Evitando um relacionamento abusivo

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Vamos falar sobre relacionamento abusivo?
Eu resolvi escrever o sei. Não é muito, mas talvez sirva para alguém. O que sei sobre isso?
1) Sou feminista há muito tempo, já o era quando entrei na adolescência. Logo, mesmo sem usar esse nome na época, um relacionamento desigual, que me sujeitasse, já era uma preocupação minha.
2) Eu nunca vivi um relacionamento abusivo. Não, não foi sorte, foi atenção para as armadilhas. Foi me dar conta e evitá-las antes que ficassem grandes demais para eu lidar com elas. Foi me preparar e ser preparada para colocar a mim mesma acima de uma ideia de amor romântico.
3) Tento, desde há muito, praticar um feminismo de escuta, e percebo o quanto as ideias de sacrifício, de “eu e meu amor contra o mundo”, de “nosso amor é para sempre”, “nunca vamos nos separar”, “faço qualquer coisa por você” e toda a parafernália do século XX  sobre amar e estar apaixonad@ pesam na estrutura dos relacionamentos abusivos.
E, disso tudo, o que eu posso dizer é o seguinte, de A a Z:
1) Nenhuma violência começa grande. Ela se inicia pequenininha, quase imperceptível, mas, acreditem, ela já está lá, num sinal minúsculo é vermelhinho de perigo, tão logo o encantamento começa a se transformar em intimidade. Então, fique atenta:

a) Piadas repetidas em que você é o alvo principal. Meu bem, deboche quando vem de um lado só (que é a forma mais comum) pode descambar facinho para a falta de respeito. Seja direta é clara, diga o que você permite e o que não permite. Não se trata de brigar, muito menos de bater boca. Qualquer tipo de relacionamento é feito de acordos. Por isso não abra mão de participar da constituição desses acordos. Nada de “você que sabe, amor”. É a sua vida, a sua felicidade, não brinque com isso, nem coloque nas mãos do outro. Diga não, é saudável até para o maior dos amores na Terra.
b) Fique atenta em como seu amor age com você na frente dos amigos dele e dos seus amigos. Tem diferenças significativas? Ele te interrompe quando você fala, usa a frase “ela quis dizer” (especialmente com os amigos dele), desfaz da sua fala (mesmo que sem palavras), usa coisas sobre você para se autoafirmar diante dos outros? Ele responde a suas reclamações sobre o comportamento dele com você diante dos outros com: “você está exagerando” ou “foi só uma piada”? Promete que não vai acontecer de novo e acontece? Miga, fica atenta!
c) Ele faz inspeção na sua roupa ou na das suas amigas.
d) Fala mal de suas e seus amigas e amigos de longa data; chegando a dizer ou demonstrar com beicinho e emburramento que não gosta que você os veja.
e) Ele dá entender que acha que a sua felicidade depende da presença dele e faz ceninha caso você esteja se divertindo sem ele.
f) Filtra informações para você.
g) Diz que vai te proteger de tudo. Leia o subtexto: fora desse relacionamento você está em perigo. É isso o que ele está dizendo. Então, pergunte: proteger do que, exatamente?
h) “Eu vou fazer tudo por você”. Deixa eu adivinhar: parece que ele disse “eu te amo”, não é? Não, meu bem. Ele disse: eu fazer tudo por você. Você vai depender de mim, porque, EU VOU FAZER TUDO POR VOCÊ.
i) Ciúme não é sinal de amor, é sinal de insegurança. Se você tem ciúmes, reflita sobre o que a deixa insegura e liquide com isso. Um amor é bem melhor com confiança.
j) Ele curte te provocar para te ver braba? Você até dá uns tapinhas nele e ele ri? Não dê! Não aceite esse tipo de jogo. Você só contribui, sem saber, para ser pintada como braba, louca, desequilibrada. Você bate na frente dos outros, um dia pode estar apanhando sem que ninguém veja e ninguém vai acreditar em você porque, afinal, você é tão braba, não é?
m) Não mude sua essência por ele. Por mais que ele te adore, o amor só transforma sapos e monstros em príncipes nos contos de fadas. Nossa sociedade ensina aos meninos que se modificar por uma mulher é um tipo de fracasso pessoal. Então, miga, não  coloque suas fichas nisso. A aposta é alta demais e o risco é quase todo seu.
n) Ele diz que faz qualquer coisa para você continuar com ele. Diz que você não sabe do que ele é capaz. Não pague pra ver. Acredite, amor desesperado só é bonito e bom em filme. Sem não estiver recebendo um cachê bem alto não embarque que é furada.
o) Dar certo não quer dizer para a vida toda. Quer dizer que é muito legal enquanto for muito legal. Quando deixar de ser, significa que a gente vai lá continuar sendo feliz de um outro jeito. Não ponha a sua felicidade em estar com alguém.
p) Lembre que a maioria dos meninos também foi criada acreditando nesses clichês todos, acham que isso é uma forma de amar. Adote o jogo limpo. Lembre dos acordos prévios que devem ser estabelecidos e conhecidos pelos dois.
q) As reações dele quando você se comporta como ele, dizem muito!
r) Ele tem ataques de raiva? Mesmo que não sóbre para você, mesmo que não seja sobre você, mesmo que você tema pela saúde dele: diga para ele esfriar a cabeça sem usar essa raiva para erguer a voz para você, falar entre os dentes, ou xinga-la. Não aceite o argumento de que ele te faltou com o respeito por estar nervoso.
s) Estar sem um relacionamento não é feio, não é ruim, não é um fracasso. Não deixe ninguém fazê-la acreditar nisso.
t) Banque -se. Emocionalmente. Socialmente. E, na medida do possível, financeiramente.
u) Se estiverem dividindo um lar, a louça, o banheiro, as roupas para lavar, secar e passar são dos dois. Se ele não souber ensine. Não assuma ser responsável por algum senso de dever do tempo do epa! Lembre dos acordos prévios!
v) Respeite os lances que são só dele. Não o deixe dependente de alguma ação sua, pois ele pode querer contrapartida. Exija o mesmo respeito para os seus lances.
x) Tenha amigas!
z) Seja feminista.

