Dia de Bolo – Chocolate com Laranja



Meu melhor bolo nasceu em Porto Alegre. Era uma tarde de inverno daquelas que não dá nenhuma vontade de sair para a rua. Não lembro bem, mas acho que era um sábado. Ou, talvez, não fosse. Isso porque quando se está no doutorado, a gente só conta os dias da semana quando vai a arquivo. Depois que a fase do arquivo acaba, a semana fica meio sem significado, assim como palavras como férias ou dia de trabalho. Todo o dia é dia de trabalho, na verdade. Porém, neles, a angústia pelo fim e a alegria de se fazer apenas o apaixonante se misturam. E, claro, tem horas em que você não quer pensar. Quer se empanturrar de açúcar. Quer fazer um carinho na sua própria cabeça. Quer te dar um colo que a sua mãe riria se você pedisse. Quer qualquer coisa que tenha chocolate.
Foi numa tarde assim que esse bolo nasceu. Eu criei e depois convenci o Guto a enfrentar o frio e buscar as laranjas. Baseei meus argumentos na divisão do trabalho, afinal, alguém tem que caçar! Nem que sejam laranjas.
Com o tempo, claro, aprimorei. O bolo foi ganhando toques meio-amargos e cobertura. O de sábado fez sucesso e não só com meus meninos. Mas, não há mistério e a base é a mesma dos outros bolos, com alguns cuidados.
Três ovos separados e as claras batidas em neve. As gemas batidas com ¾ de xícara de óleo e 1 xícara de açúcar. Aqui também a liberdade. Quem acha que doce tem de ser bem doce pode aumentar a medida até 2 xícaras, mas… sugestão? Tente apreciar o sabor com menos açúcar. Vale à pena.
Depois vão as 3 xícaras de farinha e mais uma de leite morno. E o chocolate. No sábado usei um com 50 % de cacau – “livrai-nos dos achocolatados, amém!” – e ficou per-fei-to. Bastou 3 colheres de sopa ou meia xícara e logo havia aquela cor linda e perfeita do chocolate.
Depois da massa bem batidinha, coloque uma colher de sopa cheia de raspas de laranja, as claras em neve e o fermento, apenas misturando para que ela fique aerada e fofa. Depois, na forma untada e no forno quente à 180° por 45 min.
ATENÇÃO!
Não prove a massa crua. Não faça isso! Se fizer, ela corre o sério risco de jamais ir ao forno.
Para cobrir: meia caixinha de creme de leite, 3 colheres de sopa do mesmo chocolate e 3 colheres de chá de açúcar. Misture bem, e aqueça sem deixar ferver. Cubra o bolo desenformado e salpique raspas de casca de laranja.
É um bolo forte, então, seja generoso e convide os amigos.


Cantinhos

Na casa em que vivi até os sete anos tinha um cantinho no pátio, que ficava no alto de uma escada. De lá se via toda a horta do vizinho e suas abóboras do tamanho de carroças, brilhando nos dias de sol.
Assisti dali muitas justas de cavaleiros e muitos prêmios distribuí. Meu lenço, eu só dava aos que se vestiam de vermelho com insígnias douradas e, vez por outra, há algum misterioso cavaleiro negro que aparecia por lá.

Uma pena que meus campeões nunca ficavam para o banquete, pois, sendo foras-da-lei que lutavam contra tiranos, tinham de sair da arena quase sempre guerreando com mais de cem homens. Longos duelos de espadas, que eu assistia com apreensão e um sorriso. Meus heróis se safavam e se iam.
Na outra casa, eu domei um muro e fiz dele meu cavalo. Aos nove, eu liderava um grupo de irmãs espadachins que vingavam o pai, despossuído pelo ditador, e retomava as terras de onde tirávamos nosso sustento. Sempre havia, ao fim, uma aventura para salvar um enamorado que, por ser nosso parceiro de luta, havia caído prisioneiro nas mãos de algum conde malvado, general rebelde ou mal-feitor mercenário.
Quando nos mudamos, a menina não foi junto. Ficou na casa antiga e na nova montei um cantinho com esmero e almofadas verdes. Os livros vinham em pilhas. Cada novo, era eu sumir por dois ou três dias. Não fiz vizinhos aí.

