Dia de bolo – Cenoura



Sábado é dia de bolo e os bolos sempre nascem em tardes de chuva. Há uma predileção nacional por bolo de cenouras, mas acho que é um dos lugares em que mais se exerce o estelionato culinário. Bolo em que cenoura só disse “oi” não merece o nome. É uma questão de cor. Bolo de cenoura não é amarelo é a-la-ran-já-do! É preferível um bolo que abatume de tanta cenoura que as coisas secas que se vendem nas cantinas escolares e que fazem a má fama de algo que, normalmente, é extraordinário!
Eu costumo fazer assim: 5 cenouras pequenas OU 3 médias OU 2 grandes. Sim! Tem que ter cenoura! Meia xícara de óleo e 3 ovos inteiros no liquidificador. O segredinho é colocar os líquidos antes da cenoura.
A linda massa a-la-ran-ja-da vai para uma tigela grande e, a meu ver, não há necessidade de sujar a batedeira. Uma xícara e meia de açúcar ou até menos, misturado com colher de pau. A civilização do açúcar descrita por Gilberto Freyre usa o condimento em demasia e acaba perdendo o sabor das outras coisas. Em tempo, cenoura já tem bastante açúcar.
A questão de se colocar o açúcar agora é que ele dessora um pouco a massa e a deixa pronta para receber a farinha sem empelotar. Vão 3 xícaras e mais uma colher grande de fermento.
Quer bancar o saudável só porque o bolo é de cenoura? Substitua uma das xícaras de farinha comum por farinha de trigo integral. O gosto não altera em nada. E, claro, esqueça aquela calda feita com 5 colheres de sopa de chocolate em pó, 2 de açúcar, 2 de água e 1 de margarina. Sabe? Aquela que quando seca, fica quebrando por cima, mas que penetra na massa se você a tiver furado com um palitinho… É! Esqueça a calda. Se puder.
Eu não esqueço nunca.


Risoto de quinta-feira

Para Augusto Maurer



Risoto de Pêras e Açafrão ao Vinho Branco


Numa sutileza da língua, residem, muitas vezes, enormes diferenças. Os franceses, apaixonados como são por comida, tratam com muita especialidade a diferença entre o gourmet (um gastrônomo) e um gourmant (um guloso, glutão, um amante do gosto, do sabor).
Classifico-me, sem qualquer dúvida, entre os segundos. E o sou de longa data. Minha mãe costumava dizer quando eu era pequena, que minha compleição magra (quando eu era criança) enganaria os incautos, pois meu apetite facilmente levaria meu sustentador à falência.

Como glutona, cheguei bem rápido à cozinha. Com três anos montava as saladas que iam à mesa e (e comia, afinal, eu tinha feito). Com oito aprendi a fazer bolos. Com treze inventava receitas. Tenho vontade de ter uma cozinha equipada e de um dia fazer um curso, até lá vou amando os sabores que passam pela minha vida, experimentando com apetite o normal e o diferente. Ora desfazendo preconceitos (sim, eu comi e apreciei escargots), ora os reafirmando (goiaba e maracujá me são impossíveis e eu o sinto muito).

O que me fascina na cozinha, porém, é a simplicidade que, muitas vezes, pode criar sabores extraordinários (merengue com raspas de limão, por exemplo). Adoro aquelas pessoas que abrem a geladeira e “do nada” criam maravilhas. É uma qualidade que ainda busco e que quer para o dia em que eu for “genti grandi”. Até lá, divido com vocês, os sabores que vou descobrindo com maior ou menor esforço.
Há um pé de pêra na chácara do meu pai. Fibrosas, um pouco duras, não muito doces. Minha comadre, que possuía a chácara antes do meu pai, costumava fervê-las em vinho tinto, açúcar e uma colher de mostarda amarela, até ficarem macias e a calda grossa. A mistura do picante com o doce sempre me pareceu extraordinária.
Em janeiro e fevereiro, a pereira fica carregada e pedi ao meu pai que me trouxesse algumas. Um cheiro delicado ficou na cozinha por três dias, até que resolvi cortá-las em cubos, sem as cascas. Refoguei cebola, para perfumar, com carne picada. Depois, as peras. Algumas mexidas e o arroz. Outras mexidas. Uma xícara de vinho branco – um colonial ou um riesling muito ácido não funcionarão, deixarão o prato muito forte. Optei por um chardonnay aberto há alguns dias. Duas xícaras de água, mais sal e alguns temperos que diferenciam cada cozinheiro. O toque especial (se precisa): meia colher de chá de curry. Depois, foi a feitura lenta e ritual de um risoto, que sempre me lembra uma bruxa (ou bruxo) com seu caldeirão. Um pouco antes de estar pronto, um golinho a mais de vinho, para que seu perfume não saísse totalmente na evaporação (um segredinho que aprendi com o marido descendente de italianos).
Eu achei que ficou fantástico. Mas é meu gosto. As especiarias do curry se colaram à pêra, deixando-a mais doce. As texturas brincaram com as ardências. O doce suave com o salgado. Simples e de dividir com o namorado.




