão fácil, não é? Que, desde sempre, bastava levar um livrinho para abstrair da conversa chata de salão, se entregar a mãos competentes e voilá: o milagre estava feito. Você passava com facilidade de uma nerd de óculos à uma mulher de aparência aceitável (de óculos).

Não, não. A mulherada podia não ter salões, creminhos e todos os leave in possíveis, mas dava seu jeitinho. O importante era o resultado e, claro, chamar uma atençãozinha básica para o visual.

Há uns 200 anos atrás não era diferente. Estamos falando do Brasil, mais propriamente do Rio Grande do Sul há dois séculos. E, acreditem, estar longe da corte não era o suficiente para fazer com que as mulheres que aí viviam esquecessem que uma frescurinha alegra a vida.

Então, imaginem: uma festa.
Longos cabelos para serem arrumados, penteados e embelezados.

Lavar?
Água de bica (na cidade) ou de rio (no verão, tanto nas cidades quanto nos campos). Nem imaginem que se lavava a cabeça no frio do inverno, ou na época das regras, ou… interdições é que não faltavam.

Pentear? Claro.
As maçarocas eram domadas com um pouco de óleo. O de mocotó era famoso por aqui, mas era preciso macerá-lo com ervas para tirar o cheiro forte.

E os enfeites?

Bem, flores seriam a primeira opção, mas não a única. E se a garota em questão quisesse “causar”? Se a garota em questão quisesse algo… assim:



Convenhamos que para o início do século XIX, o penteado é lindo. Mas aqueles brilhinhos… como consegui-los? E, morando no fim do mundo? Sem falar na pobreza atávica dos primeiros povoadores. Isso seria suficiente para muita gente desisitir, mas se vocês acham que a criatividade das(os) brasileiras(os) é recente, é melhor repensar e olhar abaixo.


Você conhece este bichinho?
Não?
Povo da cidade grande… Isso é um vaga-lume ou pirilampo. Inseto bem comum na fauna das nossas matas. Quem foi criança há mais tempo, talvez se lembre de pegá-los com um vidro que, depois de cheio e tampado, era levado para iluminar reuniões “secretas” ou fazer às vezes de vela em rodas de história de terror.
Porém, alguém com habilidade, pode pegá-los assim:


Eles não são muito rápidos no voo.
Mas você já adivinhou o que nossas ancestrais faziam, não é?
Exatamente.
Os penteados festivos vinham cheios dessas luzinhas lindas e “naturais”, que eram gentilmente enroladas nos fios. Óbvio que os bichinhos tinham de estar vivos, senão não tinha efeito algum.
O fato foi atestado por um dos viajantes que passou pelo Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XIX, o inglês John Luccock. Como foi o único a documentar o fato, se pode se perguntar se foi uma moda passageira, ocasional ou fruto de uma crise sem par (de excesso) de criatividade.

Por mim, fico com 3 imagens que não me saem da cabeça.
1. O desespero do bichinho preso no cabelo.
2. A ideia de insetos vivos ou mortos enroscados no cabelo me parece uma imagem infernal.
3. Imagine se seu par de dança não curtisse o efeito, ou se assustasse? Imagine o pobre Mr. Darcy estapeando a cabeça da Lizzye, apavorado.



Mas, até que o efeito geral podia ser bonito, não é?
Se alguém resolver testar, mande fotos :D.