Sobre criar meninos: “O Touro Ferdinando”

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Ferdinando LivroEm 1935, Munro Leaf recebeu uma encomenda do ilustrador Robert Lawson e escreveu um pequeno conto pacifista: O Touro Ferdinando, que acabou sendo publicado no ano seguinte nos EUA. Às vésperas do início da Guerra Civil Espanhola, o conto passado na Espanha foi interpretado como antifascista e acabou sendo proibido em diversos países.

Nos EUA, porém, o pequeno livro com ilustrações em P&B fez tanto sucesso que em 1938, Walt Disney transformou o conto em um curta. O desenho novamente fez sucesso. Povoou gerações de infâncias, inclusive a minha. Meu primo, minha irmã e eu nunca perdíamos quando o desenho passava, nas inúmeras reprises do universo anterior à TV à cabo.Ferdinando-o-Touro

Por algum motivo – e não imagino que essa fosse uma intenção clara dos estúdios Disney – os longos cílios piscantes de Ferdinando fizeram que com que boa parte de seus fãs o identificassem com um touro gay. Uma série de estereótipos sobre feminilização pesou nessa interpretação, sem dúvida (tanto para quem fez, quanto para quem assistiu).306376

Quando foi anunciado o longa, confesso que fiquei super empolgada. Não sabia nada sobre a jornada do livro, mas o desenho sempre me foi caro. Ora, eu amava o touro Ferdinando e queria dividi-lo com o meu filho. O fato de Carlos Saldanha ser o diretor apenas recomendou o filme. Gostamos muito dos Era do Gelo e Miguel adora Rio.1597315.jpg-r_1020_458-f_jpg-q_x-xxyxx

Fomos assistir ao longa no último domingo em família, junto com os três meninos (Miguel e os primos) que se divertiram muito. Nenhum deles achou que Ferdinando fosse gay e, pelo que li nas entrevistas de Carlos Saldanha, essa não era a intenção primordial do estúdio. Preferiram focar na questão da tolerância e na aceitação das diferenças. De fato, todas resenhas e críticas do filme salientam isso. Algumas destas chegam a colocar isso em termos um pouco jocosos (parece que nem todos gostam da ideia de se aceitar diferenças), mas mantém a propaganda do filme. Outros ressaltam as reviravoltas, do roteiro e reclamam disso como algo excessivamente esticado.Interna01

Não vi isso. E acho que os meninos que me acompanhavam também. O Touro Ferdinando é engraçado, tem gráficos excelentes (eu pirei nas telhas das casas espanholas), um ritmo ótimo e momentos antológicos (como a disputa de dança entre cavalos e touros). Mas não sou crítica de cinema, sou uma escritora feminista e mãe de um menino e o que eu vi foi o seguinte:

Ferdinando – que na versão original tinha uma mãe – tem um pai. Um modelo de masculinidade. Bravio, violento com o mundo, doce com ele – nem todos são assim, há uma outra dupla de pai e filho em que a exigência da violência em todos os campos se faz, o tourinho Valente e seu pai. Essa doçura se reflete na admiração de Ferdinando pelo pai, mas ele é diferente para além disso. Todos descrevem Ferdinando como gentil, mas é mais que isso, ele é um pequeno macho que não acredita que brigar possa resolver qualquer coisa. Veja, isso não significa ser passivo ou não lutar pelo que acredita (o que fica claro no Ferdinando adulto), apenas significa um outro caminho.

Cedo, Ferdinando se dá conta de que a bravura e a coragem não são suficientes. Que isso não é uma salvaguarda. Que ser violento não é a resposta para a vitória. Quando o pai não volta da tourada para viver como um rei, como ele havia prometido, Ferdinando realiza sua derrota. No futuro, essa percepção ganhará o contorno de “o touro nunca vence”.Ferdinand-movie-john-cena-manning-600x400

Mas eu vi algo além do libelo contra às touradas – que também aparece em outra animação brilhante Festa no Céu –, algo que já na metade do filme mal deixava eu me conter na cadeira.

Eu vi na animação uma fábula sobre criar meninos nesse novo século. Criar meninos com outros modelos de masculinidade que não a violência, temerária e tóxica, emulada pelo machismo estrutural. Ferdinando é pacífico e não passivo; não acredita na violência, não acredita em cada um por si; não acredita em competir, mas em cooperar. Ferdinando não acredita que aquele que não se encaixa – por ser muito pequeno, medroso, ter uma deficiência ou falhar – deva ser descartado ou visto como menos importante. Ferdinando é um macho diferente e, nesse sentido, acho que é até interessante que o subtexto gay tenha perdido a importância. Ser menino – independe de suas orientações sexuais – é que é o tema aqui. E, nossa, é brilhante.