Aaaaôôôôaaaahh

O acontecido foi naquele nosso ano no Rio de Janeiro. Afinal, onde mais pagaríamos tamanho mico? Só que para a história ter sentido, é preciso contar sobre nossa disposição no primeiro mês da imigração. Basicamente, éramos caipiras na cidade grande. Chegamos em março e tinham queimado ônibus até fevereiro. Entender socialmente os acontecimentos não diminuía o medo e aprendemos isso rápido. Além disso, havia aquele maldito jornal das 19h que parecia acreditar que jornalismo se faz com sangue! E eles o jogavam aos borbotões na tela.

         Depois de um mês aterrorizados, nos trancando em casa após o pôr do sol, cansamos. Desligamos a TV – que, aliás, nunca deveria ter sido ligada – e passamos a buscar a beleza que nos cercava. Seguindo a teoria da Curvatura da Vara, passamos a nos encantar com tudo. Era um restaurante que tínhamos descoberto em plena praça 15, era a vida que víamos das janelas do nosso apartamento, era a rotina de domingo com longas caminhadas na praia, tudo agora, tinha uma uma nova cor.
      Foi então que o notamos. Sempre perto do meio-dia, ele passava sob a nossa janela. A voz forte, melodiosa, remetia a outro época, outro mundo, mexia com nossas entranhas. Era um grito atávico, de beleza selvagem, indomada, resquício de um passado tribal que nos falava excepcionalmente alto.
          – Aaaaôôôaaahh!
          Aquilo era como um grito de guerra escalando andares até entrar impávido por nossa única janela. Um canto que reverberava, pleno de rebeldia contra a civilização, através do corredor de prédios da Nossa Senhora do Imenso Barulho de Copacabana.
          Passamos semanas imaginando seu cantor, especulando seus motivos. Era impossível distingui-lo da multidão, procurando-o do alto do sexto andar. Seria um artista de rua a chamar atenção sobre sua arte? Um professor de capoeira com um esdrúxulo chamado para sua classe a se reunir na praia? Um louco genial e incorrigível, a rir dos rostos chocados dos caminhantes cheios de pressa?
          – Aaaaôôôaaahh!
          O mistério foi solucionado numa manhã de feira. O Guto sempre curtiu fazer estas compras, das quais, eu fugia. Ele saiu tarde naquele dia e voltou já quase onze e meia.
          – Descobri o cantor – disse ao entrar em casa.
          – Sério?
          – É, é um vendedor.
          – E vende o que?
          – Vaaaassoooouraaaaa!

Mini-Contos de Fadas

Um pequeno divertimento meu.

Mini-contos de Fadas
1.
– Nossa, que pato feio. – Isso não é um pato, rapaz. É um cisne. – Ahh…
Nasce uma história.
2.
Uma hora de advertências. – E não saia sem sua capa!
Resmunga: – Humpf, se o lobo me atacar não vou precisar da capa.
3.
É só até a meia noite, mas não se preocupe, querida. Fiz o sapato um número maior para você poder dançar bastante.
4.
Sinal dos tempos
– Quer provar uma maçã, querida?
– Obrigada, vovó, mas não como frutas sem lavar.
5.
– Pai, se eu fosse um boneco de madeira, você brincava comigo?
6.
Ursinho choraminga:
– Papai, tem uma loira deitada na minha cama.
– Não seja luxento, menino! A gente não reclama da comida.
7.
Dormir 100 anos? Ela pelo menos podia jogar a praga para depois que a menina tivesse filhos.
8.
Os sapos serenateavam no brejo ao lado do convento.
Ainda assim, as freiras nunca descobriram com quem fugiam suas noviças.
9.
Ah, qual é? Cada porquinho mora em um lugar? O que é isso? Entraram no programa Minha casa, minha vida?
10.
Candelabro comenta com o Bule:
– A Fera está tão calma. Bela está fazendo bem a ele.
– É. E o Lexotan que eu ponho no chá também.
11.
– Lindo cabelo, menina! E tão comprido, nossa! É loiro natural?
– É sim.
– Quer vender?
12.
Essa casa de chocolate até é legal, mas se é para atrair crianças, sem TV a cabo, vídeo-game e internet isso aqui não tem futuro não, vovó.
 Já publicados no blog Pink Side