Vampiros: Sangue e sexo – quarta parte

 
Vampiros no século XXI – Crepúsculo e além.
Tendo em conta este início de século, não há como se falar em vampiros sem falar na saga Crepúsculo. Amadas e odiados, os vampiros brilhantes de Stephanie Meyer só parecem ser imunes a indiferença. Até porque, mesmo que você não lhes dê a mínima atenção, com certeza, conhece alguém que dá.
Porém, a escalada dos vampiros no século XXI antecede a saga Crepúsculo. Games, RPGs, HQs e mesmo no reino da literatura ocorreu um continuo e ascendente interesse por esse tipo de personagem. E, em nenhum destes, o sangue e a sensualidade deixaram de aparecer conjuntamente. Não comentarei as ocorrências literárias, por não conhecê-las todas. Minha simpatia por vampiros é limitada.
Contudo, entre todos estes exemplos, foi a série Crepúsculo que, neste início de século, alcançou um dos mais rápidos sucessos da cultura de massa que se tem notícia. Na TV, duas séries seguiram sua esteira, mas enfatizando aspectos diferentes. A série True Blood retoma o mito e tenta atingir – com a mesma força – um público um pouco mais velho. Sangue e sexo em suas formas explícitas rolam na tela. A outra série, que faz o tipo programada para o sucesso – é obra de uma agência em que elementos capazes de causar entre o público são reunidos e escritos sob encomenda – é Vampire Diaries. Nela, apesar dos elementos de terror light, o romance aparece em dose dupla numa espécie de quatrilho vampiresco.
Guardadas todas as diferenças entre os fenômenos pop é possível perceber o que permanece como igualdade. Mocinhas virgens, vampiros galãs e um amor proibido, ou quase, por diferentes questões (no mais das vezes, porque ela tem pulso e ele não).
Outro elemento que se pode apontar como semelhança, vem do fato de que: os vampiros mocinhos não são apenas bonitos, inteligentes e irresistivelmente sexis, são apaixonados por suas mocinhas e muito super-protetores. Sim, eu compreendo que há enormes diferenças na roupagem em que isso é apresentado. Afinal, True Blood, por exemplo, carrega no sangue e no sexo. Já na saga Crepúsculo o sangue é mínimo e o sexo só acontece com amor e após o casamento. Em Vampire Diaries o sexo está envolto por desejos reprimidos, e o sangue envolve uma infinidade de outras criaturas sobrenaturais. Contudo, acho que a semelhança da raiz que expus acima é mais importante para análise que estou propondo (entre tantas imagináveis). 
Afinal, será que é possível fazer pensar uma parcela de nossa sociedade através de sua devoção a um livro ou a uma série de TV, tal como apresentei para O Vampiro, no início do século XIX, e Drácula, no fim do mesmo? Minha intenção aqui é uma análise sociológica e não uma avaliação do gosto de ninguém pelo que quer que seja. Analisar e avaliar são coisas bem diferentes. 
Atendo-se à análise, podemos tentar responder estas questões com algumas ideias gerais. Vivemos em uma sociedade carente, que quer a todo custo encontrar um suprimento de amor ilimitado e imortal para sentir-se segura. Isso é ainda mais patente se pensarmos no universo de relações efêmeras que tem sido a tônica do nosso tempo. Hoje em dia, ao contrário do que foi nos anos 80, é moda casar, faz-se o maior alarde para isso. Existem celebridades (e pessoas que seguem suas vidas) que se casam todos os anos (às vezes, até com o mesmo marido). Contudo, separa-se com a mesma freqüência, quase o mesmo alarde e igual rapidez. As revistas de fofocas parecem se sustentar quase exclusivamente no binômio: casa-separa.
Ora, não se espera que um vampiro te diga numa bela manhã: “Bem querida, foi interessante, mas no momento o sangue AB safra 18 anos da vizinha está me seduzindo mais que o seu”. Tampouco se espera ver uma foto (os vampiros do século XXI aparecem em fotografias – eles são mais corpóreos que seus antepassados) de seu vampiro numa revista  grudado no pescoço de sua melhor amiga.
