Caso Mayara: do que estamos falando quando falamos de Cultura do Estupro?

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*Este texto foi anteriormente publicado no jornal Diário de Santa Maria, em 04/06/2016

O termo cultura do estupro ganhou notoriedade na última semana. Invadiu redes sociais, memes e “textões”. Não faltou quem explicasse, mas também faltou quem não compreendesse. Ou, mesmo compreendendo, não conseguisse visualizar o tamanho do problema. Essa incompreensão não diz respeito a qualquer incapacidade, demérito pessoal ou dificuldade cognitiva. De fato, ela é uma parte fundamental da questão.

Cultura do Estupro é um conceito cunhado nos anos 1970 pelo feminismo norte-americano (Rape Culture). Basicamente, apontava a tendência massiva da sociedade em culpar a vítima e tornar “natural” a violência masculina. Não foram poucos os críticos que, mesmo reconhecendo essa tendência social, negaram que ela fizesse parte ou pudesse ser nomeada como uma cultura. Esses mesmos críticos, embora reconhecendo o fenômeno do estupro, não se cansaram em demonstrar que tal violência foi sempre rechaçada e, portanto, não poderia ser considerada uma “cultura”. Falemos sobre isso.

Em primeiro lugar, é necessário deixar claro com qual conceito de cultura estamos lidando. Embora englobe e se expresse no que conhecemos como produção cultural, a cultura a que nos referimos tem um sentido mais amplo. Estamos aludindo às bases estruturais e naturalizadas de nossa sociedade, por isso mesmo, quase invisíveis, difíceis de serem percebidas. Tais bases informam não somente nossas atitudes diante do crime de estupro, mas nossa fala cotidiana, a forma como criamos nossas filhas e filhos, nosso comportamento na rua, na escola, no grupo de amigos (dentro e fora do Whatsapp).

Logo, perceber a cultura do estupro como algo real acaba por levar a uma completa revisão de coisas que estão muito além do fato do estupro em si. Envolve rever nossos parâmetros e o que parece comum em nosso dia-a-dia.

É natural que digamos às nossas filhas que não voltem tarde, nem sozinhas. É normal que nos orgulhemos de filhos pegadores e repitamos que, afinal, eles não engravidam. É comum que digamos a nossas filhas que se cuidem, que se preservem, que se deem valor. Dizemos as nossas meninas que o fulaninho da escola, que lhe bateu, mordeu, xingou, puxou seu cabelo, na verdade, gosta dela. Ensinamos nossas meninas a tolerar o abuso e a violência porque é próprio dos meninos. Ensinamos nossos meninos que eles somente serão aceitos como “meninos de verdade” se forem violentos, desregrados, indisciplinados, selvagens, pois “é isso que os homens são”.

A cultura nos antecede e estamos imersos nela, contudo ela não é sempre a mesma e nem é uma mera capa dos impulsos biológicos. Pelo contrário, é ela que os molda. Por conta disso, muitos elementos de nosso comportamento foram se alterando ao longo da História, outros, porém, permanecem. No caso da relação entre os gêneros feminino e masculino podemos notar tanto elementos de continuidade como de ruptura.

Em termos legislativos, a imensa maioria das sociedades do passado dedicou um momento para debater e legislar sobre o lugar das mulheres na sociedade. Inúmeras leis foram promulgadas para negar o espaço público às mulheres, durante muito tempo. Ora, se são necessárias leis é porque elas precisam coibir comportamentos que existem, quando as leis cessam de existir é porque o comportamento que ela proibia não mais ocorre. Hoje, precisamos fazer leis que garantam às mulheres o espaço público e, pior, desconsideramos a História ao dizer que, podendo ocupá-lo, elas não o ocupam por que não querem.

Esse é somente um dos inúmeros exemplos. Podemos falar de outro em que encontramos uma ruptura significativa, a que diz respeito à sexualidade feminina. Até meados da época Moderna (considerando aqui apenas a história europeia), as mulheres eram descritas como loucas por sexo, insaciáveis e perigosas. Logo, o estupro teria um papel didático ao submeter as características demoníacas de todas as mulheres.

Os avanços nos modelos de controle social nos séculos XVIII e XIX abriram espaço a um novo olhar sobre as mulheres. Agora, passa a haver dois tipos: as perdidas e as puras. Essas últimas não gostavam do sexo, se submetiam a ele como um favor aos homens, à reprodução e a ordem bíblica de procriar.  Se, dentre as que deviam ser puras, encontrávamos alguma dissonante, esta era inscrito no rótulo da anormalidade: a histérica, a louca. Nos dois casos, forçar o sexo não era um problema. As primeiras deviam respeitar as necessidades masculinas. As segundas poderiam ser curadas de seus males.