Luz Acesa

            

         Uma lufada de maresia destemperou o cheiro do ensopado. Mercedes desligou o fogo pela terceira vez e foi com pressa até a janela ver se Amaro vinha chegando. Onze e meia e nada. Vasculhou os cantos escuros da rua e achou ter visto a sombra de um navio grande no cais. Deviam ter ficado descarregando até mais tarde, por isso o atraso. Amaro ia chegar morrendo de fome, pensou enquanto voltava a mexer o ensopado. Pôs uma colherada na boca. Estava mais salgado que o que ela requentara ontem e que agora transbordava na tigela do gato. Tornou a espiar a janela e a fechou para abafar o cheiro da rua. Tinha dias em que ar recendendo a peixe que passeava pelas ruas próximas ao porto lhe embrulhava o estômago. Sentou em frente à porta segurando uma camisa descosturada que pegou para ocupar as mãos. Mercedes cuidava cada estalo da madeira como um anúncio de que o trinco já ia girar.
           Quando o relógio, que tinha em cima do balcão, marcou meia-noite, ela achou que ele não viria mais. De certo estava tão cansado que dormiu, pensou enquanto guardava o ensopado já frio na frigider azul. De vez em quando, Amaro não vinha dormir em casa, mas nunca tinha passado tantos dias sem aparecer. Pôs a camisola, deitou-se e pegou a Bíblia. Leu uns pedaços com dificuldade e acabou indo rezar um terço. Uma pancada na porta a jogou fora da cama como se fosse de mola. Chamou duas vezes pelo nome do marido, sem resposta. Abriu uma fresta calçando a entrada com o próprio corpo. A luz amarela que ficava na frente iluminava uma mulherzinha morena que sorria meio sem graça.