Sem spoilers, o final é arrebatador justamente por mostrar que essa masculinidade nova pode ser aceita e trazer felicidade. Essa nova masculinidade pode ensejar um mundo diferente: cooperativo, pacífico e, bem, com amor. Coisas que precisamos ensinar aos nossos meninos para que o mundo deles e o nosso sejam muito melhores.443623.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxx

Nunca amamos tanto nossas crianças, e ainda não as amamos o suficiente

Sobre “A Infância no Brasil”, de José de Aguiar

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Creio que poucas publicações para o grande público tem o impacto de A infância no Brasil. A HQ de José Aguiar, publicada pela Avec Editora neste último ano de 2017, consegue esse efeito raro. O quadrinista escolhe tratar de um assunto bastante espinhoso: ser criança num país múltiplo e desigual como o Brasil. Mais que isso, o autor não se furta a fazer uma viagem pela história violenta e cruel do país em que vivemos.

Ao longo de suas páginas desfilam caravelas, povos indígenas, missionários jesuítas, bandeirantes, escravocratas, crianças abandonadas na roda ou fugindo de seus algozes. Mas, em cada século, o autor faz uma comparação com o princípio do século XXI. O que mudou e o que não mudou tanto assim estão ali.a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-4

O bandeirante que quer um filho macho e o ultrassom celebrado pelo casal de classe média que mostra uma menina. Os indígenas apresados como escravos que entregam suas crianças aos jesuítas e os povos desenraizados que vendem cestos nas vias públicas para sobreviver. As crianças abandonadas e famintas de qualquer século. Os filhos nascidos nas senzalas e os que estão encarcerados com suas mães nas doentias prisões brasileiras. O cinema que faz o deleite das crianças operárias e os filhos de papeleiros que pedem nos sinais.

Não é uma obra fácil de ser lida e vista. As ilustrações são poderosas, trazem subtextos doloridos, batem direto em nossa ignorância, mas ainda mais forte em nossa indiferença.

O que faz uma criança ser diferente da outra?

O que faz uma infância ter mais direito que a outra?infancia_cap06_p02A_PT

O que faz um juiz achar que uma menina de 13 anos que se prostitui é uma mulher; e que protege sua filha, da mesma idade, com o zelo amoroso de quem a deixa na porta da escola e cuida para ver se ela entrou direitinho?

Lembrei de meu filho, aos 8 anos, chocado por saber que nazistas – que mandavam crianças em fila para as câmaras de gás – podiam ser bons pais. Ele também acha que sou uma mãe maravilhosa; mas o que sabem nossos filhos de nossas pequenas maldades, de nossa indiferença para com os outros, nossos pré-julgamentos e preconceitos?

O fato é que, para além da História do Brasil, pelos olhos quase sempre tristes de boa parte de nossas crianças (para não dizer a maioria), José Aguiar propõem outras questões. Profundas e filosóficas perguntas como: o que é ser bom? O que é cuidado? Como podemos amar tanto os nossos filhos e fechar os vidros dos carros para as crianças que estão do outro lado?a-infância-no-brasil-jose-aguiar-avec-editora-post-cosmonerd-5

As respostas podem parecer fáceis, mas a HQ deixa claro que não são. Ela vai a nossa história de dor e desigualdade. Mostra que o Bem se modifica a partir dos pontos de vista e da cultura. E deixa claro que o conceito do que é infância, do que é ser criança, não é apenas mutável no tempo, as também a partir do nosso lugar social.

José Aguiar faz uma obra poética e forte, sem cair no didatismo. Contudo, deixa claro que seu trabalho teve por base uma pesquisa histórica de fôlego, e baseada em uma historiografia de ponta, a qual, bem indicada, aparece ancorada em metodologia científica e em uma documentação amplamente analisada.noticia_583696_img1_esp2f1

É uma obra fundamental, penso. Para se ter em casa e provocar perguntas aos pequenos privilegiados que criamos. Porém, como professora formadora de professores também indico-a fortemente para ser usada nas escolas. Em especial a partir dos 5º anos do Ensino Fundamental, tanto nas aulas de História, quanto de Língua Portuguesa ou filosofia. Aos professores, indico também a leitura da obra História das Crianças no Brasil (já indicada por mim no portal Sul21), organizada pela historiadora Mary Del Priore (que, aliás, assina o prefácio da HQ). Creio que eles perceberão que as duras, mas poéticas imagens e texto de José Aguiar “pegam leve”, pois a realidade de abusos de nossos pequenos pode ir ainda mais longe.

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Caso Mayara: do que estamos falando quando falamos de Cultura do Estupro?

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*Este texto foi anteriormente publicado no jornal Diário de Santa Maria, em 04/06/2016

O termo cultura do estupro ganhou notoriedade na última semana. Invadiu redes sociais, memes e “textões”. Não faltou quem explicasse, mas também faltou quem não compreendesse. Ou, mesmo compreendendo, não conseguisse visualizar o tamanho do problema. Essa incompreensão não diz respeito a qualquer incapacidade, demérito pessoal ou dificuldade cognitiva. De fato, ela é uma parte fundamental da questão.