De doce e brigadeiro

Da última vez em que estive em Porto Alegre, o Milton e a Claudia me emprestaram dois livros. Ele tinha me sugerido a fantástica leitura de Um Teto todo seu, da Virginia Woolf (que já comentei, aqui). A Claudia, vendo meu interesse por culinária em todas as suas esferas, me emprestou o livro Farinha, Feijão e Carne-seca, da antropóloga Paula Pinto e Silva. Ela tinha toda razão em achar que eu me interessaria pelo texto. Devorei o livro assim que comecei a lê-lo. A Paula escreve de forma muito agradável e pouco acadêmica. Segue o estilo de Gilberto Freyre n’O Açúcar (livro que comentarei mais adiante aqui no blog). Isto é, a autora vai entremeando história com receitas, o que deixa o livro cheio de sabor e vontade de ir para a cozinha.
Algumas coisas chamaram muito minha atenção no livro. Uma delas é a reclamação feita pelos viajantes estrangeiros – já no período colonial – sobre o excesso de açúcar nos doces brasileiros (daí minha vontade em reler o Freyre). Nascida e criada neste mundo onde o “ouro branco” entra nas casas em pacotes de 5kg, nunca tinha me apercebido deste excesso até passar uma temporada na França por conta do doutorado. De início, não achei que os doces deles fossem menos doces que os nossos. Eram fantásticos, diferentes, de uma confeitaria muito trabalhada, mas não percebia neles menos doçura. Contudo, ao retornar para o Brasil, percebi que o consumo de um único brigadeiro podia deixar-me enfarada de doces por todo um dia. Claro que, para as “doceiras” da família isso soava como uma afronta e precisei novamente me re-adaptar.
No entanto, ainda hoje prefiro doces em que o açúcar seja apenas um dos sabores e não todo o sabor. Quando comento isso, em geral, ouço da audiência que doce tem de ser BEM doce.
Mas aí fico pensando na última parte do livro da Paula e de algo que ela insinua ao longo de todo o texto. A primeira questão é a da culinária como idioma, mas também como parte de um diálogo. Ou seja, o que vivi na prática – a cerca dos doces de Brasil e França – é também parte da diferença entre nossos falares. Não é apenas uma questão de personalidade de povo, mas da forma como este se expressa, logo, de nossos idiomas. E, assim como podemos nos dar bem ou não com línguas estrangeiras, podemos nos dar bem ou não com as culinárias estrangeiras, pois, quando comemos, estamos conversando com o povo do país que visitamos. Essa conversa existe também dentro dos próprios países, mudando de região para região.
Meu orientador lá, para fechar o semestre, convidou todos os seus alunos a irem até sua casa e levarem um prato que lembrasse sua região. Foi memorável, pois lá estavam vários idiomas culinários da França e também do mundo. Fiquei marcada pela delícia de um bolo de nozes SALGADO, vindo da Alsácia. E também pelo inesperado sabor de bananas verdes, cortadas chips e fritas, como feito nas Antilhas. Foi uma Babel. Uma Babel deliciosa.
Do Brasil havia duas representantes. Uma baiana e eu. Ambas muito mais brancas do que imaginavam os franceses menos conhecedores do mundo. Ambas com limitações para trazerem “pratos de seu país”. A minha era a de que, morando na casa do Brasil, eu praticamente não tinha qualquer acesso a uma cozinha que permitisse alguma inventividade. Ou seja, não tinha a menor chance de apelar para um dos meus bolos. A limitação da baiana é que ela não sabia cozinhar.
Resultados? Ambas chegamos à festa com uma bandeja de brigadeiros! E depois falam que não há unidade cultural no Brasil. Tem sim. É futebol e brigadeiro. Os nossos estavam ótimos. E os franceses até conversaram com eles. Mas os acharam muito doces.

