Um pouco de etiqueta à mesa

Ministro História Moderna nas sextas-feiras. Hoje, enquanto a mídia nos massacrava com um casamento que nem deveria nos interessar, o assunto da realeza parecia à propósito, pois nosso tema de estudo era justamente a formação do estado moderno. A partir dele, não foi difícil que nossos debates se dirigissem para a formação da sociedade de corte e a civilização dos costumes. Obviamente, desembocamos na etiqueta. Como então não lembrar do delicioso texto que aparece no Cadernos de Cozinha de Leonardo Da Vinci?
O que hoje é tão engraçado, nos impressiona. Afinal são regras que introjetamos, e é difícil pensar numa época em que era necessário que isso fosse enunciado como regra.

***

«Há hábitos impróprios, de que um convidado para a mesa do meu Amo se deve abster, sendo a lista que se segue baseada nas observações que fiz daqueles que tomaram assento junto do meu Senhor durante o ano que passou:

– Nenhum convidado se deve sentar em cima da mesa, nem de costas voltadas para ela, nem ao colo de outro comensal.

– Nem deve pôr as pernas em cima da mesa.

– Nem se deve sentar debaixo da mesa, por pouco tempo que seja.

– Nem deve pôr a cabeça por cima do prato para comer.

– Nem deve tirar comida do prato do vizinho, sem primeiro lhe pedir licença.

– Não deve colocar no prato do vizinho partes desagradáveis ou já mastigadas da sua própria comida, sem que primeiro lhe tenha pedido licença.

– Não deve limpar a sua faca às vestes do vizinho.

– Nem usar a sua faca à mesa para trinchar.

– Não deve limpar à mesa as suas armas.

– Não deve retirar comida da mesa, guardando-a na bolsa ou na bota para consumo ulterior.

– Não deve dar dentadas nos frutos que se encontram na fruteira para voltar depois a colocá-los nela.

– Não deve cuspir à frente do meu senhor.

– Nem ao seu lado.

– Não deve beliscar ou dar palmadas no vizinho.

– Não deve arfar pesadamente ou dar cotoveladas.

– Não deve revirar os olhos ou fazer caretas assustadoras.

– Não deve meter o dedo no nariz ou no ouvido durante a conversação.

– Não deve fazer maquetas, nem acender fogos, nem treinar-se na arte da pantomina em cima da mesa (a menos que o meu senhor o solicite).

– Não deve soltar os seus pássaros em cima da mesa.

– Nem o fazer com cobras ou escaravelhos.

– Não deve tocar alaúde ou outro instrumento qualquer que possa importunar o seu vizinho ( a menos que o meu Senhor o solicite).

– Não deve cantar, discursar, nem proferir impropérios, e menos ainda fazer adivinhas lascivas quando ao seu lado estiver uma senhora.

– Não deve conspirar à mesa (a menos que seja com o meu Senhor).

– Não deve fazer propostas obscenas aos pagens do meu Senhor, nem abusar dos corpos deles.

– Nem deve pegar fogo ao vizinho enquanto se encontra à mesa.

– Nem deve agredir um criado (a menos que seja em defesa própria).

– E, se sentir necessidade de vomitar, que saia da mesa.

– Tal como se tiver de urinar.»

 