Durante o século XX, as mulheres lutaram para voltar a ter o controle de sua sexualidade, o que lhes fora negado por séculos, tanto na sua descrição de insaciáveis, como na sua descrição de recato e repulsa ao sexo. Contudo, a ruptura foi apenas parcial. A cultura que informava todo o resto da sociedade e seu olhar sobre as mulheres, mudou a roupagem, mas não a essência.

E qual seria essa essência? Esse ponto cultural que não conseguimos visualizar nitidamente? O controle. Essa é a questão. O controle dos comportamentos femininos. O controle sobre seus corpos, suas vontades. A cultura do estupro é a cultura do medo. Todas as mulheres são criadas para ter medo. Elas podem ser as próximas e por mais que se comportem, obedeçam, façam tudo “direitinho”, pode acontecer com elas também. Dizemos isso o tempo todo.

Quando perguntamos sobre as roupas das vítimas, seus horários, comportamento prévio, etc., dizemos as nossas meninas: viram, se vocês forem comportadas e obedientes isso não lhes acontecerá. E, se acontecer (e acontece), seremos os primeiros a lhes perguntar o que elas fizeram? Como se colocaram naquela situação? Como foram confiar naquele rapaz específico? Aquele rapaz que pode ser o namorado, noivo, marido, pai, avô!

A cultura do estupro nada tem a ver com sexo, embora um de seus objetos seja o controle da sexualidade feminina. A cultura do estupro tem a ver com Poder. E com Medo. Por isso ela não se restringe a um momento. Ela está em tudo. Está na arte, na propaganda, na literatura, na novela. Didaticamente organizada para autorizar os homens a exercerem poder – disfarçado de romantismo, impulso biológico, masculinidade incontrolável, macheza – e para as mulheres se dobrarem a esse poder – disfarçado de romantismo, amor eterno, glamour, proteção, cuidado.

Se, ainda assim, você acha que a cultura do estupro não existe, imagine um mundo diferente do nosso. Um mundo em que as mulheres não temem os homens. Mas, principalmente, imagine um mundo em que os homens não são qualquer tipo de ameaça a nenhuma mulher. Consegue imaginar?

Está na hora de falarmos sobre os uniformes escolares

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A questão dos uniformes das meninas na Educação Infantil e nas Séries Iniciais tem me incomodado desde o ano passado. Não estou falando do shortinho das meninas do Ensino Médio (apoiei). Os enfoques das questões são diferentes. Ou não.

Aqui, deixarei as meninas grandes que já fazem suas escolhas e me concentrarei nas pequenas, nas que ainda são vestidas pelas mães e pais. Meu incômodo vem com a seguinte pergunta: qual a necessidade do uniforme de meninas tão pequenas incluir saia? É bonitinho? É! Mas é igualmente restritivo dos movimentos, das atividades, do fato de ser criança. Para que serve colocar saia em uma menina que irá pular e correr? Para gritar e garantir a todos que ela é uma menina. Para lhe dizer: comporte-se! Sente direito! Feche essas pernas!

Ah, dirão alguns: as saias escolares de hoje têm shorts por baixo. Isso não é novidade. Eu colocava um short por baixo da minha saia de escola, mas a minha bunda continuava ali e os meninos continuavam levantando minha saia para provarem que eram machinhos. Devo ter adotado calças em tempo integral na escola pelos 8 ou 9 anos. Muito mais tranquilas para sentar no chão, correr, me embolar num canto qualquer lendo um livro.

E não são somente as saias. Já perceberam como são as bermudas? Tem as de menino: larguinhas, confortáveis. As da meninas são justas como as de ciclistas, enfatizam formas que as crianças não têm. Dizem sobre os corpos infantis o que não devem dizer. Aí, quando as meninas começam a crescer, as próprias escolas se outorgam o poder e a necessidade de dizer como elas devem se vestir, de coibir peças consideradas de pouco decoro, quando, de fato, as escolas participaram do movimento da sexualização infantil desde o início.

Haverá quem diga que por não ser mãe de menina, eu não devia me preocupar com isso. Sou educadora, sou feminista e estudei moda e identidade por dois anos. Creio que é suficiente para expressar meu incômodo e levantar esse ponto de debate. Se acha que este não e um ponto a questionar, digite no Google uniforme escolar de menina e veja o tipo de imagens que o buscador traz.

Devemos continuar a seguir uma tradição que em nada contribuiu para a educação das nossas meninas, que aprofunda as diferenças de gênero, que sexualiza corpos infantis? Ou devemos começar a questionar as escolas do porquê dessa escolha de peças? Não creio que as escolas saibam, apenas seguem o fluxo, atualizando continuamente um modelo de gênero que limita nossas garotas. Todos os dias.

Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre. Foto: Arquivo/AE Pasta: 46669

Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre.
Foto: Arquivo/AE
Pasta: 46669

 

Já ouvi falar de Moda do Bem?

