Tolstói historiador

De Tolstói sempre recordo duas coisas.
Que em seus romances, nenhum personagem aparece ao acaso, como simples figurante. O autor sempre deixa claro que por trás do nome, do título e da fachada, há nele todo um universo, uma história inteira que ele conhece, apenas, não pretende contar naquele momento.

Era a condessa Rostov uma senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A lentidão do seu passo e amorosidade da sua fala, consequências do quebranto das suas forças, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia também se encontrava presente, íntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e a manter a conversação. A gente nova estava nas dependências das traseiras, desinteressada das visitas.”
Guerra e Paz,  vol.1, cap. 10 

E que poucos trechos de livros me influenciaram tanto quanto este, em que ele fala sobre a história do “exíguo canto do mundo denominado Europa”.

“Em 1789 estala uma sublevação em Paris; cresce, alastra, concretiza-se no movimento dos povos de Ocidente para Oriente. Repetidas vezes se dirige ele para Leste, entrando em colisão com um movimento contrário de Leste para oeste; em 1812, atinge seu limite extremo, Moscovo, e, com notável simetria, desenrola-se um movimento inverso de Oriente para Ocidente, atraindo a si exactamente como o primeiro, as nações intermediárias. Tal movimento atinge paris, ponto de partida da rebelião no Ocidente, e amaina.

Neste período de vinte anos, enorme extensão de terra fica inculta; edifícios ardem, o comércio muda de rumo; milhões de pessoas empobrecem ou enriquecem, emigram, e milhões de cristãos, que professam a lei do amor ao próximo, matam-se uns aos outros.

Que significa isso? Como se originou? Que impulso levou estes homens a incendiar casas e trucidar semelhantes? Quais as causas de tais acontecimentos? Que força coagiu os indivíduos a agir deste modo? Eis as perguntas espontâneas, cândidas, e inteiramente legítimas que o homem a si mesmo formula ao estudar os monumentos e tradições do agitado período anterior.”

Esta postura faz com até hoje as obras do autor sejam revisitadas com dois olhares e, não é à toa que muitos estudam Guerra e Paz não apenas como um romance, mas também como um ensaio de teoria da história.

Abaixo, imagens raras do grande autor russo.

 Quem tiver interesse no historiador Tolstói e na sua percepção de que a história que fixa-se apenas nas “grandes figuras” é superficial e ilusória, dê uma olhada abaixo (em inglês e sem legendas).

Em português, ler GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, s/d. 

O mundo da Antecipação

Estou lendo livros de contos e os acabo alternando por questões que vão da mente cansada ao desejo de variar autores. Sou chata-mor e enjoo coisas com facilidade. Talvez, por isso, com contos, eu tenha uma queda por coletâneas com mais de um autor. O problema é que elas são organizadas em torno de um mesmo assunto, aí… Bem, já disse que sou chat-mor, não é? Toda a escusa fica aí.
Tenho lido o Aleph, do Borges, alternando-o com contos de Ficciones (só um até agora, na verdade). Sim, estou em busca dos contos fantásticos (talvez faça um post quando terminar, apenas com impressões). Tenho especial predileção por eles. Sempre tive. Paixão de menina que cultivo sem culpa. Esta semana, uma súbita necessidade de voltar à ficção científica – outro gosto que provavelmente nasceu da vontade de saber porque meu pai não largava os livros do Perry Rhodan – me fez resgatar meu História de Robôs, vol. 3, que estava na casa dele. Os três volumes de Histórias de Robôs foram organizados por Isaac Asimov e colaboradores e trazem um apanhado de obras-primas para apaixonados ou simples degustadores. 
Como livros de contos não exigem nem sequência, nem fidelidade, eu quase sempre começo por meus autores favoritos, o próprio Asimov e Arthur C. Clark, mais recentemente, também Philip K. Dick. Porém, desta vez, ataquei o livro com apetite de historiadora. Comecei pela excelente introdução do Asimov: um artigo brilhante sobre a sociologia da tecnologia, a tecnofobia, as resistências ao novo e nossas dificuldades em nos reeducarmos em qualquer sentido do termo. Depois, entrei no ótimo conto de Murray Leinster, escrito em 1946: Uma lógica chamada Joe. Em sua introdução ao conto, Asimov diz que Leinster morreu antes de saber que suas “lógicas” eram a antecipação dos computadores pessoais. Porém, o próprio Asimov morreu antes de saber que o conto de Leinster também antecipava o Google e o Facebook. Para completar, circulando pela net, ontem, encontrei dois textos que pareciam completar o sentido do conto que eu estava lendo. Um sobre ciência e ficção e outro sobre as redes sociais

“As lógicas modificaran nosso sistema de vida. São a própria civilização! Tirando esse troço de circulação, vamos voltar a uma espécie de mundo que nem se sabe mais como funciona!