Cultura do Estupro é um conceito cunhado nos anos 1970 pelo feminismo norte-americano (Rape Culture). Basicamente, apontava a tendência massiva da sociedade em culpar a vítima e tornar “natural” a violência masculina. Não foram poucos os críticos que, mesmo reconhecendo essa tendência social, negaram que ela fizesse parte ou pudesse ser nomeada como uma cultura. Esses mesmos críticos, embora reconhecendo o fenômeno do estupro, não se cansaram em demonstrar que tal violência foi sempre rechaçada e, portanto, não poderia ser considerada uma “cultura”. Falemos sobre isso.

Em primeiro lugar, é necessário deixar claro com qual conceito de cultura estamos lidando. Embora englobe e se expresse no que conhecemos como produção cultural, a cultura a que nos referimos tem um sentido mais amplo. Estamos aludindo às bases estruturais e naturalizadas de nossa sociedade, por isso mesmo, quase invisíveis, difíceis de serem percebidas. Tais bases informam não somente nossas atitudes diante do crime de estupro, mas nossa fala cotidiana, a forma como criamos nossas filhas e filhos, nosso comportamento na rua, na escola, no grupo de amigos (dentro e fora do Whatsapp).

Logo, perceber a cultura do estupro como algo real acaba por levar a uma completa revisão de coisas que estão muito além do fato do estupro em si. Envolve rever nossos parâmetros e o que parece comum em nosso dia-a-dia.

É natural que digamos às nossas filhas que não voltem tarde, nem sozinhas. É normal que nos orgulhemos de filhos pegadores e repitamos que, afinal, eles não engravidam. É comum que digamos a nossas filhas que se cuidem, que se preservem, que se deem valor. Dizemos as nossas meninas que o fulaninho da escola, que lhe bateu, mordeu, xingou, puxou seu cabelo, na verdade, gosta dela. Ensinamos nossas meninas a tolerar o abuso e a violência porque é próprio dos meninos. Ensinamos nossos meninos que eles somente serão aceitos como “meninos de verdade” se forem violentos, desregrados, indisciplinados, selvagens, pois “é isso que os homens são”.

A cultura nos antecede e estamos imersos nela, contudo ela não é sempre a mesma e nem é uma mera capa dos impulsos biológicos. Pelo contrário, é ela que os molda. Por conta disso, muitos elementos de nosso comportamento foram se alterando ao longo da História, outros, porém, permanecem. No caso da relação entre os gêneros feminino e masculino podemos notar tanto elementos de continuidade como de ruptura.

Em termos legislativos, a imensa maioria das sociedades do passado dedicou um momento para debater e legislar sobre o lugar das mulheres na sociedade. Inúmeras leis foram promulgadas para negar o espaço público às mulheres, durante muito tempo. Ora, se são necessárias leis é porque elas precisam coibir comportamentos que existem, quando as leis cessam de existir é porque o comportamento que ela proibia não mais ocorre. Hoje, precisamos fazer leis que garantam às mulheres o espaço público e, pior, desconsideramos a História ao dizer que, podendo ocupá-lo, elas não o ocupam por que não querem.

Esse é somente um dos inúmeros exemplos. Podemos falar de outro em que encontramos uma ruptura significativa, a que diz respeito à sexualidade feminina. Até meados da época Moderna (considerando aqui apenas a história europeia), as mulheres eram descritas como loucas por sexo, insaciáveis e perigosas. Logo, o estupro teria um papel didático ao submeter as características demoníacas de todas as mulheres.

Os avanços nos modelos de controle social nos séculos XVIII e XIX abriram espaço a um novo olhar sobre as mulheres. Agora, passa a haver dois tipos: as perdidas e as puras. Essas últimas não gostavam do sexo, se submetiam a ele como um favor aos homens, à reprodução e a ordem bíblica de procriar.  Se, dentre as que deviam ser puras, encontrávamos alguma dissonante, esta era inscrito no rótulo da anormalidade: a histérica, a louca. Nos dois casos, forçar o sexo não era um problema. As primeiras deviam respeitar as necessidades masculinas. As segundas poderiam ser curadas de seus males.

Durante o século XX, as mulheres lutaram para voltar a ter o controle de sua sexualidade, o que lhes fora negado por séculos, tanto na sua descrição de insaciáveis, como na sua descrição de recato e repulsa ao sexo. Contudo, a ruptura foi apenas parcial. A cultura que informava todo o resto da sociedade e seu olhar sobre as mulheres, mudou a roupagem, mas não a essência.

E qual seria essa essência? Esse ponto cultural que não conseguimos visualizar nitidamente? O controle. Essa é a questão. O controle dos comportamentos femininos. O controle sobre seus corpos, suas vontades. A cultura do estupro é a cultura do medo. Todas as mulheres são criadas para ter medo. Elas podem ser as próximas e por mais que se comportem, obedeçam, façam tudo “direitinho”, pode acontecer com elas também. Dizemos isso o tempo todo.

Quando perguntamos sobre as roupas das vítimas, seus horários, comportamento prévio, etc., dizemos as nossas meninas: viram, se vocês forem comportadas e obedientes isso não lhes acontecerá. E, se acontecer (e acontece), seremos os primeiros a lhes perguntar o que elas fizeram? Como se colocaram naquela situação? Como foram confiar naquele rapaz específico? Aquele rapaz que pode ser o namorado, noivo, marido, pai, avô!