            – A senhora me desculpe a hora. É a dona Mercedes?
            A outra confirmou, mas não se afastou da porta nem ampliou a abertura.
            – A senhora não me conhece. Eu me chamo Rosa.
            Mercedes assentiu se dando conta de quem era. Ia perguntar o que ela queria, quem sabe o Amaro tivesse adoecido ou bebido demais depois do serviço, mas a baixinha não lhe deu tempo. Começou a falar aos borbotões, muito nervosa, parecia até que tinha decorado as palavras.
            – Eu sei que a senhora talvez não queira falar comigo, mas faz três noites que eu não durmo. A senhora pode achar que é muita ousadia minha ir aqui assim, mas eu precisava de alguma notícia. Se estiver tudo bem, a senhora pode bater a porta na minha cara, que eu vou embora. Mas se aconteceu alguma coisa é só me dizer que eu também não incomodo mais.
            Três noites repetiu Mercedes mentalmente. Fazia três noites que ela o esperava com a janta pronta e ia dormir com a luz da sala acesa, para que ele não chegasse no escuro. Num impulso, abriu a porta e mandou que a outra entrasse.
            Rosa, que não sabia o que fazer, entrou meio sem jeito. Achou que tinha que falar alguma coisa, mas como não sabia o que, ficou calada. A casa não era tão limpe e arrumada quanto Amaro dizia, mas era diferente. Vagueou os olhos pela sala que se separava da cozinha por uma cortina de contas de madeira. Tudo era tão azul. As paredes próximas demais tinham na pintura descascada uma cor intensa, algo que sufocava.
            – Senta – ordenou Mercedes.
            Rosa caiu na cadeira. De novo achou que devia dizer qualquer palavra, mas quando tentou falar viu que começaria a gaguejar e ia levar muito tempo para a outra entendê-la. Mercedes sentou-se à sua frente e passou a olhá-la até que Rosa desejasse ser engolida pelo assoalho.
            – Ele te trata bem?
            Rosa quase pulou, não esperava uma pergunta dessas. Abriu a boca, mas a voz empacou. Mercedes levantou e acendeu  fogo sob o bule de latão. Pegou uma xícara do armário, pôs açúcar e ofereceu a outra com o café requentado. Rosa quis agradecer, mas Mercedes repetiu a pergunta antes que ela articulasse alguma coisa. Era uma curiosidade estranha, mas não sem sentido, pelo menos, não entre mulheres. Uma cumplicidade às avessas pedia que Rosa falasse. Bebeu do café e começou bem devagar para não se atrapalhar nas palavras. Tentou observar o rosto de Mercedes, porém, acabou baixando os olhos para a xícara quente entre as mãos.
            – Ele é bem bom comigo. Quero dizer, ele não é muito de conversa, mas nunca deixou que me faltasse nada. De vez em quando, ele até me traz uns presentinhos e, quando pode, a gente sai para passear. Não por estas bandas, é claro – juntou rápido para a outra não achar que ela lhe faltava com o respeito. Mercedes ouvia sem expressão, mas Rosa achou que ela ia chorar. – Bom, isso quando ele não bebe. É, porque tem vezes que ele sai da estiva e vai para o boteco e teve dia que ele acabou dormindo por lá, isto é, lá em casa.
            Deu um sorriso enviesado pedindo desculpas. Mercedes continuava a olhá-la. Sempre achou que fosse muito mais bonita e nova, pelo que ouvia dizer. Mas Rosa era dessas mulheres de idade indefinida, quase como ela própria, porém não tinha rugas nos lábios, nem aquele jeito cansado de falar.
            – Ele te bate? – perguntou de chofre.
            – De vez em quando. – Rosa apertava os dentes. – Já disse que quando ele bebe, ele fica meio desnorteado. O pobre trabalha tanto, eu dou um desconto, sabe? E homem é assim mesmo, não é? Quero dizer, a gente aceita porque precisa de um macho em casa, alguém que imponha respeito. A senhora entende, não é?
            Rosa caiu em si nas últimas palavras. Era muita ousadia perguntar aquilo. Afinal, era a mulher dele, a mulher de verdade. Podia até ter vontade de bater nela por dizer aquelas coisas. O pensamento foi cortado por outro. Será que ela apanhava também? Devia, senão não havia de ter perguntado. Rosa largou a xícara sobre a mesa de pernas finas que ficava no centro da sala, alisou a toalhinha de plástico que imitava crochê e agarrou a bolsa como quem já ia levantar, mas Mercedes perguntou se ela queria mais café.
            – Não, muito obrigada. Eu nem mesmo devia ter vindo incomodar a senhora numa hora dessas. Aliás, acho que é melhor eu ir, o Amaro vai chegar e não vai gostar de me ver aqui.
            – E se ele não vier? Se ele não voltar para casa, nem para a minha, nem para a sua? – Mercedes levantou e caminhou até o armário de fórmica sem esperar resposta. Estava com pena da outra. Para si mesma sempre restava um certo respeito, desse que se tem pelas mulheres de família, independentes da situação em que se encontram. – Eu tenho um filho, sabe? Ele está sumido no mundo faz um tempo. Mas, de vez em quando me manda notícias, só não quer saber do pai, de jeito nenhum.
            – É – Rosa ficou com os olhos parados – eu entendo ele. Também briguei com o meu pai. Só que a minha mãe nunca mais falou comigo, ela disse que eu devia morrer.
            – Que coisa horrível! Não se diz isso a um filho, nunca.
            Rosa suspirou. Era assim mesmo, que se havia de fazer? Mercedes voltou para a cadeira em que estivera sentada de frente para Rosa. Tinha nas mãos uma foto que entregou a outra. Rosa olhou o menino sorridente. Parecia com o pai, comentou. Era mais velho agora, não era? Bonito, bem bonito. Mercedes devia ter orgulho dele. Pena que estava longe. Rosa começou a chorar. Ela tentava a todo custo secar as lágrimas com as mangas do casaquinho de linha marrom.
            Mercedes esperou que ela se acalmasse e, pela primeira vez, teve raiva dela, quase a mandou calar a boca, mas ficou quieta. Talvez devesse chorar também, só que as lágrimas não vieram. Olhou para a fotografia do filho, que a outra lhe devolvera, e pensou que devia ser bom poder ir embora, ter outra casa, qualquer lugar para ficar quando a comida estivesse ruim ou a cama fria ou simplesmente estivesse cansada. Uma sirene ao longe fez com que ambas emergissem os olhos, que voltaram a se encontrar. Rosa levantou-se de um salto secando o nariz e disse que ia embora. Na porta agradeceu pedindo desculpas por qualquer coisa. Mercedes destrancou a fechadura e saiu com ela para a rua gelada. Tinha uma última questão com a outra.
            – Rosa, você podia ter ido embora ou expulsado ele. Talvez, até te aparecesse coisa melhor.
            – É. Eu sei – ela respondeu apertando o casaquinho junto ao pescoço. – Mas é que eu gosto dele, sabe?
            Deu um meio sorriso e partiu. Mercedes entrou logo, por causa do frio. A casa sufocava-a, apertando-a por dentro. Trancou a porta e antes de se deitar apagou a luz da sala.