Falando em listas…

Não sou só eu, claro. Conheço muita gente com fascínio por listas. Aliás, o povo que vive na internet é cheio delas. Mas, creio, isso faz parte da condição humana, não? Ser classificador. Podemos ir até mais longe: fazer listas é o prolongamento da função adâmica da humanidade – aquela que, com a linguagem, nos deu direito de dar nomes às coisas. Como, hoje em dia, a maioria das coisas tem nomes, nos contentamos em elaborar listas do que preferimos e despreferimos, do que cobiçamos e descartamos. 
Tenho a impressão que, a maioria dos entusiastas em listas tem pouco interesse nas listas dos outros. Ouve-as apenas com a educação do aparente interesse, para logo depois poder recitar a sua que, claro, lhe afigura muito mais importante. Além disso, a lista nos dá a impressão de que, de alguma forma, nos é possível premiar os outros e, se nos colocamos como quem premia, nos colocamos como jurados. Que poder seria maior do que este? Julgamos tudo. A beleza dos outros, o seu talento, as suas obras. Fazendo listas, nos enchemos de poder. Dizemos quem entra e quem sai. Podemos olhar do alto, para alguém que todos julgam superior (em beleza, talento ou obras) e dizermos: não, não gosto, você não está na minha lista de… sei lá, Top 10, Top 5, ou, suprema desconsideração, nem na de Top 100. 
As listas se tornaram tão importantes que há quem ganhe dinheiro com elas: 100 coisas para fazer, ver, ser, ler, comer, ouvir, etc… antes de morrer. E, claro, quem não lembra do já cult filme do John Cusack “Alta Fidelidade” e sua adorável lista dos 5 maiores foras que levou na vida.
Eu tenho listas para quase tudo, mas elas são mutáveis e efêmeras como a maioria das minhas certezas. Eu tinha mais afirmações quando era mais jovem. Ainda assim, minhas listas resistem meio cá, meio lá, muito cheias de indecisão. Eu teria de pensar muito para fazer algo razoável, então, digo só: está na minha lista. Não sei qual, nem quantas coisas existem ali, mas que está, está.
Assim, não me peçam a lista dos meus livros favoritos, pois morreria para fazê-la, embora eu possa dizer que, muito provavelmente, você encontrará por lá Jane Austen e Eric Hobsbawm, acho que Virginia Woolf dirá “alô” e você, talvez, possa acenar para Homero e Ovídio (é sim, eu os adoro!).
Música? Eu classificaria por gêneros e seria mais fácil fazer a lista do que não está na lista. E, aí, seria uma lista enorme. Meu top-top? Com o perdão dos musicais: silêncio.

Filmes? Ah, tem saído tantos e eu tenho visto tão poucos. No momento, só faço a lista dos que eu quero ver.

Abaixo um lista de belezas que é só minha e mudará assim que eu enviar esse post. Não precisa ler, eu só queria escrever.
10 coisa bonitas
10. Mel
9. As risadas da família reunida
8. Abraços
7. Cheiro de café
6. Livrarias
5. Palavras
4. Conversas de viagem
3. Música favorita do instante
2. O olhar do Guto
1. O sorriso do Miguel