Uma das características dos vampiros apaixonados é que eles são fiéis. Seu amor demora a ocorrer (geralmente séculos) e, quando ocorre, é para com uma eleita que lhe foi prometida pelo destino (a infidelidade só aparece como deslize romântico). Em outras palavras, estamos falando de um amor idealizado, estamos falando de almas gêmeas, de diferentes que se completam e, claro, de uma relação para toda a eternidade.
Comparados com seus antepassados, os vampiros de hoje não são mais asseclas do demônio, não trazem em si a marca da danação. Os de Meyer tem em sua casa confortável e clara, uma enorme cruz entalhada em madeira e filosofam se possuem ou não alma. Conheço pouco da mitologia das duas séries, mas me parece que, no caso de True Blood, os vampiros ali são praticamente uma mutação. 
Logo, e deixo claro que estou apenas exemplificando com estas séries, os vampiros do século XXI parecem apresentar uma tendência a ter esvaziado seu conteúdo metafísico, suas ligações místicas, seu ódio à cruz, ao alho e à água benta. O demônio no século XXI tem menos força que as modificações no genoma, logo, vampiros são uma espécie com suas próprias regras e não uma raça de condenados. Não achem que estou esquecendo do filme Drácula 2000 que levou as questões metafísicas ao extremo. Mas…, se não me engano, o filme foi um fracasso de bilheteria (ok, o roteiro é ruim e as interpretações péssimas, mas ainda vale o exemplo). Logo, parece que esse vampiro à moda antiga foi perdendo seu apelo para os novos, belos e incompreendidos rapazes de caninos afiados.
Mas, cá entre nós, como se condenar as mocinhas não querem ser salvas dos vampiros modernos? Por que culpá-las por não quererem trocar suas promessas de amor eterno, ainda que complicado, por um amor complicado que já sabe de saída que não vai ser eterno? O mundo em que vivemos não é apenas de amor, mas de continuidade, de segurança, de relações duradouras nas quais possamos pautar nossos desejos, nossa existência e todos os nossos planos de futuro. Somos tão inseguros e carentes de poder e controle sobre nossas vidas que, neste imaginário, os vampiros deixam de ser uma ameaça para serem heróis, cheios de valentia e que, apesar do desejo por sangue refreiam seus instintos, seguram a própria e se tornam os mais devotos amantes e protetores. Não que não existam vampiros ruins, eles povoam as sagas, porém, há o diferente, aquele que não se encaixa, o que sabe amar. Parece óbvio aí que voltamos a outro velho mito (incrivelmente popular e longevo), o do amor de redenção (mas isso é papo para outro post).
Por outro lado, creio que, mais que uma característica social, encontramos na popularidade dessas histórias de amor parte da grande encruzilhada em que o pós-feminismo lançou muitas mulheres. Afinal, que tipo de homem se quer? E percebemos que existe algo de antigo, algo próprio dos homens de antigamente que as mulheres ainda desejam. Não é a toa que os vampiros são homens de aparência jovem, mas velhos em idade e alma. O que seria isso? Afinal, as mulheres lutaram tanto por sua independência, pela capacidade de abrirem seu caminho por si próprias. Lutaram mais ainda para que os homens reconhecessem essa capacidade e a respeitassem (o que ainda precisam alcançar com um grande número deles). Contudo, ao que parece, nossas “virgens” (que podemos traduzir por aquelas que acreditam que nunca amaram ou foram amadas verdadeiramente) mantém, lá no fundo, o desejo por serem protegidas, cuidadas, não da forma sufocante do passado (as “virgens” modernas são “rebeldes”), mas de uma forma amorosa, quase idolatrada. Os vampiros do século XXI vivem para suas amadas e esse é o maior desejo delas. E, para não fugir do tema: sim, há sexo, muito e do bom. E sangue… bom, um pouquinho de perigo sempre dá tempero.
 