Merengue com limão

 
Não é o tempo ou a morte que contam na vida da saudade. É outro tipo de distância. A saudade nunca vem sozinha, ela vem circunstanciada das coisas que a envolvem. A saudade é um tipo de novelo enrolado sobre si mesmo e desenrolá-lo recria lembranças, que aumentam a saudade, dando lhe mais fio. Nunca vi uma saudade vir sozinha, sem companhia.
A que tenho da minha avó começa em seus últimos dias. Na presença quieta de quem ia esquecendo da vida. Ao passar dos 80, minha avó foi perdendo a memória recente. Ela começou a esquecer a si mesma pelos cantos, a por panelas sem tampa na geladeira, a carregar coisas que achava bonitas e brilhantes para um canto de tesouros que faziam o horror e o desespero da minha mãe, sua filha. Ainda assim, o abraço dela nunca endureceu, nem descarnou, continuou quente e bom, exatamente como eu lembrava.
E aí a saudade vai até minha avó andando pela casa dela, que era sempre fresca. Não me lembro da casa da minha avó nos dias de inverno, apenas do verão, quando o chão de lajotinhas virava um remanso de aconchego, regado com todos os mimos que uma criança comilona pode ganhar. Naqueles dias, eu dormia na cama dela e usava a camisola dela para brincar em cima da sua cama. Naqueles dias, dita minha saudade, minha avó era perfeita.
Mas é claro que as avós não o são. É o grande segredo que os pais guardam. Eles não nos contam o quanto elas são difíceis e reclamonas e o quanto, por vezes, se intrometem. Não nos contam que elas nem sempre amam todos os netos do mesmo jeito, mesmo que eu soubesse que era a preferida. Os pais são cúmplices desse amor de infância. Esse que vai dar fios e fios à nossa saudade. Os fios da minha tem sabor de merengue com limão, chá de mate gelado, abacate amassado com garfo e bolo de milho.
Então, me lembro que minha avó desaprendeu de cozinhar, e já errava o sal e a pimenta. E cansava de fazer. Lembro dela lendo mil vezes o rótulo da mesma caixa de cereal e comentando cada leitura como se fosse a primeira. Então me vinha à cabeça a moça semi-analfabeta que ela foi e o seu casamento infeliz, e que seu melhor momento esteve nesses tempos em que o esquecimento começou.
E, logo a saudade vira um sentir falta. Falta de um beijo que nunca mais virá. Um abraço que só avó dá. Um olhar que te faz criança, mesmo quando a criança já não é você. É o olhar dela. Da avó. 







 
 

