Amigos de papel – Gisela

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Quando eu tinha 9 anos a Gisela tinha 13. Ela era loira, lisa, tinha olhos verdes e era alta para a idade. Eu era crespa, usava óculos e me achava feia-esquisita com um nome esquisito. Eu morava em Santa Maria e a Gisela em Porto Alegre. Ela tinha um pastor alemão chamado Prisco, que adorava sorvete de morango. Lá em casa tinha a Corruga, uma pastor alemã que era só dela mesma porque já chegou adulta para morar no nosso pátio. Eu tinha um pouco de medo da Corruga porque ela era quase maior que eu, mas tínhamos o mesmo mau humor e ambas odiávamos o Totó, um cachorrinho chato que achava que todo mundo era poste. O Prisco ia com a Gisela para todo lado, a Corruga não saía da casa porque a gente tinha medo que ela fugisse e não voltasse mais (o que ela fez no primeiro portão descuidado que viu).
A Gisela gostava de ler. Foi ela quem me apresentou Agatha Christie, embora eu ainda tenha demorado alguns anos para chegar lá. Gisela andava de bicicleta por toda a Porto Alegre, inclusive de noite. Eu só andava de bicicleta no pátio de casa. Santa Maria é muito cheia de subidas e descidas e eu só tirara as rodinhas à custa de muitos tombos. Tinha medo de perder a direção e arrebentar a cara e perder todos os dentes da boca.
A Gisela tinha apenas uma amiga de sua idade e, fora ela, seu melhor amigo era um inspetor de polícia. Eu tinha muitos amigos crianças. Brincávamos em casas em construção, as de dois andares eram castelos, as térreas, labirintos. A Gisela resolvia mistérios. De vizinhos esquisitos até assassinatos. Uma vez acharam um corpo num terreno baldio no meu bairro. Ficamos todos retidos em casa por quase uma semana. Nem saberia dizer como era um inspetor de polícia.
Gisela foi minha heroína por muito tempo. Eu queria ter 13 anos e fazer tudo o que ela fazia. Aos 13, porém, eu tinha mais interesse em meninos do que em resolver coisas estranhas. Ao menos, já lia Agatha Christie, que tinha dupla função de matar minha sede por mistérios, a uma distância segura, e dava assunto para conversar com os meninos.
Com o tempo, no entanto, fui me afastando da Gisela, mas não sem antes ter toda a coleção na minha estante e saber quase de cor algumas histórias. Eu passei dos 13, ela não. Eu descobri outros livros, e ela foi ficando mais tempo na minha estante. Há alguns anos, quando saí de casa, deixei a Gisela e meus livros de criança, só os de trabalho já eram bastante peso para minha vida cigana. A Gisela veio morar em minha casa há pouco tempo, e até pensei em voltar a ela, mas ainda batalho entre o amor da memória e meus olhos já menos encantados. Por enquanto, apenas aprecio minha amiga de volta a minha estante. Ao menos, até a hora de apresentá-la para o Miguel.

 

Gisela era escrita por Gladis N. Stupf González (1940-1994) e hoje consegui um simpático contato com o filho dela que me deu a boa notícia que, talvez, Gisela possa voltar a ser editada, assim como as outras séries da autora: A Turma do Falcão Dourado e Chico e Faísca. Penso que, num momento em que a literatura infanto-juvenil, por tanto tempo negligenciada, volta a crescer e aparecer é hora de lembrar e fazer homenagens a gente que escreveu em uma época que os leitores estavam distantes, pouco acessíveis e, muitas vezes, pouco dispostos.




Amigos de papel será uma pequena série de posts que terão como tema autores e livros da minha infância. Não é dica nem nada, apenas um registro de memória para os que povoaram minhas tardes e noites antes de dormir.

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4 comentários

  1. Também era fã! Eu devia ler quando tinha 8 ou 9, porque ficava impressionada com a independência dela, de sair por aí de bicicleta e à noite a qualquer hora. Isso porque ela tinha 13 anos, ou seja, praticamente uma adulta!! rsrsrsrs. Eu tinha todos, assim como também tinha todos da Inspetora (amava!) e do Goiabinha (gostava menos).

  2. Olá! Começo esse ano uma pesquisa de doutorado sobre a Coleção Mister Olho, da qual a série Gisela fazia parte. Poderia me ajudar? Queria entrar em contato com a família, para levantar mais dados sobre a autora.
    Vi no post que você diz ter encontrado o filho da Gladis.

    Desde já, obrigado !!!

    Leonardo Nahoum

  3. Hoje do nada, lembrei dos livros da Gisela, resolvi colocar no Google e ver o que encontrava. Grata surpresa, vim parar aqui. Li seu texto e fiquei saudosita…. Eu li o livro da Gisela a primeira vez quando deveria ter uns 11/12 anos… faz muito tempo, nao lembro ao certo. Lembro, que peguei o livro emprestado da biblioteca publica da minha cidade e adorei! O devorei… e li todos os outros que estavam disponíveis na biblioteca.
    Bons tempos, boas recordações… Enquanto nao tenho filhos, vou tentar achar um exemplar de algum desses livros e apresentar ao meu sobrinho 🙂
    Paz e bem pra vc!

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