Porém, é preciso lembrar que vampiros não tem pulsação, não respiram, não podem sair durante os dias de sol… ahh e, claro, não existem.
 
 
 
 

Vampiros: sangue e sexo – terceira parte


Vampiros no século XX.
(Os comentários sobre filmes não pretendem ser exaustivos e algumas coisas como HQ e literatura vão ser apenas referidas. A intenção é tão somente dar um panorama para que se perceba a idéia geral da evolução do tema.)
O século XX somou novos elementos ao mito do vampiro. O principal deles foi a imagem e o cinema o seu difusor. A idéia de veicular terror e sexualidade então ficou ainda mais forte. Mesmo no primeiro filme exibido, Nosferatu (com o vampiro mais feio do cinema), o tema da sexualidade estava lá. A cena da mocinha na cama enquanto o vampiro sobe as escadas apela para os dois elementos.

Depois, Bella Lugosi encarnou o aristocrático Drácula e seu infalível poder de sedução. Você até pode achar o cara feioso, mas eu garanto que a sua avó achava que ele dava um caldo. Mais adiante, o mito ganhou o rosto e a voz de Christopher Lee. Isso mesmo, o Saruman. Logo, quem poderia resistir ao seu chamado.
Dá para ver, no entanto, que durante um bom tempo, terror foi filme de menino. Ninguém pensava em investir muito em um vampiro realmente atraente. Um bom terno e uma capa num cara de olhar expressivo era o suficiente. No entanto, as mocinhas… estas sim vão ficando cada vez mais sexys (questão de público). São longas e esvoaçantes camisolas brancas, vestidos negros e vermelhos cada vez mais decotados e, claro, com o pescoço e boa parte dos seios bem à mostra.
Na literatura, os vampiros invadiram os quadrinhos onde o sangue, bem como a sexualidade escorriam das páginas. Surge a Vampirella, com trajes mínimos para a delícia dos adolescentes. Ela, porém, não foi a primeira, Carnilla, sua antepassada literária era igualmente fogosa.
Em 1967, Roman Polansky deu aos vampiros outra faceta: o humor. O clássico A Dança dos Vampiros mais fazia rir do que assustava. Ainda mais debochado, Amor à Primeira Mordida (de 1979), tem Drácula indo para Los Angeles e ficando com a mocinha no final.
Em minha opinião, porém, há um marco, em 1975, em relação à figura do conde. É deste ano o filme Drácula, com Frank Langella. Creio ser este, até hoje, o mais sensual dos filmes com o conde. Langella estava no auge. Era puro charme. Quem se importa se houve uma briga pelos direitos do livro que fez com que os realizadores alterassem o roteiro? Quem se importa se no filme Mina é Lucy e Lucy é Mina? Se ambas são filhas do Dr. Seward? Se Van Helsing morre com o Drácula? Quem se importa com isso depois de ver a quentíssima cena de sexo filmada quando o vampiro invade o quarto de Lucy e ela se entrega a ele?
Creio que foi neste momento que as garotas realmente começaram a deixar de se agarrar, com medo, aos namorados no cinema e passaram a puxar a gola role e pensar: “me morde!” A ideia de um vampiro bonito charmoso por quem as garotas querem se deixar morder foi ganhando força. Nos anos 80, isso aparece desde versões meio ridículas, como A Hora do Espanto, até o, agora teencult, Os Garotos Perdidos. A exceção, talvez, tenha sido o estranho e cultuado Fome de Viver, mas, na época, David Bowie era tudo de bom.
Os quadrinhos continuaram a privilegiar a mistura de sangue e sensualidade, nunca se esquecendo do primeiro, enquanto o cinema foi lentamente amenizando a atmosfera.
Acho que os anos 90 marcam uma escalada de uma verdadeira vampiromania. Não que isso tenha sumido em alguma época, sempre houve redutos, contudo, de forma generalizada a coisa toda ganha mais corpo a partir daí. Pode-se lembrar, no cinema, de pelo menos, dois “arrasa-quarteirões” que, antes de tudo, investiram em vampiros de tirar o fôlego. Falo, claro, do Drácula de Bram Stocker, do Coppola, e de Entrevista com o Vampiro. O primeiro resgata o texto literário original e é uma pena que não tenha levado muitas pessoas à sua leitura. O romance original é genial, todo escrito em cartas e diários. O interessante do filme é investir pesado numa sensualidade que o livro apenas indica, e que os pudores da época em que foi escrito haviam barrado.
Entrevista com o Vampiro traz à baila uma novíssima literatura (para a época) que, inclusive, recriava um pouco o mito. Saem os morcegos e entra uma sede por sangue que é vivida displicentemente. Os vampiros são os protagonistas, suas vidas (ou melhor, suas mortes) são o que interessa. O leitor (e o espectador) passam a torcer pelos vampiros que vivem num mundo em que o bem e o mal não está ligado ao número de vidas humanas que são arrebatadas pelos seus dentões. Contudo, o filme deixou toda a sensualidade na figura dos dois belos vampiros e o resto foi suprimido, pois a imagem de um homem adulto com uma garotinha não entusiasmou muito e tudo ficou apenas em um beijo.
Apesar de não ser fã de Anne Rice como escritora, admito que ela faz uma interessante reflexão sobre a imortalidade nos livros. Veja, uma das formas que leva os vampiros à morte, na concepção da autora, é o fato de este não conseguir mais compreender a temporalidade em que está. Nesse caso, necessita de um vampiro mais jovem, mais permeável aos novos tempos para que este consiga ajudá-lo a transitar em numa época em que ele não compreende mais. Um vampiro envelhecido perde força, não consegue mesclar-se ao ambiente que lhe permite caçar com eficácia e proveito. Ora, isso pode trazer uma analogia interessante ao envelhecimento. Esse envelhecimento que vai congelando a capacidade de compreender o mundo que nos cerca e, ao mesmo tempo, nos exige uma permeabilidade e uma feroz resiliência ao novo sob a pena de estarmos mortos, mesmo ainda estando vivos. Vivemos em um mundo em que pululam exemplos disso. 