Notas de um verão diluviano

Para Caminhante



Isso foi por volta de 2000 ou 2001, nossos primeiros anos com emprego e salário. A conta bonitinha de 13º e terço de férias dava vontade de realizar as viagens sonhadas que se encaixassem no orçamento. Tínhamos uma amiga em Curitiba e um convite. Eu vinha de anos com histórias do meu pai sobre a cidade, uma visita rápida – das que deixa com vontade de mais – e um passeio de folheto que tinha virado mito na minha cabeça: Curitiba-Paranaguá de trem, mais temporada na Ilha do Mel. Não foi difícil convencer o Guto, afinal, o que pode dar errado quando você reúne as palavras Ilha e Mel na mesma frase?
Os dois glutões que carregamos conosco e nunca deixamos em casa adoraram os restaurantes de Curitiba. Nem ficamos chateados com a chuva ou o fato de termos de colocar lã quando, em dois dias, iríamos para praia. A lã tinha tudo a ver com o bufê de queijos e o bom vinho.
Embarcamos num dia promissor. Tinha sol com nuvens claras, era de manhã cedo e a viagem começou com vistas da serra de tirar o fôlego. Uma hora depois tinha nuvens demais, porém cerração de manhã, no alto da serra, é de se esperar. Não reclamamos. Choveu.
Almoço em Morretes, depois viagem com sol e calor até Paranaguá e, mais sol e calor de lancha, pelo mangue, até a Ilha do Mel. 
Foi quando a lancha virou as costas.
Não, eu garanto, gostamos da ilha. Era selvagem, mas a gente ainda tinha idade para aventuras. A pousada era legal, a praia bonita, com água excepcionalmente quente. Como a população de turistas era formada quase somente por surfistas, a praia de enseada era vazia, ficava apenas para nós. Ou seja, ilha e mel.
O problema foi a claustrofobia.
No Guto veio como uma sensação de ansiedade e eu tive um ataque de rinite. Mas fomos bravos. Eu encarei a primeira noite sem respirar “quase” numa boa. Ele estava com insônia, então cuidar de mim e ver as notícias de uma rebelião monstro nos presídios de São Paulo, foi até… legal. Chovia.
Combinamos de ir embora na lancha das 9:00 do dia seguinte.
Só que na manhã seguinte tinha sol, eu respirava, o Guto dormira algumas horas. Sugeri aproveitarmos o dia e irmos na lancha das 17. Como o dia foi bom, pensamos em aguardar mais uma noite. Às 18 horas começou a chuva, ficamos ilhados no quarto. Eu sem respirar, o Guto ansioso, os dois com fome.
O dia seguinte foi igual e nós, por insistência, agimos do mesmo jeito. Realmente lutamos pela Ilha do Mel. Então, minha alergia atingiu a pele. Sem respirar. Coçando inteira e com o marido sem dormir, passando as noites ilhados e, para comer, tínhamos de ir até um bar com água pelos joelhos.
Voltamos no terceiro dia.
A sim, chovia em Curitiba, claro. Mas dava para vestir roupas quentes e ir a uma farmácia. Resolvemos aproveitar a cidade.
Era o nosso 5° dia. Amanheceu quente e claro. Vestimos roupas confortáveis e frescas e fomos passear. Às 10 da manhã já se declarava a eterna previsão do tempo da cidade: já vai chover. Precisamente às 16 horas desabou o mundo. Não tenho nada contra água, mas a temperatura baixou uns 15° também. Precisamos buscar refúgio em um shopping. Tive de entrar em uma loja e pelar um manequim que, felizmente, já se vestia para o outono. Sequei meus chinelinhos com papel higiênico e massageei os pés para aquecê-los.
Mas, TUDO BEM. Estávamos em férias. Tirei minha cara de infeliz, coloquei na bolsa e saí do banheiro pronta para aproveitar o que podia dentro de um shopping.
– Que tal cinema? – sugeri.
– Ótimo – respondeu o Guto.
– Vamos ver o que? – perguntei.
– Humm – pensou ele, olhando os cartazes do cinema. – Eu queria ver O Náufrago.
Cogitei assassinato por 0,0000001 segundo. Felizmente, o Guto se deu conta e sugeriu rapidamente Chocolate, Juliette Binoche, Jonny Depp e paisagens secas do sul da França.



Excertos do Livro de Judite

O Livro de Judite é um projeto muito antigo que por quase uma década buscou seu tom narrativo. Não creio que ele o tenha encontrado ainda. Contudo, é uma história inteira, completa, que, muito provavelmente, só virá à luz aos poucos, meio aos pedaços. Talvez porque isso venha calhar à natureza da velha Judite. Talvez porque esta história queira chegar à palavra escrita assim. Não posso afirmar. Há muito deixei de controlar meus personagens, já parei de brigar com isso. A jovem Judite deste conto nasceu após um ano de leituras acadêmicas do obrigatório Simões Lopes Neto, daí o tom regionalista.
 
 
 
 
Excertos do Livro de Judite
 – O Baile de Debutantes –
  
Nikelen Witter
 
                Ih, meu filho, isso começou faz tempo. Naquela época, a Judite era a moça mais linda que havia por estas bandas. Linda sim. Tinha uns 15 anos e os homem daqui era tudo louco por ela. Coronelzinho Afonso inclusive. E ela? Ah, ela era faceira, claro, mas o povo falava bem mais do que era.
                Eu, que conheci a Judite meninota, posso dizer que ela sempre foi é muito trabalhadeira, isso sim. Claro que tinha riso fácil, mas você sabe como o povo é. Ninguém achava que era direito uma menina tão bonita, pobre, sem pai, com uma mãe daquelas, rir e sorrir tanto. Não podia ser decente, então, falava.
                Lembro que o velho Coronel Amarildo Teixeira Neves – que nunca gostou dos encanto do filho por ela – sempre defendeu. Ele era o primeiro a dizer que era tudo maldade do povo e nunca deixou de chamar a Judite e a mãe dela quando tinha rodeio de marcar rês nas terra dele.