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Durante os últimos dois anos ministrei disciplinas no curso de Tecnólogo em Design de Moda. Trabalhei com duas matérias: História da Moda e Moda, Cultura e Sociedade. Em ambas pude desenvolver, com as turmas com as quais trabalhei, excelentes debates. Seguindo a orientação do curso, marcamos junt@s a necessidade de se desenvolver produtos de moda com características inclusivas, sustentáveis e que valorizem os produtores e trabalhadores locais.

images (15)De minha parte, investi bastante para que tod@s percebessem que: 1) o vestuário é apenas a parte mais visível da moda e que ela envolve desde o nosso gestual, até o uso que fazemos das palavras. 2) Que a moda (esse fenômeno histórico-social do ocidente nascido em fins da época medieval) é, acima de tudo, política. E, por ser política, é ao mesmo tempo definidora e restritiva. A moda define gênero, classe social, etnia, religião. Ao mesmo tempo, ela restringe igualmente o gênero ao binário, as mudanças de classe social, impõe os limites entre religiões e etnias.

Cada item de moda tem uma história conectada não apenas com sua origem, mas também com as diferentes apropriações, recriações, sobrevivências e rupturas. Nossos usos disso são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. São objetivos e subjetivos. Conscientes e inconscientes. Ninguém usa a moda exatamente como ela é proposta, nós a elaboramos de acordo com nossas necessidades, vontades, desejos (desde o que entendemos, até os que não conseguimos definir).

images (14)Parece incrível que a moda esteja em tantos níveis ao mesmo tempo, mas ela está. Isso não nos torna vítimas. Somos colaboradores mais ou menos engajados, estamos imersos em suas características de produção, distribuição, mercado, consumo. Até mesmo quem acha que está fora de tudo isso, não está, como brilhantemente explica Miranda Priestley em O Diabo veste Prada.

Tudo isso se torna mais complicado quando se toma consciência de que a industria responsável pela nossa vestimenta é uma das mais cruéis, poluidoras, desrespeitosa dos direitos trabalhistas e promovedora de escravidão moderna que se tem monitorado no mundo contemporâneo. Se quer uma mostra disso, não deixe de assistir o documentário The True Cost (o verdadeiro custo), disponível no Youtube e na Netflix.MV5BMTAwNzMyMDEyMTBeQTJeQWpwZ15BbWU4MDY2OTA5NDQx._V1_UY1200_CR90,0,630,1200_AL_
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É claro que é mais fácil entrar numa fast fashion da vida e tentar não lembrar que tem trabalhador explorado por trás da roupa de baixo preço e qualidade duvidosa que você compra. Aquela que vai 3 vezes à máquina e se desmancha, mas você não liga porque custou 20 reais. Esquecer que tem rio poluído e morto e crianças da idade do seu filho costurando em confecções insalubres do outro lado do mundo por centavos. Dá para esquecer sim. Dá para não lembrar.
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Mas também, dá para fazer melhor, sabe?
Um, dá para valorizar quem faz roupas perto de você. Dá para ir mais vezes ao brechó. Dá para trocar com @s amigues aquelas roupas que você já enjoou. Dá para comprar roupas de melhor qualidade para precisar comprar menos ao longo do tempo. Dá para comprar menos. E dá para se interessar e buscar empresas que respeitem seus trabalhadores e, por consequência, seus consumidores.
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Esse último, parece difícil, mas não é. Se você tem um smart phone, você pode baixar o aplicativo Moda Livre, o qual monitora 77 marcas e lhe informa quais são claramente comprometidas com a melhoria das condições de trabalho de seus operários. Sempre há um link para o site da empresa e algumas têm lojas virtuais que funcionam de forma excelente. Indo no site, você pode até se inteirar de outras preocupações da empresa, como por exemplo, o cuidado ecológico, com tingimentos e o uso de defensivos nas matérias primas (seu algodão e linho são plantados, logo, não esqueça que o veneno que vai à mesa também está em contato com a sua pele), como a Malwee.
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Outra dica, procure marcas perto de você que tenham a preocupação com uma produção inteirada com essas questões. E até com outras, como por exemplo, o feminismo, o antiracismo, a nerdice, etc. Sugiro a superfofa Toda Frida, a gaúcha Conceito Ada ou a Santamariense Criolando, de uma ex-aluna minha. Vá aos sites e explore um pouco. Meu bolso, meu guarda-roupas e minha consciência têm agradecido. Então, ficam as dicas para quem quiser aderir à moda do bem.
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Como criar um leitor

Um leitor em criação.

Um leitor em criação.

Apesar do título, este não é um post de autoajuda. Também não pretende seguir uma linha Mary Shelley de criação. É um post sobre experiência. Uma sucessão de tentativas mais ou menos bem sucedidas e ainda incompletas. Sobre uma experiência materna/paterna e não do lugar de educadores (disso, posso falar num outro momento).