Na TV, uma nova febre por séries deu longa vida à Buffy, a caça-vampiros e Angel, além de outras não tão bem sucedidas. Aqui, como no filme de Coppola, a sensualidade vai lentamente perdendo espaço para o romance. Agora, o que antes era um jogo de sedução fatal foi se tornando um amor impossível. A história das mocinhas com os vampiros virou Romeu e Julieta.
A verdade é que, de alguma forma, em especial ao longo dos anos 80 e 90, os vampiros foram açucarando. Talvez, apenas Jonh Carpenter tenha conseguido resgatar com paixão a imensa sede por sangue desses personagens.


Continua…
O século XXI

Vampiros: sangue e sexo – segunda parte



Os vampiros sensuais do século XIX e a nova mulher.
É já no início do século XIX que o vampiro ganha conotações sensuais. Em 1816, no mesmo ano que Frankenstein veio ao mundo (na verdade, foi inclusive na mesma ocasião), nasceu o romance O Vampiro.

Conta a história, que num verão chuvoso às margens do lago Leman na Suíça, um grupo singular formado pelos poetas Lord Byron e Percy Shelley, acompanhados respectivamente, o primeiro pelo médico pessoal, Jonh Polidori, e o outro por sua jovem namorada, Mary, depois, Mary Shelley. O grupo fez uma aposta sobre quem criaria a mais horripilante história de horror. Sabemos que o vencedor foi a jovem Mary com seu Frankenstein, e sabemos que os dois escritores consagrados nada deixaram para a posteridade nesse sentido. Contudo, o romance de Polidori também veio ao mundo e, afirmam muitos críticos, foi ele quem primeiro deu a feição do vampiro suas características de aristocrata, seu refinamento, sua mais absoluta, cruel, sedutora e perigosa humanidade. Sua inspiração, ninguém menos que o soturno e irresistível Lord Byron. Diga-se de passagem, o belo Byron inspirou toda uma geração de românticos que deram origem ao real gótico do século XIX. Para quem não conhece, abaixo um de seus poemas.
Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio
Tradução de Castro Alves