A cultura do estupro nada tem a ver com sexo, embora um de seus objetos seja o controle da sexualidade feminina. A cultura do estupro tem a ver com Poder. E com Medo. Por isso ela não se restringe a um momento. Ela está em tudo. Está na arte, na propaganda, na literatura, na novela. Didaticamente organizada para autorizar os homens a exercerem poder – disfarçado de romantismo, impulso biológico, masculinidade incontrolável, macheza – e para as mulheres se dobrarem a esse poder – disfarçado de romantismo, amor eterno, glamour, proteção, cuidado.

Se, ainda assim, você acha que a cultura do estupro não existe, imagine um mundo diferente do nosso. Um mundo em que as mulheres não temem os homens. Mas, principalmente, imagine um mundo em que os homens não são qualquer tipo de ameaça a nenhuma mulher. Consegue imaginar?

Está na hora de falarmos sobre os uniformes escolares

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A questão dos uniformes das meninas na Educação Infantil e nas Séries Iniciais tem me incomodado desde o ano passado. Não estou falando do shortinho das meninas do Ensino Médio (apoiei). Os enfoques das questões são diferentes. Ou não.

Aqui, deixarei as meninas grandes que já fazem suas escolhas e me concentrarei nas pequenas, nas que ainda são vestidas pelas mães e pais. Meu incômodo vem com a seguinte pergunta: qual a necessidade do uniforme de meninas tão pequenas incluir saia? É bonitinho? É! Mas é igualmente restritivo dos movimentos, das atividades, do fato de ser criança. Para que serve colocar saia em uma menina que irá pular e correr? Para gritar e garantir a todos que ela é uma menina. Para lhe dizer: comporte-se! Sente direito! Feche essas pernas!

Ah, dirão alguns: as saias escolares de hoje têm shorts por baixo. Isso não é novidade. Eu colocava um short por baixo da minha saia de escola, mas a minha bunda continuava ali e os meninos continuavam levantando minha saia para provarem que eram machinhos. Devo ter adotado calças em tempo integral na escola pelos 8 ou 9 anos. Muito mais tranquilas para sentar no chão, correr, me embolar num canto qualquer lendo um livro.

E não são somente as saias. Já perceberam como são as bermudas? Tem as de menino: larguinhas, confortáveis. As da meninas são justas como as de ciclistas, enfatizam formas que as crianças não têm. Dizem sobre os corpos infantis o que não devem dizer. Aí, quando as meninas começam a crescer, as próprias escolas se outorgam o poder e a necessidade de dizer como elas devem se vestir, de coibir peças consideradas de pouco decoro, quando, de fato, as escolas participaram do movimento da sexualização infantil desde o início.

Haverá quem diga que por não ser mãe de menina, eu não devia me preocupar com isso. Sou educadora, sou feminista e estudei moda e identidade por dois anos. Creio que é suficiente para expressar meu incômodo e levantar esse ponto de debate. Se acha que este não e um ponto a questionar, digite no Google uniforme escolar de menina e veja o tipo de imagens que o buscador traz.

Devemos continuar a seguir uma tradição que em nada contribuiu para a educação das nossas meninas, que aprofunda as diferenças de gênero, que sexualiza corpos infantis? Ou devemos começar a questionar as escolas do porquê dessa escolha de peças? Não creio que as escolas saibam, apenas seguem o fluxo, atualizando continuamente um modelo de gênero que limita nossas garotas. Todos os dias.

Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre. Foto: Arquivo/AE Pasta: 46669
Brasil, Sao Paulo, SP. 06/08/1963. Volta as aulas dos colegios de Sao Paulo no segundo semestre.
Foto: Arquivo/AE
Pasta: 46669

 

Já ouvi falar de Moda do Bem?

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Durante os últimos dois anos ministrei disciplinas no curso de Tecnólogo em Design de Moda. Trabalhei com duas matérias: História da Moda e Moda, Cultura e Sociedade. Em ambas pude desenvolver, com as turmas com as quais trabalhei, excelentes debates. Seguindo a orientação do curso, marcamos junt@s a necessidade de se desenvolver produtos de moda com características inclusivas, sustentáveis e que valorizem os produtores e trabalhadores locais.

images (15)De minha parte, investi bastante para que tod@s percebessem que: 1) o vestuário é apenas a parte mais visível da moda e que ela envolve desde o nosso gestual, até o uso que fazemos das palavras. 2) Que a moda (esse fenômeno histórico-social do ocidente nascido em fins da época medieval) é, acima de tudo, política. E, por ser política, é ao mesmo tempo definidora e restritiva. A moda define gênero, classe social, etnia, religião. Ao mesmo tempo, ela restringe igualmente o gênero ao binário, as mudanças de classe social, impõe os limites entre religiões e etnias.