Quando começamos a imaginar o Miguel, deixamos uma grande margem de liberdade. Fazíamos votos que ele herdasse algumas características fenotípicas, que tivesse algumas inclinações. Duas coisas, porém, resolvemos não dar tanta margem de liberdade. O time do coração (no caso do pai dele) e o fato de que não queríamos apenas um filho, a gente queria um leitor. E decidimos agir proativamente para isso.

Eu sei. Vai ter quem diga: “Ora, vocês dois são leitores, é claro que ele também será.” Bom, eu não acredito muito nesse tipo de lógica. Embora o exemplo seja importante, já vi muito pai/mãe leitores criar filhos que acham que livros servem para nivelar estantes. Então, sinceramente, achei que não deveria deixar margem ao acaso.

Antes mesmo de o Miguel nascer, estava preocupada em adquirir lentamente os livros que eu queria que o cercassem (inclusive, escrevi sobre isso aqui: A biblioteca do Miguel). Mas, decidi, não bastaria que ele apenas visse livros à sua volta, então, fui criando, meio desajeitada e meio planejadamente, algumas técnicas.

  1. O livro de banho. Os livros de banho são ótimos. Coloridos, de fácil manuseio, vão à qualquer lugar, são mordíveis, babáveis, podem coçar gengivas, serem desinfetados com álcool, alguns tem até barulho. Mais que brinquedos, se tornam parceiros. Companheiros que se pode folhar. Fiz ponto aqui.
  2. Livros com música. Usei muito para fazer o Miguel dormir. Folhava as páginas, mostrava as figuras coloridas, fazia tocar a música que eu cantava ou cantarolava o que vinha escrito na página. Por que? Associação: página, música nova e a minha voz. Sempre uma novidade. A cada página uma surpresa. Quantas vezes repeti cada livro? Infinitamente. Os pequenos amam repetição e eu dei toda a que o Miguel pediu. Só trocava quando ele cansava ou eu estava quase surtando com a musiquinha.

OBSERVAÇÃO: Alguém vai dizer: “que bom que você tinha tempo para fazer isso pelo seu filho”. Bom, falando claramente, acho que tempo ninguém tem. Eu abdiquei da minha hora de leitura, eu trabalhava até às 22 ou 23h da noite. Apenas, bem, como eu disse acima, meu projeto não era só um filho, era um leitor. Seguindo…

3. Livros com folhas cartonadas e barulho. Miguel tinha 1 ano e 6 meses quando me pediu o primeiro livro (sim, conto isso como vitória). A obra em questão tinha folhas acartonadas (aquelas mais grossas) e um botão azul que soltava o apito de um trem. Como sei que ele me pediu, se ele mal falava? Vimos o livro num dia e no outro ele me puxou para a loja dizendo piuí, foi até a prateleira, pegou o livro e abraçou. Eu achei eloquente. Tivemos um longa linhagem de livros sobre trens e caminhões e outros veículos nessa época.

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

4. Livros baratos. Pois é, sabem aqueles livros fininhos, que a gente compra em bando, custando cerca de 0,75 centavos (preço da época) e que tem contos de fadas tão mal adaptados que dá horror de ler? Pois é. Comprei uns quantos daquele e larguei nas mãos do guri. O objetivo era que no processo de refinar seu processo de apreensão e motricidade fina, eles o pudesse rasgar sem perigo de grande perda. O que eu fazia quando os livros apareciam rasgados? Um dramão. Dizia que ele tinha feito algo muito feio, fazia de conta que o livro chorava, fazia curativo com fita adesiva, embalava o livro e dizia que tudo ia ficar bem, fazia o Miguel pedir desculpas para o livro. Você dava um livro só para poder passar um pito no seu filho? Exatamente. Pergunte hoje o que ele acha de livros rasgados, queimados ou proibidos, vai pergunte!

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

5. Livros Brinquedos. Esse tipo de livro foi um desafio. Para mim, não para ele. Eu sabia o que o estava atraindo e sei que muitos pais se enganam nessa fase. Dizem ele/ela adora livros, quando na verdade as crianças não estão nem aí para as letras ou a história, mas apenas para o brinquedinho que vem junto. O que ocorre é que o entendimento do livro como brinquedos, faz com que muitas crianças abandonem ambos quando começam a transicionar para outros interesses. Eu sempre fazia questão de ler as histórias. Quando o Miguel não se interessava por elas, em algum momento iria ouvir-me cortar algum tipo de privilégio ligado ao consumo. Por outro lado, encarei como uma fase, depois de um tempo, passei a dizer que ele somente ganharia o livro se me mostrasse a história e que os livros com brinquedos eram para bebezinhos (não me olhe assim, não há jogo limpo quando se cria um leitor).