Dia de Bolo – Fubá

Ouça enquanto lê


A memória nos engana. Tece paraísos onde não havia mais que o ordinário. No entanto, o tempo nos faz misturar lembranças e, quando olhamos para trás, ficamos com uma nostalgia edênica, para sempre inacessível. Memórias de infância, não raramente, se revestem dessa roupagem. Claro, isso não ocorre do mesmo jeito para todo mundo.
Os que tiveram infâncias felizes, veem quase tudo com esses olhos. Os que não tiveram, tomam rumos diferentes. Uns escolhem lembrar apenas o que era bom e se apegam de forma quase cega a um sabor, ou uma sensação. Outros se ligam a memória de uma única pessoa, muitas vezes, lhe retirando todos os defeitos óbvios que ficaram na lembrança dos outros conhecidos.
De qualquer forma, não conheço quem não tenha seu cantinho de Éden em algum lugar perdido das reminiscências.
Minha avó tinha uma casa fresca, de portas abertas, por onde o vento corria e que só vim a saber como realmente era depois de adulta. Para mim, era o lugar onde eu chegava e determinava o que queria comer. E eu comia o tempo todo. Começava a tarde com merengue com limão (ao qual eu ia colocando ora mais limão, depois mais açúcar, e assim por diante até ficar intragável); e depois vinha o bolo de milho com chá de mate (nunca contei a minha avó que não gostava desse chá, porque ela tinha o maior trabalho para fazer); no fim da tarde, meu avô colhia abacates, que minha avó amassava com açúcar e limão. Eu, com 4 ou 5 anos procedia exatamente como o merengue (mais limão, mais açúcar, mais limão, etc, até virar uma eca).
Foi aprendendo sobre como fazer as coisas que gostava de comer que percebi o engano. O bolo de milho da minha memória, tinha apenas um xícara de farinha de milho, o resto era farinha de trigo. Na minha cabeça o nome perdeu sentido, bem como minha ideias sobre textura e sabor que deve ter um bom bolo de farinha de milho. O que não quer dizer que não tenha comido alguns memoráveis.
Em Porto Alegre, havia uma padaria no Jardim Botânico, chamada Doce Paraíso, onde se podia comer bolos divinos. Inclusive de milho. No Rio de Janeiro, conheci o Mãe Benta (bolo de milho com erva-doce) que era gostoso até quando industrializado.
Minhas experiências em casa, até hoje, não saíram perfeitas. O milho facilmente torna o bolo farelento e seco. É preciso uma habilidade que, talvez, só o povo das Minas Gerais – capazes de maravilhas culinárias – consiga fazer com excelência. Ainda assim, meus meninos aprovaram minha tentativa no sábado e divido com vocês com algumas correções que pretendo fazer na próxima tentativa.
Três claras em neve batidas à parte. As 3 gemas batidas com o açúcar e a gordura. Correções à minha receita:
1. Se você é sensível ao açúcar pode diminuir minha xícara e meia para apenas uma xícara. Explico. Inspirei-me na Mãe Benta e coloquei uma colher (das de chá) de erva-doce. Ora, essa erva tem o condão de ampliar na boca a sensação adocicada; sendo assim – e caso você não seja tão brasileiro a ponto de pensar que doce para ser bom, tem de ser bem doce – dá muito bem para fazer o bolo com somente uma xícara do “ouro branco” do país.
2. Em bolo de milho ou fubá não dá para economizar na gordura. Então, eu ampliaria os ¾ de xícara de óleo que coloquei para uma xícara. Aliás, acho até que, no próximo, substituirei o óleo por manteiga sem sal.
Os três ingredientes misturadinhos e no meu armário tinha fubá e farinha de milho. A diferença? Bem, o fubá é a farinha de milho mais fininha, um pó. Interessante como o povo aqui do sul não é muito ligado nessas diferenças. Somente quando comecei a viajar para o norte do país fui percebendo as várias gradações das farinhas de milho e de mandioca e que havia um universo completamente desconhecido nesse âmbito para mim.
Pausa: Optei pelo bolo de fubá esta semana porque tinha acabado de ler um livro sobre a história da culinária no Brasil Colônia, que me foi emprestado pela Claudia Antonini. Fiquei inspirada na cozinha e na escrita. Lembrei de coisas que já escrevi sobre os princípios da culinária gaúcha e… humm, farei um post apenas com isso. Fim da pausa.
Voltando à farinha, optei pelo fubá. Mas, não quis fazer um bolo somente de fubá, lembrando de como minha mãe e minha avó me tinham ensinado a fazer bolo de milho. Então, foram 2 xícaras de fubá e uma de farinha de trigo, mais uma xícara de leite. Por favor, não vá colocar leite desnatado! Este é um bolo que tem história e regionalismos nesse país! Eu achei bom respeitar e coloquei leite gordo. Um bolo de fubá não é aliado de dietas.
Eu levei à batedeira pela comodidade de ver os gruminhos de farinha sumirem rápidos, mas a última parte do bolo tem de ser feita com colher de pau. Inclua o fermento (uma colher de sopa cheia), a erva-doce e as claras em neve, mas, por favor, não bata. Misture. É esta clara que vai dar fofura ao bolo (junto com a gordura). A explicação técnica é que estes dois ingredientes ajudam a incorporar ar à massa. Se você bater, expulsa o ar e o bolo vira uma sola ou uma borracha, dependendo do ponto de vista.
O meu cresceu e ficou lindão. Sem cobertura para cumprir o ritual de homenagear o Brasil antigo e a casa da minha avó. Ficou gostoso. Mas vai ficar ainda melhor da próxima vez.