As mães e os pais do Discovery Kids

Ontem foi o Dia Nacional do Livro Infantil. A data, como todos sabem, é o do nascimento de Monteiro Lobato que, apesar das polêmicas recentes, continua sendo o grande pai dessa literatura no Brasil. Eu fiquei pensando que gostaria de postar alguma coisa no blog para marcar este dia, mas a jornada de ontem não permitiu. Fiquei então com duas possibilidades na cabeça. Uma, a de escrever sobre minha trajetória com livros infantis, o que, não teria muito interesse para quem vem aqui, a não ser o meu próprio em escrever. E outra, a de falar sobre o primeiro acesso que boa parte das crianças de hoje tem às histórias infantis. Optei pelo segundo tema, daí o nome deste post: as mães e os pais do Discovery Kids.
O canal, hoje em dia, é mais democrático do que se poderia pensar. Muitos dos pais de crianças pequenas, que não tem condições de acessar a TV paga (ou ter um gato dela), conseguem, com facilidade, comprar DVDs piratas com os desenhos e programas que constroem o idioma comum das crianças de 0 até, mais ou menos, 6 anos. Depois, como já me informaram, eles migram para a Nickelodeon.
O restante do comentário vem das situações que venho vivendo, desde que o canal passou a ser o preferencial aqui em casa (nesta altura do caampeonato, o Miguel, inclusive, já sabe os horários do que ele gosta de assistir). Como pais bem humorados, o Guto e eu costumamos fazer nossa própria leitura dos desenhos. Algumas impublicáveis (pelo bem dos desenhos, das crianças e dos pais excessivamente sensíveis, que podem levar a sério o que é o mais puro deboche). Porém, nem tudo se pode levar com bom humor. Eu, por exemplo, não consigo levar com bom o humor o fato de um canal dirigido a crianças em idade pré-escolar errar feio na língua portuguesa.
Em meados de fevereiro, a programação ganhou um novo título – é comum no canal a programação ter títulos temáticos. O título escolhido foi “Volta ás aulas”. Não, não fui eu que errei o acento do “as”. Foi o canal. Claro que as regras da crase são difíceis. Eu mesma erro vezes sem conta (é o Guto que corrige as minhas), no entanto, esta ficou tão clara que eu percebi e, convenhamos, não é o tipo de erro que se deve admitir num canal destinado a um público tão especial.
Resolvendo bancar a mãe antenada, entrei no site da Discovery disposta a pedir providências. Então, antes de escrever, comecei a ler o que os pais e mães que frequentam o espaço escrevem por ali. A leitura acabou fazendo com que eu esquecesse a minha reivindicação. Fiquei tão impressionada com o que li, que comecei a tentar compreender o que preocupa os pais e as mães do Discovery Kids, todos, como eu, obrigados a assistir um canal que não é planejado para nós, mas para nossos filhos.
Aliás, esse foi o primeiro ponto que percebi nas reivindicações dos pais. Muitos deles parecem não perceber que o canal é pensado para crianças em idade pré-escolar. Seria natural que percebessem que não é possível que eles venham a apreciar entusiasticamente todos os programas, certo? Errado. Muitos pais e mães que escrevem por lá, parecem achar que a programação deveria retirar todos os desenhos bobos, “infantis” (?), ou marcados pela repetição. Querem também sempre uma programação nova, onde não haja a reprodução contínua e maçante de episódios.
Rebatendo os argumentos.
O programa que achamos bobo pode não o ser para nossas crianças. Eu, por exemplo, tenho pavor do dinossauro Barney, mas o Miguel pula em frente à TV como se estivesse vendo o maior ídolo do rock ever! Por quê? Porque o Barney é o personagem que se humaniza para interagir com crianças como ele. É o sonho realizado. Eu não aturo, e ainda volto a alugar aquele filmizinho ruinzinho do “9 Meses”, apenas para ver dois pais detonando um dinossauro que lembra o Barney. Mas meu conceito de bobo não é o do Miguel. Um dia, provavelmente, ele vai concordar comigo, mas, até lá, vai aprender a dizer “eu te amo” com o dinossauro roxo.
Nem preciso comentar a coisa dos programas “excessivamente infantis”. Alguém chegou a dizer no site do canal, que era preciso que os desenhos amadurecessem com as crianças. Bem, até onde posso perceber, há programas para diferentes faixas etárias e, convenhamos, a programação não visa unicamente o filho da pessoa que veio a reclamar isso. Logo, quando a programação de 24h ininterruptas passa algo que não é do gosto do filho da pessoa (ou da pessoa), não seria a hora de ele ir brincar longe da TV? Ou, talvez, assistir outra coisa? DVDs, outros canais, brincar com os pais? Bom, posso pensar numa grande quantidade de opções.
Sobre a repetição. Meus parcos conhecimentos de psicologia infantil apontam, invariavelmente, para a necessidade dos pequenos de repetições. Certa vez, em uma aula na Pedagogia, debatíamos a programação infantil e um aluno levantou a mão para fazer uma reclamação formal dos Telettubies. Chato, repetitivo, bobo. Perguntei ao menino se ele realmente não gostava do programa. Ele me garantiu que odiava. Meu comentário foi: “Que ótimo! Eu fico muito feliz. Sabe, o programa é pensado para as necessidades de crianças de 0 a 3 anos, logo, é muito bom saber que você não gosta. Eu ficaria preocupada se você viesse à aula e dissesse que não perde os Telettubies por nada”.
A repetição ensina, dá segurança, conforto. Somos obrigados a assistir o canal infantil, mas, por favor, ele não é para nós! Não podemos avaliá-lo de acordo com nossos conceitos e necessidades adultas.
Entretanto, não se esgotam aí as reclamações dos pais. As que ocupavam o segundo lugar na lista, foram as que martelavam no tema do excesso de violência. Excesso!! O tal desenho chamado de violento tem os vilões mais ridicularizados da TV. É adorável por ensinar palavras novas. E a violência fica por conta de socos em robôs gigantes, e ataques feitos com fatias de presunto e pessoas enroladas em novelos de lã. Ora, o JN tem mais violência em 5 minutos de apresentação que toda a temporada da Garota Super Sábia. E, em defesa do programa, posso dizer que é uma aula do bom sarcasmo para crianças E adultos. Além disso, ao que me lembre, eu cresci assistindo Tom e Jerry, Papa-léguas e ouvindo João e Maria (crianças presas em gaiolas e forçadas ao trabalho escravo), nem por isso me tornei assassina de massas ou me traumatizei.
Duas dicas de leitura: Fadas no Divã, do Mario e da Diana Corso; e Brincando de Matar Monstros: porque as crianças precisam de fantasia, vídeo-games e violência de faz de conta, de Gerard Jones.
Mas, é claro, essas preocupações tem muito a ver com a forma como os pais encaram o mundo, e do que querem preservar seus filhos. Eu mentiria se dissesse que acho a programação do Discovery Kids livre de elementos nocivos.
Se eu tiver de escolher um para reclamar (não da forma, mas do conteúdo) é o trenzinho Thomas e seus amigos. Não, não reclamo por ser infantil ou bobo ou violento e, garanto a quem não conhece, ele é o três. Reclamo pela ideologia. Sim, porque é nela que está a violência. Os trenzinhos vivem com o único propósito de agradar o dono das linhas férreas, morrem de medo deste e nunca fazem nada para se divertir. Em suas vidas de rodar e bufar vapor, nada é mais importante que sua felicidade deste patrão que veste fraque e cartola e, isso é fato, ele nunca está feliz, em nenhum episódio. As locomotivas encontram a sua alegria em trabalhar sem descanso e cumprir os prazos impostos por este severo patrão, que persegue seus erros, mas trata os acertos como obrigação. Em resumo, é a mais nojenta e abjeta ideologia do capital.
Como o Miguel adora trens, temos visto muito o Thomas. Porém, minha arma contra o que não aceito, é minha presença, assistindo o programa ao lado dele. Hoje, ele se encanta com as cores e os piuííís. No futuro, conversaremos sobre o assunto.  