Por outro lado, os livros também podem “ser” brinquedos. Veja o vídeo abaixo.

Cuidado!… Cuidado!!

O FATO É QUE: Encher a casa de livros não adianta nada se você não lê… com ele/ela (falo das crianças).

6. Lendo com as crianças. Por algum tempo estudei a História da Leitura, mas não precisaria disso para saber que durante cerca de 98% da nossa história, a esmagadora maioria da humanidade foi completamente analfabeta, iletrada, esteve longe das letras e dos livros. Ainda assim, as pessoas contavam e sabiam histórias. Quando os níveis de leitura começam a crescer no século XIX não se está falando apenas de maiores níveis de alfabetização, mas também do que viemos a chamar de leitura partilhada. O fato de alguém não estar alfabetizado não o impede de ser um leitor, desde que a leitura seja compartilhada. Não basta pegar um livro na beira da cama da criança e ir contando com base nas figurinhas ou do que você lembra da História de João e o Pé de Feijão. A leitura partilhada é ler. Prestar atenção ao texto, às linhas, aos parágrafos, ao ritmo de cada página. Perceber o que desperta a criança, o que a embala, o que a entedia. É uma troca. É envolver a criança no texto e conversar com ela sobre ele.

Nessa fase, marquei meu primeiro ponto lendo Branca de Neve para o Miguel. No meio da história ele me faz parar a leitura e comenta: “são folgados esses anõezinhos, hein?” Por que? “Ora, mãe, você me disse que eles não são crianças, mas eles querem que a Branca de Neve faça tudo para eles”.

Hoje, contabilizo mais pontos. Leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolates (duas vezes em sequencia); Charlie e o Elevador de Vidro; toda a coleção do Capitão Cueca (12 livros, recomendo); os 7 volumes de Harry Potter; O feiticeiro de Terramar (da Úrsula Le Guin); O bom Gigante amigo; Matilda (Roald Dahl é sucesso absoluto, estamos esperando As Bruxas)…

Agora, ele começa a ler no ritmo dele, está descobrindo HQs, mas mantém os livros na leitura partilhada, vendo neles também uma fase de aprendizagem. “Logo vou ler esses sozinho, não é mãe?”  É.

All male…

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Congrats, you have all male panel

Olhando o gabinete do interino (letras minúsculas), lembrei de um capítulo que estudei com meus alunos de História Contemporânea II. Não é a primeira vez que uso, mas foi a última. O capítulo trata sobre a cultura nos anos do entre-guerras. Não se trata de um texto analítico, mas informativo. Coloca os principais acontecimentos e faz umas extensas listas de criadores culturais. Listas por si só podem ser complicadas, no entanto, listas em que apenas figuram homens quando se trata de criação (cultural, tecnológica, política) tendem a ser muito mais problemática.

Pode-se argumentar que quando tal capítulo foi escrito, não havia patrulhas feministas rondando armadas a selvas da internet. Bem, o livro foi publicado nesse século, eu não vejo escusas para um historiador não se dar conta de que na sua lista só há homens.

Mas o fato é que isso está naturalizado. Tão naturalizado que eu mesma só me dei conta esse ano e terei de achar outro texto para colocar no lugar quando repetir a matéria, pelo simples fato de que não, não é mais aceitável que naturalizemos uma cultura primordialmente masculina. Até porque, pasme(!), as mulheres existem, existiram, criam e criaram cultura, não foram somente estrelas de cinema. Não tivemos apenas Virginia Woolf, a única mulher que, ao que parece, alcançou o status de ter de ser obrigatoriamente citada. Mas, com todo o seu brilhantismo, ela foi uma, não a única.

Então, assim como me incomodou o texto, o ministério me incomodou sobremaneira. Uma pena não poder trocá-lo como farei com o texto. Mas, pensando contra mim mesma, perguntei-me se me incomodaria um ministério só de mulheres. Respondi-me que não. Seria uma novidade, uma experiência. No entanto, imagino que isso incomodaria a maioria das pessoas que não viu qualquer problema num ministério de homens brancos e réus na justiça e eu queria perguntar por quê?

Para terminar, uma listinha das mulheres que produziram, especial na literatura e na política, no período entre-guerras. E não, elas não são esquecíveis.

Gertrude Stein https://pt.wikipedia.org/wiki/Gertrude_Stein

Emma Goldman http://jwa.org/womenofvalor/goldman

Rosa de Luxemburgo https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Luxemburgo

Anaïs Nin https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana%C3%AFs_Nin

Katherine Mansfield http://www.goodreads.com/author/show/45712.Katherine_Mansfield

Dorothy Parker https://www.poets.org/poetsorg/poet/dorothy-parker

Irene Nemirovsky http://jwa.org/encyclopedia/article/nemirovsky-irene

Alexandra Kollontai https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Kollontai

Edith Wharton http://www.online-literature.com/wharton/

Colette https://en.wikipedia.org/wiki/Colette

Pagu https://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu

A lista não se esgota e, olhem, nem falei das artistas plásticas como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Ou das áreas da ciência, etc.