A doença sob o olhar da literatura – Parte 2




Este corpo ainda tem dono!
Prosseguindo a síntese, a próxima parada se faz com base nos contos de Machado de Assis e Jorge Luís Borges. O primeiro, enfocando o doente do século XIX e sua forma de escolher curadores e conviver com eles. O segundo, já em pleno século XX, enfoca não o doente, mas o paciente, não a dor da moléstia, mas o sofrimento de quem pouco ou nada escolhe a respeito de seu próprio existir. Comecemos com o que nos sugere o texto de Machado, onde, a frente de tudo está a relação entre quem adoece e quem cuida.
O adoecer e o curar têm sido geralmente, interpretados como uma relação desigual entre aquele que sofre o mal e, por isso, ocupa uma posição inferior e dependente, e aquele que tem (ou diz ter) o poder de aliviar este sofrimento. Ao percebermos a cura como uma moeda de troca social é forçoso repensar esta interpretação. Tanto mais quando se trata de sociedades desiguais e hierarquizadas, aonde o poder de curar encontrava-se pulverizado entre diversas categorias de curadores, oriundos das mais diferentes classes e situações sociais. Afinal, esta é a realidade do Ocidente até pelo menos os anos 1940, em boa parte dele. Logo, tanto para cima, quanto para baixo na escala social, as relações entre os sofredores e os curadores podiam revestir-se de interesses mais largos do que a melhoria em um estado de moléstia e o pagamento por um trabalho realizado, no caso, a cura.
Por outro lado, não era somente a capacidade de curar que permitia este tipo de uso social. O cuidado dos doentes, mesmo quando não estando diretamente ligado a atividade de terapeuta, poderia re-elaborar relações sócio-econômicas e subverter hierarquias fundamentais da sociedade em questão. O caso dos cuidadores é assim, igualmente, uma interessante chave para se entender e interpretar o universo da doença e da cura. Esse é o tema fantasticamente abordado por Machado de Assis em O Enfermeiro, uma das obras-primas da nossa literatura e impressionantemente em consonância com o que a documentação mostra para a realidade brasileira do século XIX. Quando não possuíam escravos, familiares ou amigos que pudessem lhe dispensar cuidados, alguns enfermos – caso tivessem recursos financeiros para isso – podiam contratar, em troca de dinheiro, benefícios, ou casa e comida, um “enfermeiro”. Essa figura, longe de ter o significado profissional atual, era um cuidador que, muitas vezes, mudava-se para a casa do enfermo, aplicava-lhe remédios e o ajudava a seguir as prescrições dos curadores especializados.
Ao contrário dos que atuavam como curandeiros, os cuidadores não eram especialistas na arte de curar e ocupavam uma posição, por vezes, descrita na documentação pela atividade de amparar os doentes (banhos, comida, etc), ministrar-lhes os remédios receitados por outros e acompanhar os enfermos em seu período de resguardo. Estes enfermeiros estavam longe da profissão institucionalizada que começou a ser construída ainda no século XIX, mas que só muito lentamente foi tomando os contornos que o século XX viria a conhecer. Para esta época, o enfermeiro tinha posições não muito diferentes da de um servente – no caso dos hospitais – e de um acompanhante – no caso dos que os tinham em casa. Seu trabalho era alimentar e cumprir as terapêuticas receitadas por um curador.
No Brasil, muito frequentemente, este era um lugar ocupado por escravos e isso se tornou, para muitos, um caminho possível em direção a uma vida fora do jugo servil. Pode-se perceber isso ao observarmos que a ação de cuidar dos senhores em suas enfermidades é um elemento bastante comum nas cartas de alforria. Não raro, os cativos se utilizaram deste papel como uma estratégia para alcançar a liberdade, possibilidade que muitos senhores não se furtavam em manipular para garantir a fidelidade, a atenção e a não-violência, aspectos com os quais o escravo poderia falhar naquele momento de fragilidade dos donos.
Por outro lado, o poder econômico do doente podia colocá-lo acima do cuidador que dele dependia para sua sobrevivência e sustento. A tarefa, ingrata e difícil, se compõe de hierarquias múltiplas e ambíguas. Afinal, quem controla quem? Quem depende de quem? A quem cabe o poder e as determinações acerca do corpo e da própria vida?
“Tudo impertinências de moléstia e do temperamento. A moléstia era um rosário delas, padecia de aneurisma, de reumatismo e de três ou quatro afecções menores. Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros. No fim de três meses estava farto de o aturar; determinei vir embora; só esperei ocasião.” (O Enfermeiro, Machado de Assis). 
Meus estudos sobre os enfermos no século XIX sugerem, até mesmo pela comparação com o conto de Machado de Assis, duas conclusões. A primeira é que, neste período, a casa do enfermo, seus familiares e próximos, continuaram sendo o centro e os agentes preferenciais no cuidado das moléstias. Quando o doente não os possuía, ficava a mercê de suas possibilidades monetárias. Se tivesse algum pecúlio, poderia tentar forjar laços, com aqueles que pudesse julgar confiáveis, em geral, com um bom ressarcimento. Caso nada possuísse, tornava-se um “desvalido”, cuja miséria e a enfermidade tornavam alvo da caridade pública. Situação que nenhum enfermo poderia almejar.
A segunda conclusão, porém, vai contra a ideia do doente “difícil”, e sim a favor de uma resistência do doente, na quebra de braço que se torna a disputa por seu próprio corpo com o saber médico. Um doente que ainda pretende decidir que remédios tomar, quando tomar e em qual médico vai acreditar. Tanto em casos por mim estudados, quando o Coronel da ficção, reivindicam essa posse que se recusam a fazer as coisas de outro jeito que não seja o seu próprio.