                O que elas faziam? Ah, esse era outro problema. A Judite sempre foi campeira, desde petitinha. Trabalhava junto com os homem e igual dum. Não se queixava, não fazia corpo mole, nem se fazia, bem, de moça, sabe? Pegava junto. Montava, laçava, ajudava a segurar a rês e não tinha medo de por o ferro no bicho. Ninguém podia falar nada dela trabalhando. Mas, vê lá! Aquela moça novinha e linda, linda, trabalhando com os homem… Ih! As mulher ficavam tudo alvoroçada. Mas, claro, ninguém tinha coragem de dizer palavra que a mãe dela pudesse ouvir. A comadre ia nos rodeio para ajudar na cozinha.
                Qual o problema com a mãe da Judite? Ora, menino! Como se tu não pudesse imaginar. Rã! –  – Todo mundo dizia que a comadre era bruxa.
                Sabe como é? Uma história aqui, outra ali. Sempre no diz-que-diz-que, mas quem é que ia arriscar? Todo mundo morria de medo dessas coisa. Eu cheguei a ver mulher fazendo o sinal da cruz pelas costas dela. Vi sim. Ah, eu defendia, claro, era minha comadre. Ajudou no parto de três dos meus e tudo cresceu bem. Os dois que ela não ajudou, goraram. Os meus anjinhos. Um foi na noite que nasceu. O outro teve febre no primeiro verão e se finou. Se a comadre já andasse por aqui, talvez, eu ainda tivesse os meus dois…
                Ah sim, sim, a história, claro, claro. Pois foi assim:
                O povo da vila inventou de fazer um baile de debutante. Tinha umas quantas meninas-moça por lá e alguém tinha dito que era assim que se fazia na capital. Sabe? Um baile para apresentar as menina para a sociedade.
                Pois bem, tanto se falou, tanto se fez, que até o Cel. Amarildo se empolgou. Mandou vir as sobrinhas que moravam no litoral para debutarem, encomendou uma fatiota das mais finas para o Coronelzinho Afonso, deu três rês inteiras para o churrasco, mais não sei quantos leitões e lembro de dizer que podiam vir pegar ovelha de carreta que ele dava. O homem abriu as burras.
               A gente ficava vendo a movimentação dos rico e achando bonito. Eu até tinha combinado de ir ver a entrada do baile, só para ver as roupa. Então, um dia, a comadre me disse:
                – A Judite só fala nesse tal baile.
                Fiquei cabreira. Disse que o baile só ia ter gente fina. A comadre, que Deus a tenha, é preciso que se diga: nunca foi mulher de se apequenar (tinha gente que se incomodava mais com isso que com a fama de bruxa dela). Ela deu de ombro entre uma tragada e outra de palheiro e disse que fina a filha dela também era, só não sabia é se ia conseguir vestido.
                Eu acabei ficando quieta, mas pensei que vestido não era o caso. Pensei que, tá que a Judite era vistosa que só ela e isso ninguém discutia, mas será que iam deixar debutar com as outra menina branca? Com aquela cara de bugrinha que ninguém sabia quem era o pai? Mas, fiquei quieta. Longe de mim, aborrecer a comadre. Nem iam conseguir o vestido. Agarrei e deixei.
                Claro, claro que conseguiram o vestido. Capaz que não. A pobre menina se esfalfou trabalhando como uma condenada. Se deixassem, era capaz de falquejar moirão. Na época, uns tempos depois, é claro, se falou besteira sobre o que ela tinha feito para conseguir o dinheiro do vestido, mas eu te garanto, foi trabalho, trabalho mesmo.
                Bom, como eu ia dizendo, chegou os dia do baile e a irmã do Coronel Amarildo veio do litoral com as filhas pelo trem. O marido dela não pode vir, mas também não ia deixar elas viajarem sozinha, aí ele mandou junto um capitão do exército do Imperador que, diziam, estava quase noivo duma das menina. Nem lembro a cara do tal, mas era vistoso, com aquela farda e tudo mais. As moça andavam a virar os olhos só por saber que ele ia ao baile para fazer par para as sobrinhas do Cel. Amarildo.
                Pois então, no dia do tal baile, a comadre me chamou na casa dela. Cheguei e dei de cara com a Judite num vestido branco, mais feliz que padre em final de quermesse. A custo a gente conseguiu que ela ficasse quieta para se pentear e arrumar. Nem preciso dizer que a menina parecia um sonho quando a gente terminou. A comadre envergou o vestido melhor – que era um preto de estampa miudinha, que ela usava em missa, enterro e festa na casa de parente – pôs a menina na charrete e se foi com ela para a cidade. O que se sucedeu depois, eu não vi, mas ouvi contar tantas e tantas vez que foi como se tivesse vivido junto.