 

Eu tinha 13 para 14 anos, era 1987…

Que país é esse

Escritos de adolescência, em geral, causam vergonha. Os meus não são diferentes. Ontem, porém, dia 11 de maio de 2016, dia tão difícil para o Brasil, encontrei esse poema, da época em que me atrevia a poesia engajada (atualmente acredito que a poesia pede talento muito superior a qualquer um que já tive). Essa época, entretanto, era intensamente inspirada pela leitura apaixonada de Que país é este?, de Afonso Romano de Sant’Anna, o qual eu declamava no clube de declamação do Colégio Centenário, sob a orientação da fantástica Professora Norminha.

A Norminha e outros, como o Professor José, foram grandes incentivadores da minha escrita. Mas também tive professores incentivadores do meu engajamento, como a professora Soni, a Professora Ivete, a Professora Hugélia, o Prof. João Rodolfo, a Turca (prof de filosofia), a Deise de biologia (estas ultimas também incentivadoras do meu feminismo). Devo muito, muito a el@s. E a profissional que sou hoje também deve.

Hoje, numa época em que se quer falar de escola “sem partido” (a falsa neutralidade que oblitera o conhecimento e o ensino), eu rendo homenagem aos meus professores. Esses incríveis e maravilhosos professores que, em tempos de difícil abertura política da década de 1980, foram faróis e jamais negaram seu papel de educadores.

Trago para este texto para blog como um registro. Do que muda e do que não munda. O Brasil mudou e não mudou. Que correu largas distâncias e hoje volta sobre os seus passos. Eu mudei obviamente e, em muitos sentidos, nos mais profundos dos sentidos, eu também pouco mudei. Nem pretendo. Como se diz atualmente nas redes #soudessas.

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Cansada de coisas sérias: regras pessoais de admissão de amigos na RS

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Apenas porque hoje estou cansada das coisas sérias, seguem minhas regras pessoais para aceitar pedidos de amizade nas redes sociais.

  1. Vem cá, te conheço?
  2. Quais dos meus amigos te conhecem?
  3. Eu lembro quem são esses amigos?
  4. Seus pais te odiavam tanto assim para dobrar todas as consoantes do seu nome ou você é fake mesmo?
  5. Moço, num mundo de tantas imagens e fotos, você acredita MESMO que seu melhor ângulo é sem camisa?

Passando tais fases, vamos a porcentagem de besteiras versus bobagens postadas. Todos têm, só vou conferir.

 

 

A propósito do estupro em obras de ficção

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Estava debatendo com uma amiga escritora a questão do estupro em obras de ficção. Em especial, como o uso desse “recurso” tem sido cada vez mais recorrente em séries, mas também em filmes e livros. Parece que quanto mais se reclama da cultura do estupro, quanto mais se evidencia o lugar do estupro como um dado de opressão social das mulheres*, mais ele povoa nossa ficção como “exemplo da realidade”. Mas será que é realmente isso? Uma história só tem “toques de realidade” se tiver abuso sexual?

Não estou advogando o não uso de estupros em peças de ficção, estou apenas questionando o porquê de o estupro se tornar um recurso narrativo tão correntemente usado em histórias ficcionais. É como se, sem um estupro, a história não fosse forte o bastante, não alcançasse o gosto do público, o qual é “ávido” por histórias que mexam com suas emoções. É só o estupro que pode fazer isso? Como leitora e escritora, permitam-me questionar.

Falemos da Cultura do Estupro (tão negada e tão evidente). Uso aqui a definição que dei em uma entrevista para meus alunos no ano passado:

Pode-se dizer que cultura do estupro é toda crença, prática, ideia ou regra sobre o mundo e a convivência que, de forma clara ou tácita, autoriza a violência contra as mulheres. Não se trata apenas de coisas como “mulher gosta de apanhar”, mas igualmente “as mulheres preferem os canalhas”, “com essa roupa? Estava pedindo”, etc. Nesse sentido, as mídias são propagadoras, incentivadoras e educadoras, eu diria, dessa cultura. Vale salientar que, embora o termo cultura do estupro seja recente, não se trata de uma invenção do século XXI. A cultura do estupro é a nossa cultura, essa cultura descendente de épocas em que as mulheres eram proibidas por lei de estudarem, falarem na rua, saírem sozinhas, proibidas de trabalhar e de se sustentar, vistas apenas como reprodutoras. A percepção é nova, mas as ideias não. O estupro era e é uma forma de manter os oprimidos em seus lugares. Como as feministas cansam de repetir: não é sobre sexo, é sobre poder.

