Steampunk? É, Steampunk!

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Mas, afinal, o que é Steampunk?

O Steampunk (ou Punk à vapor) é um sub-gênero bem especial da ficção científica. Especial porque, ao invés de ter sua ação no futuro, ele tem a ação no passado. Essa característica faz com que o Steampunk não seja apenas um gênero literário, mas também o substrato de uma estética que brinca com o passado e os possíveis futuros que determinadas alterações poderiam ter produzido. É um gênero, ao mesmo tempo, novo e antigo. É novo porque só recebeu o nome muito recentemente. Mas também é antigo porque pode ter suas origens mapeadas em autores como Julio Verne e Mary Shelley. Com todos estes elementos, não é à toa que o século vedete do gênero seja o XIX (embora, nada impeça de os autores irem ainda mais atrás no tempo, o que, aliás, eles já tem feito).
O Steampunk é um exercício de imaginação com a pergunta: e se a tecnologia do vapor tivesse avançado extraordinariamente? Como seria ter máquinas e capacidades tecnológicas incríveis sem o uso dos combustíveis líquidos ou da eletricidade? Se, como falo aos meus alunos, em História os “SES” não existem, na ficção Steampunk, tudo se faz a partir destes inúmeros “SES”. 
Contudo, a tecnologia se propõe a ser apenas uma parte com a qual este gênero lida. Isso porque o Steampunk traça sua ascendência até outro sub-gênero da ficção científica, o Cyberpunk. Este outro sub-gênero – cuja nomenclatura é inaugurada pelo romance Neuromancer, de Willian Gibson – se localiza no futuro e lida com as possibilidades cibernéticas e com a distopia. Entenda, porém, que não se trata de uma distopia apocalíptica, mas um tipo de distopia que interfere na vida das pessoas sem que, muitas vezes, eles percebam a raíz do tormento. É quando um ou outro personagem atinge esta percepção que, em geral, a trama se desenvolve. Aliás, é justamente em função deste ponto que o termo PUNK foi adicionado ao nome do sub-gênero. Todos recordam, claro, que o movimento punk de fins da década de 1970 e década de 1980, tinha um caráter contestador da sociedade como um todo e era marcado por uma postura de recusa e mas também anti-política de seus participantes. Logo, o Cyberpunk preocupa-se menos em pensar alternativas políticas (como outros tipos de ficção distópica) e se concentra fortemente no mal estar do ser humano, num mundo onde as regras tecnológicas parecem engolir as alternativas éticas. Mais que isso, o Cyberpunk tem como principal dinâmica mesclar a alta tecnologia com a imensa pobreza gerada pelo capitalismo.

“Os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros despóticos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano.”

Lawrence Person 

Quem tiver curiosidade sobre o tema (e não só pela literatura), eu indico fortemente os artigos da Adriana Amaral, doutora pesquisadora em cyber cultura da UNISINOS. Ela inclusive chega a traçar as matrizes do gênero nos contos de Phillip Dick, famoso por fornecer a base para os roteiros de Blade Runner e Menority Report (ambos filmes que dispensam apresentações). 
Aliás, para quem gosta de cinema, o gênero Steampunk também fez suas aparições, mas todas esquecíveis e bem menos honradas que as aparições do Cyberpunk. De fato, eu indico apenas um filme. Uma animação de Fantasia em que aparecem elementos Steampunk, o magnífico O Castelo Animado.
No Brasil, o gênero está apenas iniciando, mas já tem agitado a imaginação de vários autores nacionais. Afinal, há tantas perguntas a responder neste retrofuturismo histórico. Como seria o Brasil? E suas guerras? Haveria escravidão? Qual a posição da mulher nesta velha nova sociedade? Não há limites na ficção.
Por que essa explicação toda?
Porque esta semana um conto meu – que ficou inédito aqui no blog por ter sido escrito muito próximo ao prazo de envio – foi selecionado para uma antologia de contos Steampunk e muitos amigos vieram perguntar: afinal, que gênero é esse? Então, aqui está. 
O livro vai ser lançado em agosto na Fantasticon em São Paulo (12, 13 e 14 na Biblioteca Viriato Corrêa) e vai ser publicado pela Editora Estronho que, neste volume específico, dedicou a antologia apenas a autoras. O título da coletânea é Steampink – uma brincadeira que deu o que falar – e a capa estilosa é essa aí abaixo.

Sobre o conto – O Pena e o Imperador – os que o lerem, não esqueçam de me dizer o que acharam.

8 ideias sobre “Steampunk? É, Steampunk!

  1. ADOGUEI!Fiquei curiosa com este estilo. Você sabe que sou facinada por estes "SES". Estou ainda mais curiosa quanto ao seu conto. Vou amar lê-lo!

  2. Ótimo post! Indico também, em termos de animação steampunk, Steamboy, do mestre Katsuhiro Otomo, o mesmo de Akira. Parabéns novamente pela participação em Steampink e gostei muito mesmo de seu conto. Beijos

  3. Valeu, Romeu! Sua aprovação deste aqui vale muito! Obrigada pela indicação, já havia ouvido falar. Vou procurar com certeza. Quero também ler o romance que deu origem ao Castelo, para ver se é tão excepcional quanto a animação (me fez pensar por dias). Mais feliz ainda com os elogios ao conto. Brigadão!

  4. Pingback: [Resenha] “Steampink”, antologia – LÍVIA CAVALHEIRO

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