Temos aqui uma diferença bastante importante em relação ao arquétipo da relação com a doença que vimos para o século XVIII. No século XIX, não foi apenas o saber médico que avançou, a categoria profissional dos médicos também. Eles são mais abundantes na sociedade e tem mais poder, atuam dentro do Estado (o número de médicos políticos é cada vez mais expressivo no decorrer do século), povoam as cidades com seus consultórios e, cada vez mais, exibem diplomas. Contudo, o monopólio da doença ainda é do doente. A casa ainda é o principal centro de tratamento e este ainda pretende dar a última palavra sobre o próprio corpo. Claro, o pensamento médico ia de encontro ao texto de Machado de Assis:
No século XIX ainda é difícil encontrar o paciente, isto é, o doente que se deixa ser destituído de todo o poder sobre o seu corpo, a sua doença e até mesmo a sua morte. Dessa figura, algo trágica, é Borges quem faz o retrato mais fiel e triste, em seu conto O Sul.
“Uma tarde, o médico habitual apresentou-se com um novo médico e conduziram-no a uma clínica da rua Equador (…) logo que chegou, despiram-no, rasparam-lhe a cabeça, prenderam-no a uma maca, auscultaram-no e um homem mascarado cravou-lhe uma agulha no braço. (…) Nesses dias, Dahlmann odiou-se minuciosamente; odiou sua identidade, suas necessidades corporais, sua humilhação, a barba que eriçava o rosto. Sofreu com estoicismo os curativos, que eram muito dolorosos, porém, quando o cirurgião lhe disse que estivera a ponto de morrer de septicemia, Dahlmann pôs-se a chorar, condoído de seu destino.” (O Sul, Jorge Luís BORGES).
Dahlmann é um prisioneiro. Está cercado de máquinas que fazem bip, remédios que desconhece o nome e o efeito, e médicos que lhe dizem apenas o suficiente. O infeliz personagem de Borges traça, então, sua fuga deste mundo, onde ele não é mais que um mero receptor, um paciente, e imagina-se viajando para uma terra ancestral, sua estância no sul. Esta mesma imaginação, quando percebe a proximidade da morte, transfigura sua vil condição de sujeitado na clínica para a de um sujeito que, embora fraco no uso das armas, ainda é dono de si o suficiente para aceitar um duelo e morrer “em uma briga de faca, à céu aberto e atacando”. Para o personagem de Borges, esta morte imaginada tem um gosto de libertação, de felicidade, de festa, um gosto que ele havia perdido em sua primeira noite na clínica, quando lhe aplicaram a primeira injeção. Assim, preso a seu leito de hospital e à beira da morte, ele escolhe sonhar morrer de outro jeito, morrer poderoso, dono do próprio destino, condição que aos pacientes é negada.
Será que as ideias apresentadas acima podem ser realmente entendidas como uma síntese do adoecer nos últimos três séculos? Por certo que há outros arquétipos de comportamento e, é bem provável, que novas pesquisas venham a demonstrar que há, no passado, comportamentos que de forma alguma se enquadravam em qualquer arquétipo. Minha intenção, contudo, sugerida pela leitura das três obras literárias citadas e revisitando minha própria tese, foi a de compilar situações que ainda são extremamente ordinárias.
A hipocondria não é um fenômeno restrito ao século XVIII e seus desdobramentos. Mais viva que nunca, ela agora tem um novo aliado: a internet. O saber médico teima em fugir dos que pretendem detê-lo e os “pacientes” continuam a resistir aos seus avanços. Entender de doenças, fazer auto-diagnósticos, dizer que aquele médico de nada sabe, são ações cotidianas, familiares, até pessoais.
A pergunta que aqui cabe é, será esta hipocondria moderna um problema de saúde mental, como queriam os médicos do XVIII? Ou, tão somente, um excesso de estímulo em mentes já preocupadas, como sugeriu inteligentemente Molière? Seja em manter a saúde para corresponder às exigências do mercado; seja em continuar produtiva para corresponder a uma sociedade que só valoriza os jovens; seja pela angústia de ver o que a medicina ainda não consegue.
De forma alguma estou aqui retornando a vilanização da medicina. Ao contrário, tento compreender é como aqueles que adoecem se comportam com as promessas e as frustrações advindas do saber médico. Assim, não consigo deixar de perceber na auto-medicação um processo de resistência. O qual, porém, quanto mais complexas se tornam as drogas ofertadas pelo mercado, bem como mais amplo o seu espectro de atuação, mais perigosa se torna para os doentes. O relatório do órgão da ONU – citado no início – quer alertar para o perigo do consumo das drogas controladas, muitas vezes, até com o aval dos médicos.
Por outro lado, não se pode deixar de salientar que a busca por medicamentos baseia-se em algum tipo de mal estar. E, no nascer do século XXI, a depressão se torna o mal do século como outrora foi a tuberculose. Num mundo medicalizado como o nosso, onde se tem remédio para tudo, ou quase tudo, porque não curar a infelicidade, a insônia, o excesso com mais excesso? Será que as ofertas dos medicamentos não estão ficando amplas demais, como no passado, quando um xarope curava de unha encravada à sífilis? Será possível chamar toda essa sedução de hipocondria?
O espaço para a reflexão sobre nossa relação com a saúde, a doença e as possibilidades de cura mantém-se amplo e, cada vez mais, exigindo nossa capacidade de estudo e análise. O entendimento é o primeiro passo para a busca de soluções eficazes que reflitam numa população mais saudável, em todos os aspectos. A luta pela posse do corpo ainda não acabou.
* O texto foi transformado em ensaio e resumido especialmente para o blog.
* Apresentado no X Encontro Estadual de História, promovido pela ANPUH-RS, e publicado de forma completa, como artigo científico, nos Anais Eletrônicos do Evento.