Assim, com o intuito de criticar o uso do estupro nas mídias, uma série de artigos têm sido publicados pela crítica feminista nos últimos anos, procurando qualificar e perceber os porquês e a necessidade de seu uso.

Contudo, e acabei de escrever isto, voltei, apaguei e coloco agora em separado para poder me aprofundar: não é absolutamente chocante o fato de que a mídia que está sendo criticada por esses artigos é aquela voltada para o entretenimento? Refazendo a frase: o estupro se tornou um tipo de recurso narrativo em livros, séries e filmes voltados ao ENTRETENIMENTO? Dá para refazer a frase de outro jeito: ESTUPRO COMO ENTRETENIMENTO!

As justificativas: 1. essa é a realidade; 2. a série, filme, livro se passa numa época violenta, logo, isso ocorre; 3. feminista vê problema em tudo; 4. A arte imita a vida; etc. parecem bem ocas diante da pergunta: qual é o real sentido desse recurso numa obra de ficção? E como isso é realizado pelo autor, roteirista ou diretor?

Este artigo – http://www.vulture.com/2015/07/orange-is-the-new-black-is-the-only-tv-show-that-understands-rape.html?mid=facebook_thecutblog# – analisa amplamente alguns dos estupros que no último ano foram servidos como prato principal ou petisco para os espectadores. Na sequência, a autora, Jada Yuan, avança e propõe um tipo de teste Bechdel para os estupros em peças ficcionais. O blog Collant sem Decote traduziu o teste e colocou nesta ótima postagem: http://www.collantsemdecote.com/conheca-o-teste-jada-o-teste-bechdel-do-estupro.

O teste Jada consiste em fazer as seguintes perguntas ao assistir ou ler uma cena de estupro:

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?
  2. A cena de estupro tem o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?

A Renata Alvetti, autora do artigo do Collant sem Decote, ainda adiciona uma pergunta:

  1. O corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objetivo de sexualização?

O teste é de grande valia se queremos desconstruir a cultura do estupro. Porém, como leitora e espectadora, acho que é possível ir além e questionar também o uso do estupro como recurso COMUM em peças de ENTRETENIMENTO.

Por outro lado, como escritora, acredito que a naturalização dos estupros na ficção precisa ser questionada como um todo. Um dos usos que mais me incomoda é o de estupros mostrados como ritos de passagem para personagens. Tipo: moça ingênua se torna bad ass após ter sido estuprada, ou se torna manipuladora, ou salvadora, etc. A leitura latente é: tal criatura nunca desenvolveria seu potencial sem um estupro. Horrível de ler dito assim, não é? Mas é o tipo de “moral” que acaba subjacente a vários tipos de narrativas ficcionais.

Além disso, e conversando com o meu comentário acima sobre as mídias, se estas compõem parte de nosso tecido educacional, não estariam os autores, com o uso do estupro como recurso narrativo, colocando apenas mais e mais pedras no edifício da cultura do estupro? Vou repetir: não estou defendendo o fim de referências a estupros em peças ficcionais! Estou questionando seu uso como recurso narrativo, muitas vezes de forma leviana (para dar uma virada na história), como fetiche (nenhum personagem goza, mas o autor, sim), como rito de passagem (uma personagem só ganha força suficiente após o trauma de um estupro) ou simplesmente por preguiça literária.

Em função disso, coloco mais duas perguntas ao teste Jada Yuan/Renata Alvetti:

  1. O autor só pode dizer/contar que quer usando o recurso narrativo do estupro? Nenhum outro tipo de narrativa pode substituir naquele dado ponto da história a violência sexual? Em resumo: o autor precisa mesmo desta passagem no texto?

Em respondendo sim a essa questão:

  1. Quão próximo o autor – ou autora – esteve de um abuso em si ou de alguém que ele conheça? Claro que um ficcionista pode criar, mas terrenos delicados exigem pesquisa e acho que este seria um que, se a opção fosse por um olhar aproximado, exigiria muita pesquisa. O intuito aqui é fugir ao máximo da leviandade.

Outro ponto que também é possível questionar: por que há tantos estupros na ficção e tão poucas “tentativas de estupro”? Aquelas em que a vítima se vira (sem o auxílio de um herói salvador) e dá um jeito de impedir o algoz (use todas as justificativas acima e a tentativa é tão válida como elemento de tensão quanto as “vias de fato”). Por que achamos normal ter isso em nosso ENTRETENIMENTO, mas ainda reagimos mal aos casos de amor que envolvem outros tipos de sexualidade que não a heteronormativa?

As respostas, é claro, estão nessa cultura na qual todxs estamos embebidos. Por isso mesmo a importância de se questionar, perguntar por que isso e não outra coisa? Naturalizar reforça os sentidos de opressão que a cultura do estupro dissemina. Nossa maior arma para acabar com tal cultura e ficar em pé e dizer: não, não é natural; não é o normal; ninguém precisa que isso lhe ocorra para que sua história fique mais interessante. Seja na realidade, seja na ficção.