Book Trailers e Livros

Com sinceridade, ainda não tenho uma opinião formada sobre os book trailers. Talvez, seja algo de geração, pois nem sempre a imagem consegue me despertar a vontade ler alguma coisa mais do que as palavras. Em geral, uma resenha apaixonada funciona mais para mim. É como se fosse mais fácil de ir das palavras às palavras. As imagens – paradas ou em movimento – parecem conspurcar algo que me resiste nos livros: uma imaginação sem fronteiras. Chamem-me de antiquada, mas eu realmente não gosto que me digam como pensar ou imaginar um livro. As imagens fazem isso. Direcionam o olhar, a mente. Neste ponto, os resumos, mesmo os mais ruins, são menos eficazes em aprisionar a liberdade da imaginação. Talvez, por isso, eu aprecie pouco as capas de livros excessivamente figurativas ou as horríveis caça-níqueis que trazem uma imagem do filme de sucesso (sei, sei, funciona para as editoras venderem, mas não para eu as compre, ok?).
Contudo, assim como as capas e assim como os bons resumos, resenhas e as boas orelhas de livros, os book trailers são um novo tipo de arte que estamos vendo nascer. Poucos já atingiram esse nível, eu acredito. O trailer do livro abaixo, sem qualquer sombra de dúvida, é arte. Porém, não posso afirmar que ele realmente me faria comprar o livro. Eu posso até ter ficado atraída em pegá-lo em uma livraria, mas para comprar… terei de ler o resumo.

Sobre a Impotência

 
 Acho que posso dizer que foi por acaso que acabei lendo As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides. Veja bem, eu não vi o filme, e nem sei se pretendo, ao menos, não de forma organizada – retirando na locadora e tudo mais. Talvez, eu sente para ver caso esteja passando na TV, mas não por esforço. Não entenda mal. Eu gostei do romance e respeito bastante a obra cinematográfica de Sophia Coppola, muito embora não me considere uma fã. Apenas, acho que, de alguma forma, o filme pode aniquilar o que mais me prendeu ao romance: a distância.

De fato, foi isso que me seduziu a comprar o livro, mesmo que não para mim. Ah, sim, sou um animal interesseiro quando se trata de livros. Compro os que não tenho para dar de presente, com a firme intenção de pedi-los emprestados tão logo o presenteado os acabe. No caso de As Virgens Suicidas, meu gosto pouco afeito ao mórbido real (prefiro-o em narrativas fantásticas), me empurrava contra o livro (assim como inicialmente foi ao filme). O caso raro de um bom resumo, como o que está na contracapa da edição da L&PM, me fez mudar de ideia (Resumos de livros podem ser a morte da venda!). Achei que o livro poderia ser interessante e resolvi comprá-lo para presentear uma pessoa especial no seu aniversário. Na última hora, porém, mudei de ideia. Engordei o presente de outra maneira e fiquei com o livro.