A doença sob o olhar da literatura – Parte 1



Adoecer não é um tema fácil. Não o é para quem adoece, não o é para quem enfrenta a doença de um ente querido, e tão pouco é para quem olha para a história procurando nela os sentimentos daqueles que sofreram com uma moléstia. A illness – a sensação de estar doente – é uma experiência muito raramente acessível em sua plenitude. Em boa parte das vezes é preciso contar com apenas com a imaginação. No entanto, é difícil pensarmos em um tema mais próximo de nosso cotidiano. Esbarramos com ele a cada espirro, cada dor de cabeça, a cada unha encravada. Isso nos dias felizes.


A história tem se esforçado em descrever os sentimentos e as sensações pelas quais os doentes passaram através dos tempos. Tem-se escavado em fontes e documentos diversos em busca da voz dos sofredores e de sua disputa – ao menos nos últimos três séculos – pela posse do próprio corpo, tendo, do outro lado da corda, o saber médico.

Entretanto, já pode pensar em, ao menos, fazer uma síntese sobre o que foi adoecer em outras épocas; e este ensaio enfoca, especialmente, os séculos XVII-XVIII, XIX e XX. A proposta aqui é usar como “porta de acesso” três grandes obras de literatura mundial, cotejando-as com pesquisas históricas que apóiam a percepção aguda e crítica de seus autores. Escolhi como parceiros nesta jornada de trabalho, a peça O Doente Imaginário, de Molière; e os contos O Enfermeiro, de Machado de Assis; e O Sul, de Jorge Luís Borges. Cada um deles, escrito no respectivo século de análise, traz em si parte da essência de como a doença foi encarada (no Ocidente europeizado) pelos sofredores a quem estes autores deram voz.

Revisitar estes “arquétipos” (por que não?) pode ser, afinal de contas, uma forma de responder aos vivos dilemas que hoje a questão do adoecimento nos coloca. Nossa época, apesar dos avanços da medicina (ou, provavelmente, por conta deles), parece caminhar para uma realidade em que cada desvio da norma possa ser considerado algum tipo de doença e, portanto, “curado”. Sendo assim, não faltam drogas e medicamentos novos se oferecendo para curar quase qualquer coisa que se possa sentir. Será que caminhamos para uma sociedade viciada e hipocondríaca como sugere o recente relatório do Departamento Internacional de Controle de Narcóticos da ONU? O texto aponta para o crescimento do vício em remédios controlados e o fato de que este consumo – embora sub-valorizado – tem tido um crescimento maior que a busca por substâncias ilegais, como a cocaína e o ecstasy.

Não faltam os que, antes de tudo, culpam a automedicação como o grande vilão do consumo exagerado de remédios (em casos extremos, levando até à morte). Mas será que estamos diante de algo tão simples? Pessoalmente, não considero em nada simples a questão da automedicação. Historicamente, ela pode ser vista mais como uma resistência ao avanço inexorável e irresistível da medicina no cotidiano físico das pessoas.

Creio, portanto, que para analisar nosso adoecer hoje é preciso compreender nosso adoecer em outras épocas, e que, sem qualquer dúvida, ainda estão marcadas nas nossas formas de sentir e vivenciar a doença.


Imaginar doenças também é doença?
A hipocondria é um fenômeno dos séculos XVII-XVIII tanto quando o “nascimento da clínica” é deste segundo. De fato, pode-se dizer que os dois casos estão ligados de forma muito próxima, pois a hipocondria só tem real sentido quando dentro de um quadro de avanço do saber médico e até da medicina, mas, no caso dos séculos XVII-XVIII, não da categoria médica. Neste período, os médicos ainda não eram os únicos possuidores de seu saber específico, o qual não era tão amplo, nem tão sacramentado e tampouco de acesso muito difícil. Mesmo que a categoria dos que ingressavam no mundo das letras fosse pequena, também o era o número de livros com os quais o saber médico podia contar. O impulso para “cientificar” o cotidiano, para a compreensão dos sofrimentos do corpo e o tempo livre para preocupar-se consigo, faziam o resto. Nesse sentido, não há nada de gratuito em um personagem como Argan. O doente imaginário de Molière é uma crítica e um retrato da época em que seu autor viveu. Por isso, essa, talvez, seja a estação onde esta síntese deva fazer sua primeira parada.

A primeira questão a ser levantada é o porquê de a hipocondria se tornar um fenômeno social relativamente tão cedo na história da medicina científica. A visão de Molière era tremendamente detrativa da categoria médica. Para ele, a hipocondria passava pelo estímulo de homens – médicos e farmacêuticos – que viviam à custa dos males dos outros, quando não em interesses escusos dentro da própria família. Num mundo anterior à Freud, não há uma leitura psicológica a balizar os medos de Argan. Ele é alguém que se pensa doente, mas é, também, constantemente estimulado a pensar assim, portanto, em verdade, ele não tem doença nenhuma, na razão de Molière.

A peça, porém, passa por cima de outro fenômeno da época, o fato de que a saúde ocupava um espaço bastante apreciável no rol de preocupações cotidianas das pessoas. Essas preocupações aumentavam de tamanho de acordo com o grau de incerteza que os conhecimentos da época permitiam. Logo, quanto mais ciente do que se sabia sobre a saúde, mais próximo dos sintomas se estava. Esta atitude trai uma profunda fé nas descobertas feitas ciência, entretanto, essa fé não destituía o doente de si mesmo. Ainda assim, alguns doentes – Argan provavelmente – imaginavam-se, especialmente capazes de contribuir com a ciência, pois neles, ela poderia descobrir um novo mal.