[…]

Se no tempo das cavernas tivesse acontecido alguma coisa e nunca pudessem usar o fogo – ou vapor nos século 19 e eletricidade no 20 – seria bem assim. A nossa civilização é muito simples. Lá por 1900 e tanto, o cara tinha que usar máquina de escrever, rádio, telefone, telex, jornal, biblioteca pública, enciclopédias, arquivos comerciais, catálogos, sem falar dos serviços de recados, advogados de consultas, farmacêuticos, médicos, dietistas, funcionários, secretárias – só para anotar o que queria lembrar e ficar sabendo o que as outras pessoas tinham dito a respeito do assunto que lhe interessava; para transmitir o que houvesse dito a alguém e, depois, comunicar-lhe a resposta recebida. A gente, em compensação, precisa das lógicas. Tudo o que quiser saber, ver, ouvir ou conversar com alguém, basta apertar o teclado. Agora, é só desativar o sistema e tudo vai para o beleléu. Mas Laurine…”

Acabei o conto pensando em nossa dependência dos computadores e dados informatizados, mas também o somos da eletricidade e do fogo. A resposta é sempre a respeito do como usamos e não em torno do que possuímos e é grande e deve ser coletiva. Enquanto a elaboramos, ler boa ficção científica é uma forma a mais de ficar atento.

Ah, Laurine é a parte cômica do conto, mas eu não conto, terão de ler.

Postado diretamente da Sibéria
local em que meu esposo e eu mantemos nossos escritórios,
o frigorífico e a adega.

O tempo sem o poeta

Decorei minha primeira poesia quando estava na segunda série primária e foi um dos sonetos de Rua dos Cataventos, de Mario Quintana. Aliás, foi só uma das inúmeras poesias dele que ainda sei recitar de cor. Tive vários namoros com a linguagem poética. 
Como declamadora (eu era do time do colégio) adquiri uma má vontade especial com os que declamam  (mais ou menos no mesmo tom de Quintana, que acusava “as declamadoras” de assassinarem as poesias). A má vontade é ainda maior com os que declamam poesias campeiras (e se pautam pelos versos da batatinha), mas isso é outra história.
Flertei seriamente com as palavras e, até mesmo tentei, ensaiar a escrita poética, o que me rendeu uma postura algo radical sobre o tema: a poesia não é para todos. Felizes os que tem talento, mas sejamos honestos, a grande maioria resta patética nas tentativas. A poesia é exigente e ingrata. Obriga a um tal domínio de elipses e imagens que, apesar dos aventureiros, não se reduz ao confuso e ao excesso de adjetivos ou, o que há de pior, a colagem aleatória de palavras de impacto.
“O sangue jorra brota da alma em fogo crepitante de um desejo mórbido, escolástico.”
Eca! Como ex-aventureira, acabei aprendendo que a poesia, o fazer poesia, é para quem pode e não para quem quer. Desejar ser poeta não é suficiente. Apesar das inúmeras oficinas – eu fiz uma excelente com o Orlando Fonseca – é difícil ensinar técnica poética como se ensina técnica literária. A poesia, sim, deve brotar da alma. E quem a alimenta não é o amor adolescente ou as perdas ou a dor, é o deslumbramento com o mundo, o olhar para ele como se sempre fosse novo e extraordinário. Foi o olhar que Quintana deixou em seus poemas, por toda a vida, e que tem me acompanhado por toda a minha. 
Neste dia, lembrar de Quintana é lembrar da doçura com que ele encadeava as palavras e nos fazia (e ainda faz) voar nelas, sorrir e, claro, se encantar com o mínimo que, nele, é o máximo.
A Rua dos Cataventos
I
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
II
Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…
Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…
O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…
Só os meus passos… Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…
(este é o que eu decorei por primeiro)
III
Quando meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de dizer?
Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!…
IV
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,
Nem é deste Planeta… Por sinal
Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…
E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…
Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…
V
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…
Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…
VI
Avozinha Garoa vai cantando
Suas lindas histórias, à lareira.
“Era uma vez… Um dia… Eis senão quando…”
Até parece que a cidade inteira
Sob a garoa adormeceu sonhando…
Nisto, um rumor de rodas em carreira…
Clarins, ao longe… (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)
Cerro os olhos, a tarde cai, macia…
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa…
E a chuva um’outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa…
VII
Para Dyonélio Machado
Recordo ainda… E nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!…