Cada item de moda tem uma história conectada não apenas com sua origem, mas também com as diferentes apropriações, recriações, sobrevivências e rupturas. Nossos usos disso são ao mesmo tempo pessoais e coletivos. São objetivos e subjetivos. Conscientes e inconscientes. Ninguém usa a moda exatamente como ela é proposta, nós a elaboramos de acordo com nossas necessidades, vontades, desejos (desde o que entendemos, até os que não conseguimos definir).

images (14)Parece incrível que a moda esteja em tantos níveis ao mesmo tempo, mas ela está. Isso não nos torna vítimas. Somos colaboradores mais ou menos engajados, estamos imersos em suas características de produção, distribuição, mercado, consumo. Até mesmo quem acha que está fora de tudo isso, não está, como brilhantemente explica Miranda Priestley em O Diabo veste Prada.

Tudo isso se torna mais complicado quando se toma consciência de que a industria responsável pela nossa vestimenta é uma das mais cruéis, poluidoras, desrespeitosa dos direitos trabalhistas e promovedora de escravidão moderna que se tem monitorado no mundo contemporâneo. Se quer uma mostra disso, não deixe de assistir o documentário The True Cost (o verdadeiro custo), disponível no Youtube e na Netflix.MV5BMTAwNzMyMDEyMTBeQTJeQWpwZ15BbWU4MDY2OTA5NDQx._V1_UY1200_CR90,0,630,1200_AL_
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É claro que é mais fácil entrar numa fast fashion da vida e tentar não lembrar que tem trabalhador explorado por trás da roupa de baixo preço e qualidade duvidosa que você compra. Aquela que vai 3 vezes à máquina e se desmancha, mas você não liga porque custou 20 reais. Esquecer que tem rio poluído e morto e crianças da idade do seu filho costurando em confecções insalubres do outro lado do mundo por centavos. Dá para esquecer sim. Dá para não lembrar.
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Mas também, dá para fazer melhor, sabe?
Um, dá para valorizar quem faz roupas perto de você. Dá para ir mais vezes ao brechó. Dá para trocar com @s amigues aquelas roupas que você já enjoou. Dá para comprar roupas de melhor qualidade para precisar comprar menos ao longo do tempo. Dá para comprar menos. E dá para se interessar e buscar empresas que respeitem seus trabalhadores e, por consequência, seus consumidores.
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Esse último, parece difícil, mas não é. Se você tem um smart phone, você pode baixar o aplicativo Moda Livre, o qual monitora 77 marcas e lhe informa quais são claramente comprometidas com a melhoria das condições de trabalho de seus operários. Sempre há um link para o site da empresa e algumas têm lojas virtuais que funcionam de forma excelente. Indo no site, você pode até se inteirar de outras preocupações da empresa, como por exemplo, o cuidado ecológico, com tingimentos e o uso de defensivos nas matérias primas (seu algodão e linho são plantados, logo, não esqueça que o veneno que vai à mesa também está em contato com a sua pele), como a Malwee.
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Outra dica, procure marcas perto de você que tenham a preocupação com uma produção inteirada com essas questões. E até com outras, como por exemplo, o feminismo, o antiracismo, a nerdice, etc. Sugiro a superfofa Toda Frida, a gaúcha Conceito Ada ou a Santamariense Criolando, de uma ex-aluna minha. Vá aos sites e explore um pouco. Meu bolso, meu guarda-roupas e minha consciência têm agradecido. Então, ficam as dicas para quem quiser aderir à moda do bem.
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Como criar um leitor

Um leitor em criação.
Um leitor em criação.

Apesar do título, este não é um post de autoajuda. Também não pretende seguir uma linha Mary Shelley de criação. É um post sobre experiência. Uma sucessão de tentativas mais ou menos bem sucedidas e ainda incompletas. Sobre uma experiência materna/paterna e não do lugar de educadores (disso, posso falar num outro momento).

Quando começamos a imaginar o Miguel, deixamos uma grande margem de liberdade. Fazíamos votos que ele herdasse algumas características fenotípicas, que tivesse algumas inclinações. Duas coisas, porém, resolvemos não dar tanta margem de liberdade. O time do coração (no caso do pai dele) e o fato de que não queríamos apenas um filho, a gente queria um leitor. E decidimos agir proativamente para isso.

Eu sei. Vai ter quem diga: “Ora, vocês dois são leitores, é claro que ele também será.” Bom, eu não acredito muito nesse tipo de lógica. Embora o exemplo seja importante, já vi muito pai/mãe leitores criar filhos que acham que livros servem para nivelar estantes. Então, sinceramente, achei que não deveria deixar margem ao acaso.

Antes mesmo de o Miguel nascer, estava preocupada em adquirir lentamente os livros que eu queria que o cercassem (inclusive, escrevi sobre isso aqui: A biblioteca do Miguel). Mas, decidi, não bastaria que ele apenas visse livros à sua volta, então, fui criando, meio desajeitada e meio planejadamente, algumas técnicas.

  1. O livro de banho. Os livros de banho são ótimos. Coloridos, de fácil manuseio, vão à qualquer lugar, são mordíveis, babáveis, podem coçar gengivas, serem desinfetados com álcool, alguns tem até barulho. Mais que brinquedos, se tornam parceiros. Companheiros que se pode folhar. Fiz ponto aqui.
  2. Livros com música. Usei muito para fazer o Miguel dormir. Folhava as páginas, mostrava as figuras coloridas, fazia tocar a música que eu cantava ou cantarolava o que vinha escrito na página. Por que? Associação: página, música nova e a minha voz. Sempre uma novidade. A cada página uma surpresa. Quantas vezes repeti cada livro? Infinitamente. Os pequenos amam repetição e eu dei toda a que o Miguel pediu. Só trocava quando ele cansava ou eu estava quase surtando com a musiquinha.