De fato, tanto quanto a obsessão pela saúde e pelas próprias mazelas há também um deslumbramento pelo novo, pelo moderno, pelas descobertas e, claro, pela própria medicina e suas capacidades (neste período, mais projetadas do que reais). Assim, homens (e mulheres) como Argan eram, antes de tudo consumidores do que havia de mais “novo” em termos de terapias, tratamentos, medicamentos.

A peça, porém, passa por cima de outro fenômeno da época, o fato de que a saúde ocupava um espaço bastante apreciável no rol de preocupações cotidianas das pessoas. Essas preocupações aumentavam de tamanho de acordo com o grau de incerteza que os conhecimentos da época permitiam. Logo, quanto mais ciente do que se sabia sobre a saúde, mais próximo dos sintomas se estava. Esta atitude trai uma profunda fé nas descobertas feitas ciência, entretanto, essa fé não destituía o doente de si mesmo. Ainda assim, alguns doentes – Argan provavelmente – imaginavam-se, especialmente capazes de contribuir com a ciência, pois neles, ela poderia descobrir um novo mal.

De fato, tanto quanto a obsessão pela saúde e pelas próprias mazelas há também um deslumbramento pelo novo, pelo moderno, pelas descobertas e, claro, pela própria medicina e suas capacidades (neste período, mais projetadas do que reais). Assim, homens (e mulheres) como Argan eram, antes de tudo consumidores do que havia de mais “novo” em termos de terapias, tratamentos, medicamentos.

Roy Porter e Geoges Vigarello, estudando cartas e outros documentos particulares, constataram essa enorme importância dada pelas pessoas comuns a sua própria saúde, bem como a sua diligencia em – sendo letrados – descrever seus incômodos, dores, aflições e perdas. O dois historiadores afirmam que o século XVIII é, especialmente, rico neste novo fenômeno. Não dos doentes imaginários, nos termos de Molière, mas em criaturas obcecadas pelo próprio sofrimento. Porter aponta, inclusive, certo fetiche em torno da descrição das mazelas, longamente repetidas e analisadas na difícil busca das palavras ideais para descrever o sofrimento.

Outro ponto interessante diz respeito ao fato de que, embora nem todos estes que escreviam sobre a própria saúde estivessem realmente doentes, também é difícil vê-los como incorporações do arquetípico de Molière. Isso se dá, especialmente, no que diz respeito à sujeição aos médicos. Vigarello nota, por exemplo, que muitas das cartas eram dirigidas aos médicos vendo os mais como consultores, isto é, como alguém com quem se discutia a moléstia e que dava conselhos, não prescrições. Quem classifica, porém, este comportamento como hipocondríaco, sãos os próprios médicos europeus do século XVIII e início do XIX. Contudo, estes profissionais não concordam com Molière sobre a causa deste tipo de conduta. Mesmo antes e Freud, eles vêem aí um tipo de doença também. Um problema de saúde mental.

Uma objeção para a utilização da documentação referida acima, como prova de uma característica geral, seria afirmar que seus autores eram, em sua maioria, pessoas cujas outras preocupações da vida eram “poucas”: aristocratas, burgueses ricos, senhoras entediadas, se comparados com outros grupos menos favorecidos, daí suas excessivas inquietações com a saúde. É possível. Contudo, embora não tenha encontrado nenhum “hipocondríaco” clássico em minha pesquisa sobre o sul do Brasil no século XIX, as cartas pessoais deixadas pelos habitantes da região, demonstram a continuidade desta preocupação com o bem estar e a saúde, por vezes, com descrições minuciosas de dores e “achaques” não apenas seus, mas também da família e dos escravos.

É certo que havia uma diferença sensível entre estar saudável e estar doente, e, talvez, uma diferença igualmente pronunciada entre estar doente e ser doente. Por outro lado, é possível perceber que haviam estados intermediários entre esses pólos, os quais poderiam, por vezes, atuar como “continentes distintos” – ser saudável ou enfermo durante uma epidemia, por exemplo – e, outras vezes, numa seqüência de temores, perigos e resguardos. O corpo perturbado poderia constituir-se numa porta aberta para outros males.

Não é estranho, então, encontrar pessoas a “imaginar” doenças mais graves aos mais simples sintomas. A ideia do continuo entre o simples e o complexo funcionava como um estimulador desse tipo de percepção. Argan não é o único exemplo da literatura para isso. Quem conhece a popular obra de Jane Austen – autora inglesa que escreve entre fins do século XVIII e início do século XIX – com certeza se lembra da Sra. Bennet e de seus sempre citados “nervos”. O mal dos “nervos” ou “sofrer dos nervos” foi uma doença popular no início do século XVIII. Resolvia e explicava as ansiedades da época. Em menos de 100 anos, porém, a doença se tornou uma desculpa de mulheres. Não era histeria, por não ter nenhum efeito real, para muitos médicos era tão somente um sintoma hipocondríaco. Para seus sofredores, um mal sem cura, debilitante, enfraquecedor, em suma, uma moléstia real e perene.