                Diz que quando a comadre e a Judite chegaram, o povo já dançava. Tava as moça lá, tudo rodopiando com os pai e os par delas. O Cel. Amarildo estava com uma das sobrinhas e o Coronelzinho Afonso com a outra prima, de mode que o tal capitão tava solteiro. Me contaram que assim que ele viu a Judite entrar, linda de vestido branco e sem homem para acompanhar, atravessou o salão e foi bater continência pra mãe dela. Não deu instante e os dois já iam na valsa junto com os outro. O capitão todo galã e a Judite se sorrindo mais que nunca.
                Me pergunte se tudo ia ficar bem caso o ocorrido não tivesse ocorrido? Não sei. Como se há de saber? O que eu sabia é que as gralha das mulher daqui não iam deixar barato toda aquela ousadia. Nenhuma ia bater de frente com a comadre, claro. Mas correram tudo a envenenar a irmã do Cel. Amarildo que tava lá sentada, bem quieta sem saber de nada. Nem me pergunte o que disseram, mas foi o suficiente pra mulherzinha subir nos tamanco e mandar a banda parar de tocar. Ela foi até o meio do salão, onde a Judite tava e começou a desaforar a menina. Disse que aquilo era baile de moça e não rendevous de chinaredo. Que não queria as filha dela dançando em salão com uma tipa de má fama como ela e por aí foi. Um horror. Imagine o choque de quem viu e tava de fora? O tal capitão, diz que só pedia calma, mas mal se mexia. E a mulherzinha não parava de falar. A Judite? Minha nossa. Acha que ela já sabia se defender naquela época? Sabia nada. Começou a chorar baixinho, sem conseguir retrucar. Isso foi assim até que um urro varreu o salão.
                Dizem que foi urro. Não sei. Só sei que meteu medo o suficiente para a irmã do Coronel calar a boca e todo o resto do povo olhar para da onde o urro vinha. A comadre traçou uma reta até a filha, pegou da mão dela e a passou para trás do corpo como só mãe furiosa faz para defender a cria. Dizem que tinha um ódio no olhar que virou provérbio por aqui. Ela escarrou e bateu com o pé três vez no chão sem parar de olhar para a irmã do Coronel.
                – Isso aqui começou em festa e vai acaba em tragédia!
           Ush, menino, só em falar eu já me arrepio. Que coisa! Te esconjuro. Valha-me Nossa Senhora.
               Mas foi assim. A comadre arrastou a Judite para fora do baile e ninguém foi atrás, nem o coronelzinho Afonso, porque o pai olhou feio para ele. O Cel. Amarildo resolveu, então, por panos quentes. Mandou a banda seguir, disse para o povo comer, liberou quase toda a bebida que tinha de uma única vez. A ordem dele era o povo se divertir e ninguém desobedecia o Cel. Amarildo. Diz que o baile seguiu bem bom até perto da meia-noite. Então, começou uma confusão num canto, ninguém sabe muito bem como, mas quando declarou, estavam o capitão e o coronelzinho Afonso se atracando e abrindo espaço no meio dos dançarino.
               Foi briga feia. Briga de faca. Teve vestido de moça manchado e o salão lavou em sangue. Me disseram que o Cel. Amarildo chegou a engatilhar o revolver, mas que demorou. Talvez tenha ficado pensando se atirava prá cima ou no capitão, mas, em todos caso, ia desmoralizar o filho. Talvez, tenha achado que, num momento, um dos dois ia se render e aí ficava só como briga de moço. E eu nem sei se teve tempo de pensar tudo isso.
           O que sei é que o capitão lutava bem, mas era todo galã, confiante, acabou abrindo a guarda e o coronelzinho Afonso rasgou a garganta dele de fora a fora. A faca nem bem tinha saído da carne do homem e a prima que era quase noiva correu para o meio da briga. A faca ainda tava no ar, no círculo da luta. Ah menino, uma judiação. Lá tava o tal capitão, morto, estendido no chão. A moça com um talho horroroso no rosto. Uma tragédia. Coronelzinho teve que fugir para não ser preso, mesmo sendo filho de quem era. Levou uns dois anos para voltar e teve de responder processo.
              Foi bem assim que aconteceu. Cada palavra. E esse, dizem, foi o primeiro homem que o Afonso matou por causa da Judite.
               Só o primeiro.