OBSERVAÇÃO: Alguém vai dizer: “que bom que você tinha tempo para fazer isso pelo seu filho”. Bom, falando claramente, acho que tempo ninguém tem. Eu abdiquei da minha hora de leitura, eu trabalhava até às 22 ou 23h da noite. Apenas, bem, como eu disse acima, meu projeto não era só um filho, era um leitor. Seguindo…

3. Livros com folhas cartonadas e barulho. Miguel tinha 1 ano e 6 meses quando me pediu o primeiro livro (sim, conto isso como vitória). A obra em questão tinha folhas acartonadas (aquelas mais grossas) e um botão azul que soltava o apito de um trem. Como sei que ele me pediu, se ele mal falava? Vimos o livro num dia e no outro ele me puxou para a loja dizendo piuí, foi até a prateleira, pegou o livro e abraçou. Eu achei eloquente. Tivemos um longa linhagem de livros sobre trens e caminhões e outros veículos nessa época.

Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn
Miguel com os livrinhos rasgáveis #sqn

4. Livros baratos. Pois é, sabem aqueles livros fininhos, que a gente compra em bando, custando cerca de 0,75 centavos (preço da época) e que tem contos de fadas tão mal adaptados que dá horror de ler? Pois é. Comprei uns quantos daquele e larguei nas mãos do guri. O objetivo era que no processo de refinar seu processo de apreensão e motricidade fina, eles o pudesse rasgar sem perigo de grande perda. O que eu fazia quando os livros apareciam rasgados? Um dramão. Dizia que ele tinha feito algo muito feio, fazia de conta que o livro chorava, fazia curativo com fita adesiva, embalava o livro e dizia que tudo ia ficar bem, fazia o Miguel pedir desculpas para o livro. Você dava um livro só para poder passar um pito no seu filho? Exatamente. Pergunte hoje o que ele acha de livros rasgados, queimados ou proibidos, vai pergunte!

Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.
Dicionários era os únicos em que ele podia mexer no escritório da mamãe e do papai. Tiveram seu uso.

5. Livros Brinquedos. Esse tipo de livro foi um desafio. Para mim, não para ele. Eu sabia o que o estava atraindo e sei que muitos pais se enganam nessa fase. Dizem ele/ela adora livros, quando na verdade as crianças não estão nem aí para as letras ou a história, mas apenas para o brinquedinho que vem junto. O que ocorre é que o entendimento do livro como brinquedos, faz com que muitas crianças abandonem ambos quando começam a transicionar para outros interesses. Eu sempre fazia questão de ler as histórias. Quando o Miguel não se interessava por elas, em algum momento iria ouvir-me cortar algum tipo de privilégio ligado ao consumo. Por outro lado, encarei como uma fase, depois de um tempo, passei a dizer que ele somente ganharia o livro se me mostrasse a história e que os livros com brinquedos eram para bebezinhos (não me olhe assim, não há jogo limpo quando se cria um leitor).

Por outro lado, os livros também podem “ser” brinquedos. Veja o vídeo abaixo.

Cuidado!… Cuidado!!

O FATO É QUE: Encher a casa de livros não adianta nada se você não lê… com ele/ela (falo das crianças).

6. Lendo com as crianças. Por algum tempo estudei a História da Leitura, mas não precisaria disso para saber que durante cerca de 98% da nossa história, a esmagadora maioria da humanidade foi completamente analfabeta, iletrada, esteve longe das letras e dos livros. Ainda assim, as pessoas contavam e sabiam histórias. Quando os níveis de leitura começam a crescer no século XIX não se está falando apenas de maiores níveis de alfabetização, mas também do que viemos a chamar de leitura partilhada. O fato de alguém não estar alfabetizado não o impede de ser um leitor, desde que a leitura seja compartilhada. Não basta pegar um livro na beira da cama da criança e ir contando com base nas figurinhas ou do que você lembra da História de João e o Pé de Feijão. A leitura partilhada é ler. Prestar atenção ao texto, às linhas, aos parágrafos, ao ritmo de cada página. Perceber o que desperta a criança, o que a embala, o que a entedia. É uma troca. É envolver a criança no texto e conversar com ela sobre ele.

Nessa fase, marquei meu primeiro ponto lendo Branca de Neve para o Miguel. No meio da história ele me faz parar a leitura e comenta: “são folgados esses anõezinhos, hein?” Por que? “Ora, mãe, você me disse que eles não são crianças, mas eles querem que a Branca de Neve faça tudo para eles”.

Hoje, contabilizo mais pontos. Leitura de A Fantástica Fábrica de Chocolates (duas vezes em sequencia); Charlie e o Elevador de Vidro; toda a coleção do Capitão Cueca (12 livros, recomendo); os 7 volumes de Harry Potter; O feiticeiro de Terramar (da Úrsula Le Guin); O bom Gigante amigo; Matilda (Roald Dahl é sucesso absoluto, estamos esperando As Bruxas)…

Agora, ele começa a ler no ritmo dele, está descobrindo HQs, mas mantém os livros na leitura partilhada, vendo neles também uma fase de aprendizagem. “Logo vou ler esses sozinho, não é mãe?”  É.