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
Ora, quando os vampiros se tornam figuras sensuais, suas vítimas preferências, as jovens virgens, deixam de ser apenas presas tenras e, muitas vezes, até a sua inocência se perde. Logo, a sedução vampiresca passa a ser um chamariz para estas jovens. E, por que não dizer, jovens que se tornavam, em função da sociedade repressora da época, elas próprias sedentas de sexo e de seu próprio sangue virginal derramado.
À medida que nos encaminhamos para o fim do século estas jovens vão perdendo gradualmente sua inocência e nasce o que os historiadores chamaram de “a nova mulher”, um fenômeno do final do século XIX. Mas quem era ela? Não podemos confundi-la com as feministas da década de 1960, porém, estas mulheres fizeram sua própria revolução à sua maneira. Elas queriam votar – as sufragistas -, começaram a trabalhar fora, andar de bicicleta e, principalmente, queriam casar por amor e não por conveniência paterna. Essa nova mulher era, de certa forma, aterrorizante para os homens da época, que não sabiam como controlar os novos desejos de suas mulheres.
Assim, quando alguém lê Drácula, um dos romances símbolos desse período e o grande fundador da vampiro-mania do século XX, pode ver nas entrelinhas várias dessas preocupações que o autor exterioriza de forma metafórica no romance.


Vamos falar de algumas destas metáforas.
A nova mulher é representada pelas duas jovens que existem no romance. Mina e Lucy.


1. Mina encarna a mulher que quer sair do lar, potencialmente a mais perigosa. Ela aprendeu estenografia, trabalha como secretária, datilografa os escritos de seu futuro marido, Jonathan Harker. É uma mulher que, apesar das aparências, está saindo do controle masculino. De fato, todo o romance é uma tentativa de submeter Mina novamente mostrando que o mundo fora do casamento controlado é assustador e maldito. Mina quase é devorada por esta maldição, porém, sua boa índole e contenção, sua resistência à sedução do vampiro e, especialmente, os homens que se empenham por ela, trazem-na de volta ao caminho da salvação.
2. Lucy, ao contrário, é uma jovem mais sensual que vê no casamento uma forma de dar vazão à seus desejos. Isto é, para os homens do século XIX, uma forma completamente errada de se encarar o casamento. Ao se deixar seduzir e devorar pelo vampiro, a jovem Lucy se torna uma vampira e o pior tipo de mulher que pode existir, aquela que é capaz de atacar o que há de mais sagrado na humanidade, suas crianças. Lucy se torna uma devoradora de bebês e isso é a mostra de sua completa degradação moral, é o sinal de sua entrega ao vampiro. Os historiadores da literatura apontam a morte de Lucy como uma metáfora (certamente não intencional) do que o casamento vitoriano reservava à mulher e, ao que se acreditava (e talvez, Stocker acreditasse), ela deveria se submeter.
a) Lucy tem a cabeça cortada – a mulher casada não pensa a não ser pela cabeça do marido.
b) Seu coração foi trespassado por uma estaca – a mulher casada não sente, ela apenas serve ao marido.
c) Sua boca foi cheia com alho – a mulher casada não fala a não ser pela boca de seu marido.
Esta é a resposta masculina a sensualidade feminina em fins do século XIX. É claro que sua luta por emancipação exigiria uma ação maior, daí a metáfora da caça ao vampiro e da gratidão da “doce” Mina que ao fim de tudo se acomoda aos papéis de esposa e mãe.
3. O próprio vampiro traz em si várias metáforas. Ele é a sensualidade e, neste caso, sua associação com o sangue é óbvia. O fato de ele entrar no quarto das jovens virgem – local sacrossanto e vedado a todos os homens – faz dele o repositório deste desejo de violação que era também o lado negro desta sociedade repressora. Por outro lado, o vampiro também pode ser associado, neste período, como uma metáfora da sífilis – doença do sangue de cunho sexual – e o fato de que esta entrava nas casas de família pelas mãos dos “homens de bem” (não esqueça que foi Jonathan, namorado de Mina, que vendeu Carfax, propriedade inglesa, para o conde. E que ele próprio tem seu período de infidelidade com as “noivas vampiras” de Drácula).
4. Por fim, temos a análise dos heróis. Quem eram eles? Dois médicos, um aristocrata, um advogado e um “norte-americano”, em resumo, o que se acreditava ser a nata da sociedade masculina da época. Os verdadeiros senhores do mundo.


[Sobre esta parte do texto, já publiquei um outro artigo no Jornal Sul21)

Continua…