(continua)


* O texto foi transformado em ensaio e resumido especialmente para o blog.
* O trabalho foi originalmente apresentado no X Encontro Estadual de História, promovido pela ANPUH-RS, e publicado de forma completa, como artigo científico, nos Anais Eletrônicos do Evento.



Fechando a conta

Durante 10 anos, tive como campo de estudos em história a área da saúde. Entre 1997 e 2007, pesquisei curadores das mais diversas formações e dei especial atenção à sua clientela, a quem nomeei sofredores, por entender que a doença nunca se resume somente aos doentes. Ela envolve, agrega e dilacera seus familiares, vizinhos, amigos e todos os que compões seus grupos de relação.
No fim do doutorado, minha história pessoal acabou engolfando o objeto da pesquisa. E após quase 4 anos de hospitais, médicos, curandeiros e estando eu, obviamente, do lado dos sofredores, achei que era a hora de seguir um novo rumo. O desvio durou algum tempo a acabou dirigindo-se ao que, no futuro, parecerá ter sido a escolha mais óbvia.
É certo que 10 anos não se apagam. Ainda falarei disso. Ainda orientarei. Ainda pretendo reeditar meu primeiro livro e, talvez, publicar a tese. Mas achei que, por hora, era necessário fechar a conta e revisando meus últimos escritos, vejo os todos num tom de óbvia despedida. Como é possível ainda que haja neles algo de interessante, colocarei algumas coisas aqui no blog. Nada exaustivo, nem excessivamente acadêmico, mas, espero, que deem algum material para a curiosidade e para o pensamento. 

Outros textos na net

Para divulgar e registrar, resolvi colocar aqui no blog os links dos textos que tenho publicado em minha coluna no Sul 21. Para quem não conhece o jornal, fica também o convite, pois é uma ótima alternativa para leitura de notícias na net.

Abaixo seguem os links em ordem cronológica dos mais recentes aos mais antigos.

O lugar das mães, publicado em 14/03/11
Por que ler isso?, publicado em 03/03/11
Remédio para o que?, publicado em 14/02/11
Misoginia muito além dos vampiros, publicado em 31/01/11
Prematuro não é “Apressadinho”, publicado em 10/01/11
Política Internacional e o Wikileaks: o passado e o futuro, publicado em 07/12/10
República dos Bacharéis? Antes fosse…, publicado em 29/11/10
Brinquedo de menina, publicado em 08/11/10
Obrigado por votar, publicado em 31/10/10

Na Opinião Pública do jornal, saiu um texto anterior ao convite para a coluna.
Matem a Bruxa!, publicado em 15/10/10

Comme ils disent

Por motivos alheios a minha vontade, não pude escrever nada, então resolvi partilhar algo. Trata-se de um conto que, como muitos devem conhecer e até gostar, vem em forma de música. O autor e interprete é um dos maiores da música francesa, Charles Aznavour. Conheci-o pequena ainda, pelo gosto da minha mãe. Lembro de imaginar que, com essa voz, falando francês, ele devia ser belíssimo. Minha mãe ria.
Descobri-lo pouco atraente para o meu gosto, porém, não diminuiu minha admiração pela sua voz e, com o tempo, fui ficando cada vez mais fã de suas composições e interpretações. Acabei viciando o Guto em ouvi-lo e, juntos, praticamente surrupiamos um CD que pertencia a minha mãe (mas fora eu mesma que presenteara, então…).
O vídeo com Charles cantando fala por si mesmo A letra e a tradução podem ser encontradas aqui. É nosso favorito. 

Fonte: Youtube


Vida de Zebra

A reação da zebra quando os leões atacam é correr. Porém, quando outra zebra tomba, ela para de correr e volta a pastar. A zebra só se preocupa quando é presa. Passado o perigo imediato, a zebra finge que os leões não estão ali.
A zebra também não reage quando alguém é assaltado ao lado dela. Ou agredido. E a zebra costuma fechar o vidro do carro para não olhar nos olhos das crianças que pedem no sinal. Vira o rosto para o mendigo na sarjeta, para a família que cata comida no lixo. As zebras acham que já fazem o bastante se preocupando com os seus.
A maioria das zebras não denuncia a violência contra os outros. Por vezes, calam mesmo quando elas próprias são as vítimas. As zebras tem medo. Não só que a violência aumente, mas também das mudanças. Das grandes e das pequenas. As zebras temem que as coisas deixem de ser como sempre foram. Porque quando as coisas são diferentes, é preciso ter um comportamento diferente. E as zebras tem muito medo de ter de deixar de agir como zebras. Estão tão identificadas em ser zebras, as coitadas.
Afinal, ser zebra é fácil. Basta saber qual a hora certa de correr e a hora certa (que é quase toda hora) de ignorar que os leões estão devorando alguém da sua espécie. Segue-se apenas duas regras. Não se olha nos olhos dos leões, para que eles não notem que há mais zebras por ali. E se vira o rosto para a zebra que caiu, assim, ela vai ter certeza de que não há outra zebra que possa chorar por ela.