Comecei a leitura há algumas semanas e como março foi agitado, demorei mais para terminar o livro de pouco mais de 200 páginas. O resumo prometia um livro leve, apesar do tema – mas, não sei se eu aplicaria o termo “divertido”, como usado pela editora. Talvez, tenhamos noções diferentes sobre ao que se aplica a palavra. De qualquer forma, é, certamente, um romance que merece a leitura. É muito bem escrito (com uma ou outra ressalva). O texto flui e é, ao mesmo, tempo sólido, consistente. As cinco Lisbons me remeteram imediatamente às cinco Bennet, mas as semelhanças param por aí. Enquanto estas últimas são solares, as louras Lisbon são descritas como portadoras de um destino sombrio e incompreensível.

Há uma encantadora profundidade nos personagens além da que é dita em palavras, mesmo encantador narrador-personagem-oculto é uma presença instigante, nos guiando pela obsessão destes garotos por meninas que todas aquelas circunstâncias tornaram intocáveis. É um Romeu e Julieta em que todas as Julietas morrem em suicídios sem novo despertar. Seus Romeus sobrevivem, envelhecem, mas são presas eternas da bestificação do amor trágico, para sempre titubeante na incerteza de ter sido ou não correspondido.

Mais que tudo, As Virgens Suicidas é um romance sobre a impotência. Não a sexual, embora ela não esteja ausente, já que o acesso dos meninos às garotas é negado por todo o romance, sendo facultado a apenas um deles. Este herói não era exatamente pertencente ao grupo, seria estranho aos narradores não fosse o afã destes em irmanar-se a ele para chegar até as meninas Lisbon.

Contudo, outras impotências se apresentam cheias de força no livro. A mais óbvia é a dos homens diante do mundo das mulheres. As exaustivas tentativas dos garotos em compreenderem as cinco irmãs, antes e depois de suas mortes, redundam sempre em fracasso. As Lisbon são insondáveis e também o é a mãe delas – criatura mais potente do livro, embora isso nunca seja dito. O pai das garotas, nesse caso, soma-se aos meninos. Ele não entende o que a esposa se tornou. Não entende as filhas que vão deixando de ser crianças e se tornando mulheres. Sua potência se esgotou ao ajudar a conceber as cinco e, depois, esgotou-se. Isso é claro em sua voz, em sua letra, em seu apego à organização de sua sala de aula. O Sr. Lisbon é um homem que desistiu de controlar o incontrolável. Delegou as cinco forças da natureza presentes em sua casa àquela que ele considerava mais capaz de compreendê-las: sua mulher. Mas, o que a Sra. Lisbon prende com mão firme é areia, e ela escorre pelos dedos. Suas garotinhas nunca mais voltarão aos tempos felizes e despreocupados da infância. Elas tem regras. Suores femininos. Desejos assustadores para a mãe que permite longos banhos na banheira como forma de aplacá-los. Mas não há. Elas são cinco. Que uma agüente, vá. Mas todas?

As meninas buscam hobbies em troca das companhias e namorados que não têm, mas não há satisfação nisso. Uma delas chega a encontrar o sexo, mas nem ele é suficiente para fazer com que ela consiga respirar livremente. Aliás, o que faz uma mulher respirar livremente? O que lhe falta, eternamente? Os garotos não sabem responder. Talvez, nenhuma das Lisbon conseguisse responder. Nem a mãe delas. Nem eu. Nem mulher alguma. Ao menos, não em palavras. E se pudéssemos, será que iríamos querer partilhar isso?

Sem dúvida, a frase mais repetida do livro é a da pequena Cecília, após sua primeira tentativa de suicídio ao médico que a tratava.

“– Evidentemente, Doutor – disse –, o senhor nunca foi uma garota de 13 anos”.

Não, não foi. Nenhum homem foi. Em geral, as meninas de 13 anos tem muito mais certeza sobre quem são do que as mulheres que um dia elas se tornarão, mas não são mais hábeis em explicar isso do que suas futuras personas. Os 13, no entanto, são a dead line. O momento do desespero de filhos e pais. De um dia para o outro: onde está a criança que estava aqui? Foi-se. Não volta. Não é só o corpo que muda. É o olhar. É uma parcela da alma.

Alguém vai argumentar que hoje isso pode acontecer antes, em outras idades mais e mais precoces. Sim, pode. Mas não é o caso de se discutir quando as crianças partem de nós, mas o que a ausência delas deixa. E como é difícil lidar com isso em ambos os lados da corda, do cabo de guerra que pode se tornar a relação de pais e filhos. Eugenides escolhe os anos 70, quando essa relação, com todas as mudanças sofridas na década de 60 está começando a complicar, mais e mais. Os filhos mudaram. O mundo mudou. Os pais ainda não.