 

* Embora não exclusivamente, pois se pode incluir crianças e até homens adultos em ambientes estritamente masculinos como prisões e exército.

 

Mais sobre o assunto:

https://ideiasemroxo.wordpress.com/2015/07/03/o-problema-do-estupro-na-ficcao/

http://fomedetudo.com.br/mulher/problematicas-cenas-de-estupro-na-ficcao/

http://blogueirasfeministas.com/2014/04/ha-uma-razao-para-haver-tantas-cenas-de-estupro-em-seus-programas-de-tv-favoritos/

http://tapiocamecanica.com.br/editorial-precisamos-falar-sobre-estupro-na-ficcao/

http://doutornerds.blogspot.com.br/2015/07/estupro-o-eterno-tabu-das-obras-de.html (O texto é legal, apesar de eu discordar do uso da palavra tabu, se fosse, o estupro na ficção não seria tão comum.)

Sobre espelhos

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Um continho que foi publicado há uns dois anos na Revista Fantástica.

 

Sobre espelhos

 

Foi assim: o menino entrou na sala de espelhos numa tarde branca de inverno. Perseguia uma bola multicor e os guardas o acharam tão gracioso que não puderam evitar um pouco de sorriso. A sala de espelhos é enorme, quase um salão, mas não tão grande, quase uma galeria, mas não tão comprida. É coberta de espelho em três paredes. Naquela em que é possível olhar para fora, para os jardins de noiva, há um espelho entre cada vão de janela. É uma sala linda de se ver, mas poucos gostam de entrar nela, menos ainda de entrar sozinhos. Só as crianças muito pequenas não têm essas inquietações. É sinal de estar crescendo recear ir à sala de espelhos e de amadurecimento esconder isso o quanto se puder de todos os outros.

 

Só quando a luz começou a diminuir – e o acendedor passou colocando fogo no óleo de baleia dos lampiões – foi que os guardas lembraram. Ninguém vira o menino voltar pela porta em que entrou. Não, com toda a certeza, o menino não saíra da sala de espelhos. Os guardas procuraram, por lá e por toda parte. Nada, nem de menino, nem de bola colorida. A brincadeira virou susto, que virou desespero e, depois, tristeza. Nunca mais se soube do menino. Um riso seu talvez tenha ficado dentro da sala. Sei de muitas pessoas que disseram ter ouvido o menino por lá. Alguém, numa festa, jurou ver o menino refletido, olhando os homens de peruca e as mulheres de saia quadrada com um riso nos lábios. Divertia-se o menino. O que era aquela criança no meio dos adultos, perguntou uma dama que ignorava o ocorrido. Mas não havia criança. Não na sala como ela julgara. Só nos espelhos.

 

Então, quando não era festa, já ninguém entrava na sala, fosse sozinho ou acompanhado. Até mesmo as multidões, que nunca admitiram o pânico que as festas entre os espelhos começavam a causar, resolveram que os jardins seriam melhores no verão e as salas com altos lambris de madeira muito mais quentes nas noites de inverno.

 

A sala de espelhos foi ficando sozinha. Há quem diga que foi o abandono que transformou o menino em peixe. Porque peixes de calda longa podem nadar sob a superfície dos espelhos d’água e o menino já não se satisfazia apenas com a sala de espelhos. Nem mesmo a revolução conseguira voltar a encher a sala, mas nesse dia foi que o peixe-menino fugiu. Há quem diga, que ele se grudou no espelho de uma espada e saiu para o mundo. Foi navegando de reflexo em reflexo, indo a todo lugar, ficando mais nuns que em outros. O melhor de tudo é que os peixes são muito mais difíceis de ver do que os meninos. O ruim é que alma de menino não pode virar peixe e disso se pode saber com certeza.

 

Até mesmo há quem diga que quando os espelhos bruxuleiam como a superfície dos lagos, fingindo que é a luz que falha sobre eles, é o peixe-menino vindo à tona em busca de um amigo. Sob a superfície é possível ver o olhar do menino-peixe, convidando para brincar.

Como funciona a cabeça de um escritor?

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A pergunta já me apareceu algumas vezes em entrevistas e a melhor resposta é essa.

Você ouve, vê, lê algo que te sugere uma ideia.

Você escreve. Esquece num caderno.

Relê. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois reencontra. Relê. Gosta. Resolve que vale digitar.

Relê digitado. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois vai verificar um título estranho no meio de uma pasta do Windows que guarda coisas que você escreveu.

Relê. Gosta. Resolve publicar.

Ajeita. Re trabalha, perde umas duas horas.

Relê. Acha uma bosta. Esquece de novo.