All male…

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Congrats, you have all male panel

Olhando o gabinete do interino (letras minúsculas), lembrei de um capítulo que estudei com meus alunos de História Contemporânea II. Não é a primeira vez que uso, mas foi a última. O capítulo trata sobre a cultura nos anos do entre-guerras. Não se trata de um texto analítico, mas informativo. Coloca os principais acontecimentos e faz umas extensas listas de criadores culturais. Listas por si só podem ser complicadas, no entanto, listas em que apenas figuram homens quando se trata de criação (cultural, tecnológica, política) tendem a ser muito mais problemática.

Pode-se argumentar que quando tal capítulo foi escrito, não havia patrulhas feministas rondando armadas a selvas da internet. Bem, o livro foi publicado nesse século, eu não vejo escusas para um historiador não se dar conta de que na sua lista só há homens.

Mas o fato é que isso está naturalizado. Tão naturalizado que eu mesma só me dei conta esse ano e terei de achar outro texto para colocar no lugar quando repetir a matéria, pelo simples fato de que não, não é mais aceitável que naturalizemos uma cultura primordialmente masculina. Até porque, pasme(!), as mulheres existem, existiram, criam e criaram cultura, não foram somente estrelas de cinema. Não tivemos apenas Virginia Woolf, a única mulher que, ao que parece, alcançou o status de ter de ser obrigatoriamente citada. Mas, com todo o seu brilhantismo, ela foi uma, não a única.

Então, assim como me incomodou o texto, o ministério me incomodou sobremaneira. Uma pena não poder trocá-lo como farei com o texto. Mas, pensando contra mim mesma, perguntei-me se me incomodaria um ministério só de mulheres. Respondi-me que não. Seria uma novidade, uma experiência. No entanto, imagino que isso incomodaria a maioria das pessoas que não viu qualquer problema num ministério de homens brancos e réus na justiça e eu queria perguntar por quê?

Para terminar, uma listinha das mulheres que produziram, especial na literatura e na política, no período entre-guerras. E não, elas não são esquecíveis.

Gertrude Stein https://pt.wikipedia.org/wiki/Gertrude_Stein

Emma Goldman http://jwa.org/womenofvalor/goldman

Rosa de Luxemburgo https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Luxemburgo

Anaïs Nin https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana%C3%AFs_Nin

Katherine Mansfield http://www.goodreads.com/author/show/45712.Katherine_Mansfield

Dorothy Parker https://www.poets.org/poetsorg/poet/dorothy-parker

Irene Nemirovsky http://jwa.org/encyclopedia/article/nemirovsky-irene

Alexandra Kollontai https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Kollontai

Edith Wharton http://www.online-literature.com/wharton/

Colette https://en.wikipedia.org/wiki/Colette

Pagu https://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu

A lista não se esgota e, olhem, nem falei das artistas plásticas como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Ou das áreas da ciência, etc.

 

Eu tinha 13 para 14 anos, era 1987…

Que país é esse

Escritos de adolescência, em geral, causam vergonha. Os meus não são diferentes. Ontem, porém, dia 11 de maio de 2016, dia tão difícil para o Brasil, encontrei esse poema, da época em que me atrevia a poesia engajada (atualmente acredito que a poesia pede talento muito superior a qualquer um que já tive). Essa época, entretanto, era intensamente inspirada pela leitura apaixonada de Que país é este?, de Afonso Romano de Sant’Anna, o qual eu declamava no clube de declamação do Colégio Centenário, sob a orientação da fantástica Professora Norminha.

A Norminha e outros, como o Professor José, foram grandes incentivadores da minha escrita. Mas também tive professores incentivadores do meu engajamento, como a professora Soni, a Professora Ivete, a Professora Hugélia, o Prof. João Rodolfo, a Turca (prof de filosofia), a Deise de biologia (estas ultimas também incentivadoras do meu feminismo). Devo muito, muito a el@s. E a profissional que sou hoje também deve.

Hoje, numa época em que se quer falar de escola “sem partido” (a falsa neutralidade que oblitera o conhecimento e o ensino), eu rendo homenagem aos meus professores. Esses incríveis e maravilhosos professores que, em tempos de difícil abertura política da década de 1980, foram faróis e jamais negaram seu papel de educadores.

Trago para este texto para blog como um registro. Do que muda e do que não munda. O Brasil mudou e não mudou. Que correu largas distâncias e hoje volta sobre os seus passos. Eu mudei obviamente e, em muitos sentidos, nos mais profundos dos sentidos, eu também pouco mudei. Nem pretendo. Como se diz atualmente nas redes #soudessas.

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Cansada de coisas sérias: regras pessoais de admissão de amigos na RS

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Apenas porque hoje estou cansada das coisas sérias, seguem minhas regras pessoais para aceitar pedidos de amizade nas redes sociais.

  1. Vem cá, te conheço?
  2. Quais dos meus amigos te conhecem?
  3. Eu lembro quem são esses amigos?
  4. Seus pais te odiavam tanto assim para dobrar todas as consoantes do seu nome ou você é fake mesmo?
  5. Moço, num mundo de tantas imagens e fotos, você acredita MESMO que seu melhor ângulo é sem camisa?

Passando tais fases, vamos a porcentagem de besteiras versus bobagens postadas. Todos têm, só vou conferir.