“Os dois ficaram calados, junto com os nossos pais, e percebemos como eram velhos, como estavam acostumados a encarar traumas, depressões e guerras. Percebemos que a versão do mundo que nos ofereciam não era aquela em que realmente acreditavam, e que apesar de todos os seus cuidados e do seu mau humor por causa das tiriricas, estavam se lixando pro gramado”. (p.49).

Por outro lado, há ainda outra impotência latente em todo o livro. Talvez, desde a primeira frase. A impotência que nos acossou ontem (dia 7 de abril de 2011), a impotência humana diante da tragédia. Nossa busca obsessiva por razões é a busca pela resposta à pergunta: poderia ter sido evitado? Os meninos que amaram as Lisbon não conseguem chegar a uma resposta. E, provavelmente, nem nós. Não adianta nos imaginarmos potentes antes, pois essa força ainda não foi pedida. Só depois. Então, pensamos se é possível sermos mais eficazes para impedir o horror no futuro? Mas, novamente, estamos no beco sem respostas. Pois, se fizermos tudo corretamente, não saberemos que fizemos, já que ninguém contabiliza assim: “passou um ano e nenhum jovem morreu, matou ou suicidou-se.” No entanto, nossa impotência estará sempre a perseguir-nos. Mesmo depois de décadas.

Foi assim com os meninos que amaram as Lisbon. Não vejo como possa ser diferente com todos nós.

 

 

 

Sobre a paciência

Meus pais contavam essa história quando eu era pequena. Um tipo de conto moral que, certamente, pretendia causar em mim um retorno. Imagino que, no fundo, eles queriam dizer para que eu mesma não testasse os limites da paciência deles.Mas, eu gostava tanto da história que não creio ter compreendido o recado inteiro.

É, provavelmente, uma daquelas história que se repetem com personagens vários, em ambientes mais variados ainda. É possível que tenha acontecido, ou até tenha sido escrita por algum autor que ignoro, no entanto, a mim chegou como verdade e aqui repasso como uma lenda de cidades minúsculas como a que nasci.

Diziam meus pais que na cidade vivia um sapateiro. Homem sério e pacato. Nunca fez mal a ninguém, era tímido e pouco falava com os outros. Assim foi até o dia em que a mulher o largou. Não bastasse o incômodo de ser abandonado, um gaiato da cidade achou “por bem” de encher-lhe a paciência, já que, ao abandono, o calmo sapateiro não reagiu.

Talvez, fosse, de anos, um desafeto do sapateiro que, ali, resolveu se revelar. Esse “desafeto” (palavra que me encantava) metido a engraçado, parecia achar que importunar era tão cômico para o importunado, quanto era para ele. Então, contavam, o tal homem passava todos os dias em frente a sapataria e dizia em alto e bom som:

– Bom dia, corno!
O sapateiro nada dizia. E isso foi assim. Todos os dias. Sem nenhuma mudança. Alongando-se a persistência de um em incomodar e de outro em aturar. Foram 18 anos. Numa manhã, o “desafeto” passou pela sapataria e sacou o seu invariável:

– Bom dia, corno!

Levou um tiro. Ou mais. Não sei. Mas morreu. O sapateiro, claro, foi preso. O rábula que o defendeu sabia ter perdido o caso antes mesmo do meio do julgamento. Motivo fútil, claro. Estouro injustificável. Não era uma calúnia, pois todos sabiam a verdade na cidade: o sapateiro era corno mesmo, etc. Então, o rábula resolveu usar do estratagema do vítima/algoz para poder fazer do algoz, vítima. Quando iniciaram os debates, o rábula começou:

“Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…
Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…
Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…
Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…
Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…
Meritíssimo senhor juiz de direito Fulano de Tal…”

“Senhor advogado!”, interrompeu o juiz. “Quer, por favor, dar prosseguimento ao debate?”

“Pois não, Meritíssimo, mas veja, o senhor não aguentou minha fala respeitosa nem por dois minutos. Meu cliente aturou o mesmo insulto por 18 anos”.

Para meu delírio, meus pais contavam que, embora o sapateiro tenha sido condenado, sua pena foi ridícula e quase não alterou a sua vida.

De qualquer forma, eu sempre achei que a moral da história era que: paciência tinha muito mais a ver com o tempo que com o motivo.